Origem
Capítulo 42
Garza não podia acreditar que o príncipe abandonaria seu telefone numa noite em que as comunicações eram tão fundamentais.
E para onde eles foram?
Garza tentou, então, ligar para o celular de Valdespino, esperando que o bispo atendesse. Para sua perplexidade absoluta, um segundo toque abafado soou dentro do cofre.
Valdespino também largou o telefone dele?
Cada vez mais apreensivo e com os olhos arregalados, saiu correndo do apartamento. Nos minutos seguintes, disparou pelos corredores gritando, procurando tanto nos andares de cima como nos de baixo.
Eles não podem ter evaporado!
Quando finalmente parou de correr, pegou-se sem fôlego na base da elegante escadaria de Sabatini. Baixou a cabeça, derrotado. Agora o tablet estava dormindo, mas na tela enegrecida dava para ver o reflexo do afresco no teto, diretamente acima.
A ironia era cruel. O afresco era a grandiosa obra-prima de Giaquinto: A Religião Protegida pela Espanha.
C A P Í T U L O 4 2
Enquanto o Gulfstream G550 subia até a altitude de cruzeiro, Robert Langdon olhava, sem expressão, pela janela oval e tentava organizar as ideias. As últimas duas horas tinham sido um redemoinho de emoções – desde a empolgação de assistir ao início da apresentação de Edmond até o horror dilacerante de ver seu assassinato medonho. E o mistério da apresentação só parecia se aprofundar à medida que Langdon pensava nela.
Que segredo Edmond descobriu?
De onde viemos? Para onde vamos?
As palavras de Edmond na escultura espiral, mais cedo, retornaram à mente de Langdon: Robert, a descoberta que eu fiz… responde claramente a essas duas perguntas.
Edmond tinha dito que resolvera dois dos maiores mistérios da vida. No entanto, pensou Langdon, como a notícia poderia ser tão perigosamente incômoda a ponto de alguém tê-lo assassinado para manter tudo em segredo?
Só tinha certeza de que Edmond estava se referindo à origem e ao destino dos seres humanos.
Que origem chocante Edmond descobriu?
Que destino misterioso?
O ex-aluno tinha se mostrado otimista e animado com relação ao futuro, assim parecia improvável que sua previsão fosse algo apocalíptico. Então o que Edmond poderia ter previsto que preocupasse tanto os clérigos?
– Robert? – Ambra se materializou perto dele com uma xícara de café quente. –
Você disse que queria puro?
– Perfeito, obrigado.
Langdon aceitou a xícara, agradecido, esperando que um pouco de cafeína ajudasse a desatar seus pensamentos embolados.
Ambra sentou-se diante dele, pegou uma garrafa elegantemente ornamentada e se serviu de uma taça de vinho tinto.
– Edmond carrega um estoque de Château Montrose a bordo. É uma pena desperdiçar.
Langdon tinha provado o Montrose uma vez, numa antiga adega secreta sob o Trinity College em Dublin, enquanto pesquisava o manuscrito com iluminuras conhecido como Livro de Kells.
Ambra segurou a taça com as duas mãos e, enquanto a levava aos lábios, olhou para Langdon por cima da borda. De novo ele se pegou estranhamente desarmado pela elegância natural daquela mulher.
– Andei pensando – começou ela. – Você disse antes que Edmond esteve em Boston e perguntou sobre várias histórias da Criação?
– É, há cerca de um ano. Ele estava interessado nos diferentes modos pelos quais as principais religiões responderam à pergunta: “De onde viemos?”
– Então talvez esse seja um bom lugar para começarmos, não é? Talvez possamos descobrir em que ele estava trabalhando.
– Sou totalmente a favor de começar pelo início, mas não sei direito o que há para descobrir. Só existem duas escolas de pensamento sobre a nossa origem: a ideia religiosa de que Deus criou os seres humanos totalmente formados e o modelo darwiniano em que nós nos arrastamos para fora da sopa primordial e finalmente evoluímos até virar seres humanos.
– E se Edmond descobriu uma terceira possibilidade? – perguntou Ambra, com os olhos castanhos brilhando. – E se isso for parte da descoberta? E se ele provou que a espécie humana não veio de Adão e Eva nem da evolução darwiniana?
Langdon precisou admitir que uma descoberta assim – uma história alternativa para a origem humana – seria capaz de abalar o planeta, mas simplesmente não conseguia imaginar o que poderia ser.
– A teoria da evolução de Darwin é extremamente bem estabelecida porque é baseada em fatos cientificamente observáveis – disse ele. – E ilustra com clareza como os organismos evoluem e se adaptam ao ambiente com o correr do tempo. A teoria da evolução é aceita pelas mentes mais afiadas da ciência.
– É mesmo? Já vi livros argumentando que Darwin estava totalmente errado.
– O que ela diz é verdade – entoou Winston ao telefone, que estava recarregando na mesa à frente deles. – Mais de 50 títulos foram publicados somente nas últimas duas décadas.
Langdon tinha esquecido que Winston ainda estava com eles.
– Alguns desses livros foram best-sellers – acrescentou Winston. – O Que Darwin Entendeu Errado… Derrotando o Darwinismo… A Caixa-Preta de Darwin… O Julgamento de Darwin… O Lado Sombrio de Charles Dar…
– É – interrompeu Langdon, totalmente consciente do número substancial de livros que diziam provar que Darwin estava errado. – Na verdade, eu li dois, há algum tempo.
– E? – pressionou Ambra.
Langdon deu um sorriso educado.
– Bom, não posso falar por todos, mas os dois que eu li argumentavam a partir de um ponto de vista fundamentalmente cristão. Um deles chegava ao ponto de sugerir que todos os registros fósseis foram postos por Deus “com o objetivo de testar nossa fé”.
Ambra franziu a testa.
– Certo, então eles não fizeram você mudar de ideia.
– Não, mas me deixaram curioso, por isso pedi a opinião de um professor de Biologia de Harvard sobre os livros. – Langdon sorriu. – O professor, por sinal, era o falecido Stephen J. Gould.
– Por que eu conheço esse nome? – perguntou Ambra.
– Stephen J. Gould – explicou Winston imediatamente. – Famoso biólogo evolucionário e paleontólogo. Sua teoria do “equilíbrio pontuado” preencheu algumas lacunas no registro fóssil e ajudou a sustentar o modelo de evolução de Darwin.
– Gould simplesmente riu – lembrou Langdon – e me disse que a maioria dos livros anti-Darwin são publicados por entidades como o Institute for Creation Research, uma organização que pesquisa a Criação mas, segundo seus próprios materiais de divulgação, considera a Bíblia um relato literal e infalível de fatos históricos e científicos.
– O que quer dizer – emendou Winston – que eles acreditam que as sarças ardentes podem falar, que Noé conseguiu enfiar todas as espécies vivas num único barco e que as pessoas se transformam em estátuas de sal. Não são os alicerces mais firmes para uma organização de pesquisa científica.
– Verdade – concordou Langdon. – No entanto, existem alguns livros não religiosos que tentam desacreditar Darwin a partir de um ponto de vista histórico, acusando-o de roubar sua teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, o primeiro a propor que os organismos se transformavam reagindo ao ambiente.
– Essa linha de pensamento é irrelevante, professor – observou Winston. – O
fato de Darwin ser culpado ou não de plágio não altera a veracidade de sua teoria evolucionária.
– Não posso questionar isso – disse Ambra. – Assim, Robert, presumo que, se você perguntasse ao professor Gould “De onde viemos?”, ele responderia, sem sombra de dúvida, que nós evoluímos a partir dos primatas.
Langdon assentiu.
– Estou explicando a meu modo, mas essencialmente Gould me garantiu que entre os cientistas de verdade não existe dúvida de que a evolução está acontecendo.
Empiricamente nós podemos observar o processo. Ele acreditava que as melhores perguntas eram: Por que a evolução está acontecendo? E como ela começou?
– Ele deu alguma resposta? – perguntou Ambra.
– Nenhuma que eu pudesse entender, mas ilustrou o argumento com uma experiência mental. Chama-se Experiência do Corredor Infinito.
Langdon fez uma pausa, tomando outro gole de café.
– É uma ilustração útil – entoou Winston antes que Langdon pudesse falar. –
Imagine-se andando por um corredor comprido, tão comprido que é impossível ver de onde você veio ou para onde está indo.
Langdon assentiu, impressionado com a amplitude dos conhecimentos de Winston.
– Então, lá atrás, a distância – continuou Winston –, você escuta o som de uma bola quicando. E quando se vira, vê uma bola quicando na sua direção. Ela vem quicando cada vez mais perto, até que finalmente passa por você e segue em frente, quicando até sumir.
– Correto – disse Langdon. – A questão não é: A bola está quicando? Porque sem dúvida a bola está quicando. Podemos observá-la. A questão é: Por que ela está quicando? Como começou a quicar? Alguém deu um chute nela? É uma bola especial que simplesmente gosta de quicar? As leis da física nesse corredor implicam que a bola não tem opção a não ser quicar para sempre?
– O argumento de Gould – concluiu Winston – é que, como acontece com a evolução, não podemos enxergar suficientemente longe, no passado, para ver como o processo começou.
– Exato – concordou Langdon. – Só podemos observar que ele está acontecendo.
– Um desafio semelhante ao que enfrentamos para entender o Big Bang – disse Winston. – Os cosmólogos criaram fórmulas elegantes para descrever o Universo em expansão durante qualquer período de tempo “T” no passado ou no futuro. Mas, quando tentam ver o instante em que o Big Bang ocorreu, em que T é igual a zero, a matemática enlouquece, descrevendo o que parece ser um ponto místico de calor e densidade infinitos.
Langdon e Ambra se entreolharam impressionados.
– Correto de novo – admitiu Langdon. – E como a mente humana não é equipada para abordar muito bem o “infinito”, hoje em dia a maior parte dos cientistas discute o Universo apenas em termos de instantes depois do Big Bang, onde T é maior do que zero. O que garante que a matemática não fique mística.
Um colega de Langdon em Harvard – um solene professor de Física – tinha ficado tão farto dos estudantes de Filosofia que compareciam ao seu curso sobre Origens do Universo que finalmente colocou uma placa na porta da sala.
Na minha sala T>0.
Para todas as indagações em que T=0,
visite, por favor, o Departamento de Religião.
– E a panspermia? – perguntou Winston. – A ideia de que a vida na Terra foi semeada a partir de outro planeta por um meteoro ou poeira cósmica? A panspermia é considerada uma possibilidade cientificamente válida para explicar a existência da vida no planeta.
– Mesmo se for verdade – objetou Langdon –, essa teoria não diz como a vida começou no Universo. Só estamos embromando, ignorando a origem da bola quicando e adiando a grande questão: De onde vem a vida?
Winston ficou em silêncio.