Origem
Capítulo 77
Ansioso, rompeu o lacre, abriu o envelope e tirou um cartão escrito à mão. A letra de seu pai não era mais como antigamente, mas continuava legível. Ao começar a ler, Julián sentiu sua perplexidade crescer a cada palavra.
Quando terminou, enfiou o cartão de volta no envelope e fechou os olhos, pensando nas opções. Só havia uma, claro.
– Vá para o norte, por favor – disse ao motorista.
Enquanto o veículo se afastava do Escorial, o príncipe sentiu Valdespino encarando-o.
– O que o seu pai disse? – perguntou o bispo. – Aonde o senhor está me levando?
Julián soltou o ar e se virou para o amigo de confiança de seu pai.
– O senhor tinha razão, mais cedo. – Ele deu um sorriso triste para o velho bispo. – Meu pai ainda é o rei. Nós o amamos e fazemos o que ele ordena.
C A P Í T U L O 7 7
– Robert…? – sussurrou uma voz.
Langdon tentou responder, mas sua cabeça estava latejando.
– Robert…?
Uma mão macia tocou seu rosto e Langdon abriu os olhos devagar.
Momentaneamente desorientado, pensou que estava sonhando. Um anjo de branco está pairando acima de mim.
Quando reconheceu o rosto, conseguiu dar um sorriso débil.
– Graças a Deus – disse Ambra, soltando de uma vez todo o ar dos pulmões. –
Nós ouvimos o tiro. – Ela se agachou ao lado dele. – Fique deitado.
Enquanto sua consciência voltava, Langdon sentiu um medo súbito.
– O homem que me atacou…
– Morreu – sussurrou Ambra com a voz calma. – Você está em segurança. –
Ela indicou a borda do poço da escada. – Ele caiu. Lá embaixo.
Langdon se esforçou para absorver a notícia. Tudo estava retornando aos poucos. Lutou para clarear a névoa da mente e avaliar seus ferimentos, com a atenção indo para o latejar forte no quadril direito e a dor aguda na cabeça. Fora isso, nada parecia quebrado. O som de rádios da polícia ecoou no poço.
– Quanto tempo… eu estive…
– Alguns minutos – respondeu Ambra. – Você ficou acordando e apagando.
Temos que levá-lo para ser examinado.
Cauteloso, Langdon se sentou, encostado na parede da escada.
– Foi o oficial… da Marinha – disse. – O que…
– Eu sei. – Ambra assentiu. – O que matou Edmond. A polícia acaba de identificá-lo. Estão na base da escada com o corpo e querem ouvir você, mas o padre Beña disse que ninguém sobe até aqui antes da equipe médica, que deve chegar a qualquer momento.
Langdon assentiu, com a cabeça martelando.
– Provavelmente vão levá-lo para um hospital – disse ela. – O que significa que nós dois precisamos falar agora… antes que eles cheguem.
– Falar… o quê?
Ambra o examinou, parecendo preocupada. Inclinou-se perto do seu ouvido e murmurou:
– Robert, você não lembra? Nós descobrimos. A senha do Edmond. O verso do
Blake: “As religiões das trevas partiram e reina a doce ciência.”
As palavras perfuraram a névoa como uma flecha e Langdon se empertigou, com a escuridão mental se dissipando num instante.
– Você nos trouxe até aqui – disse Ambra. – Eu posso fazer o resto. Você disse que sabe como encontrar o Winston. O local do laboratório de informática do Edmond. Diga aonde ir e eu faço o resto.
As lembranças de Langdon voltaram numa torrente.
– Eu sei.
Pelo menos acho que posso descobrir.
– Diga.
– Precisamos atravessar a cidade.
– Até onde?
– Não sei o endereço – disse Langdon, agora se levantando inseguro. – Mas posso levar você…
– Sente-se, Robert, por favor!
– É, sente-se – ecoou um homem, surgindo na escada abaixo deles. Era o padre Beña, subindo ofegante. – Os paramédicos estão quase aqui.
– Estou bem – mentiu Langdon, sentindo-se tonto enquanto se encostava na parede. – Ambra e eu precisamos ir agora.
– Vocês não irão muito longe – disse Beña, subindo devagar. – Os policiais estão esperando. Eles querem tomar seu depoimento. Além disso, a igreja está cercada por repórteres. Alguém informou que vocês estavam aqui. – O padre chegou ao lado deles e deu um sorriso cansado para Langdon. – Por sinal, a Srta. Vidal e eu estamos aliviados em ver que o senhor está bem. O senhor salvou nossa vida.
Langdon riu.
– Tenho certeza de que o senhor salvou a nossa.
– Bom, de qualquer modo só quero que o senhor saiba que não poderá sair dessa escada sem enfrentar a polícia.
Langdon pôs as mãos na borda de pedra e se inclinou, olhando para baixo. A cena macabra no chão parecia distante demais – o corpo de Ávila esparramado desajeitadamente e iluminado pelo facho de várias lanternas nas mãos de policiais.
Enquanto olhava pelo poço espiralado, notando de novo o elegante desenho de Gaudí que imitava as curvas de um náutilo, seu pensamento saltou para algo que vira no site da Sagrada Família, mais especificamente na parte sobre o Museu Gaudí, que ficava no porão da igreja. O site na internet, que Langdon tinha visitado não muito tempo atrás, tinha uma série espetacular de modelos em escala da basílica –
renderizados com precisão por programas de CAD e enormes impressoras 3D –, mostrando a longa evolução da estrutura, desde a colocação dos alicerces até o glorioso término da igreja, para o qual ainda faltava pelo menos uma década.
De onde viemos? , pensou Langdon. Para onde vamos?
Uma lembrança súbita o assaltou: um dos modelos do exterior da igreja. A
imagem estava alojada em sua memória fotográfica. Era um protótipo mostrando o estágio atual da construção, intitulado “A Sagrada Família Hoje”.
Se aquele modelo estiver atualizado, pode haver uma saída.
Virou-se de repente para Beña.
– Padre, o senhor poderia passar um recado meu para uma pessoa lá fora?
O padre pareceu intrigado.
Enquanto Langdon explicava seu plano para sair do prédio, Ambra balançou a cabeça.
– Robert, isso é impossível. Lá em cima não há nada para…
– Na verdade – exclamou Beña –, há. Não vai estar lá para sempre, mas no momento o Sr. Langdon está certo. O que ele está sugerindo é possível.
Ambra pareceu surpresa.
– Mas, Robert… Mesmo que a gente escape, tem certeza de que você não deveria ir para o hospital?
Àquela altura, Langdon não tinha muita certeza de nada.
– Posso ir mais tarde, se precisar. Neste momento temos uma dívida com o Edmond: precisamos terminar o que viemos fazer. – Ele se virou para Beña, olhando-o nos olhos. – Preciso ser honesto com o senhor, padre, sobre o motivo que nos trouxe aqui. Como o senhor sabe, Edmond Kirsch foi assassinado esta noite para não anunciar uma descoberta científica.
– Sim – disse o padre. – E, pelo tom da introdução, parece que ele acreditava que essa descoberta faria um mal terrível às religiões do mundo.
– Exato, e é por isso que gostaria que o senhor soubesse que a Srta. Vidal e eu viemos a Barcelona esta noite num esforço para revelar a descoberta de Edmond.
Estamos muito perto de conseguir isso. O que quer dizer… – Langdon fez uma pausa. – Que ao requisitar sua ajuda estou essencialmente pedindo que nos auxilie a transmitir para o mundo inteiro as palavras de um ateu.
Beña pôs a mão no ombro de Langdon.
– Professor – disse ele com um risinho –, Edmond Kirsch não é o primeiro ateu da história a proclamar que “Deus está morto”, nem será o último. O que quer que o Sr. Kirsch tenha descoberto, sem dúvida será debatido por todos os lados. Desde o início dos tempos, o intelecto humano sempre evoluiu, e meu papel não é impedir essa evolução. Mas, segundo minha perspectiva, nunca houve um avanço intelectual que não incluísse Deus.
Com isso, o padre Beña deu um sorriso tranquilizador aos dois e começou a descer a escada.
Do lado de fora, esperando na cabine do helicóptero EC145 estacionado, o piloto olhava com preocupação crescente a multidão cada vez maior junto à cerca de segurança da Sagrada Família. Não tivera mais notícias dos dois agentes da Guardia e já ia pegar o rádio quando um homenzinho de batina preta saiu da basílica e se aproximou do helicóptero.
Ele se apresentou como o padre Beña e passou uma mensagem chocante vinda de dentro: os dois agentes da Guardia tinham sido mortos e a futura rainha e Robert Langdon precisavam ser evacuados agora mesmo. Como se isso não fosse suficientemente espantoso, o padre contou ao piloto onde, exatamente, ele deveria pegar os passageiros.