Origem

Dan Brown · Capítulo 42 de 107

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Capítulo 43

Ambra tomou um gole de vinho, divertindo-se com o embate entre eles.

Quando o Gulfstream G550 alcançou a altitude de cruzeiro e se estabilizou, Langdon ficou pensando no que significaria para o mundo se Edmond realmente tivesse encontrado a resposta para a pergunta ancestral: De onde viemos?

E, no entanto, segundo Edmond, essa resposta era apenas parte do segredo.

Qualquer que fosse a verdade, o futurólogo tinha protegido os detalhes da sua revelação com uma senha formidável – um verso de 47 letras. Se tudo corresse de acordo com o plano, em pouco tempo Langdon e Ambra iriam descobri-la dentro da casa de Edmond em Barcelona.

C A P Í T U L O 4 3

Quase uma década depois de ter sido criada, a dark web continua sendo um mistério para a maioria dos usuários da internet. Inacessível através dos mecanismos de busca tradicionais, essa área sinistra e sombria da rede mundial fornece acesso anônimo a um espantoso cardápio de mercadorias e serviços ilegais.

Desde seu início humilde abrigando o Silk Road – o primeiro mercado negro para drogas ilegais na internet –, a dark web cresceu até virar uma rede gigantesca de sites ilícitos que comercializam armas, pornografia infantil, segredos políticos e até profissionais de aluguel, inclusive prostitutas, hackers, espiões, terroristas e assassinos.

Toda semana milhões de transações são realizadas na dark web e, nesta noite, perto dos bares de ruína de Budapeste, um dos serviços contratados ali estava para ser concluído.

O homem de boné e jeans movia-se discretamente pela Rua Kazinczy, permanecendo nas sombras enquanto seguia a presa. Nos últimos anos, missões como aquela tinham se transformado no seu ganha-pão e eram sempre negociadas através de um punhado de redes populares: Unfriendly Solution, Hitman Network e BesaMafia.

A indústria dos matadores de aluguel movimentava bilhões de dólares e crescia diariamente, acima de tudo devido à garantia de negociações anônimas na dark web e pagamento com Bitcoins, impossível de ser rastreado. A maioria dos serviços tinha a ver com fraudes de seguros, sociedades comerciais problemáticas ou casamentos turbulentos, mas as causas jamais eram uma preocupação para a pessoa contratada.

Sem perguntas, pensava o matador. Essa é a regra não verbalizada que faz com que meu negócio funcione.

Tinha aceitado o serviço desta noite alguns dias antes. Seu contratante anônimo havia oferecido 150 mil euros para vigiar a casa de um velho rabino e permanecer

“em contato” para o caso de alguma ação ser necessária – o que, nesse caso, significava invadir a casa do homem e injetar-lhe cloreto de potássio na veia, causando sua morte imediata devido a um aparente ataque cardíaco.

Hoje, inesperadamente, o rabino tinha saído de casa no meio da noite e pegado um ônibus para um bairro dilapidado. O assassino seguiu-o e depois usou o programa criptografado em seu smartphone para informar a novidade ao contratante.

O alvo saiu de casa. Foi até a área de bares.

 

Talvez para encontrar alguém?

A resposta do contratante foi quase imediata.

Executar.

Agora, em meio aos bares de ruínas e os becos escuros, o que havia começado como uma tocaia se transformava num jogo mortal de gato e rato.

O rabino Yehuda Köves estava suando e sem fôlego enquanto ia pela Rua Kazinczy. Seus pulmões ardiam e ele sentia que a bexiga estava a ponto de explodir.

Só preciso de um toalete e de um pouco de descanso, pensou, parando no meio de um grupo reunido diante do Szimpla – um dos maiores e mais famosos bares de ruína de Budapeste. Frequentadores de todas as idades e profissões formavam uma mistura tão eclética que ninguém olhou duas vezes para o velho rabino.

Vou parar só um momento, decidiu ele, indo na direção do bar.

Antigamente uma mansão de pedra espetacular, com sacadas elegantes e janelas altas, o bar Szimpla agora não passava de uma casca dilapidada coberta por pichações. Enquanto cruzava o pórtico amplo daquela que já fora uma residência grandiosa, Köves viu uma mensagem em código na entrada: EGG-ESH-AY-GED-REH!

Demorou um momento para perceber que era somente a grafia fonética da palavra egészségedre, que em húngaro significa “saúde!”.

Ao entrar, olhou incrédulo o interior gigantesco do bar. No meio da mansão arruinada, havia um enorme pátio com os objetos mais estranhos que o rabino já vira: um sofá feito de uma banheira, manequins montados em bicicletas suspensas no ar e um sedã Trabant da Alemanha Oriental, que tinha sido estripado e agora servia como assento improvisado para os clientes.

O pátio era cercado por paredes adornadas com uma colcha de retalhos de pichações feitas com tinta spray, cartazes da era soviética, esculturas clássicas e plantas penduradas que se derramavam pelas sacadas interiores apinhadas de fregueses, todos oscilando às batidas fortes da música. O ar cheirava a cigarro e cerveja. Casais jovens se beijavam apaixonadamente em plena vista enquanto outros fumavam discretamente cachimbos pequenos e tomavam tragos de pálinka, uma popular aguardente de fruta engarrafada na Hungria.

Köves sempre tinha achado irônico que os seres humanos, apesar de serem a criação mais sublime de Deus, no fundo ainda fossem animais – e seu comportamento, em grande medida, fosse provocado pela busca por confortos básicos. Nós confortamos o corpo físico na esperança de que a alma também

 

encontre conforto. Köves passava boa parte do tempo aconselhando pessoas que cediam exageradamente às tentações animais da carne – acima de tudo, comida e sexo. Com o crescimento do vício em internet e em drogas baratas, seu trabalho ficava mais desafiador a cada dia.

O único conforto básico de que Köves necessitava no momento era um banheiro, por isso ficou consternado ao encontrar uma fila de dez pessoas. Incapaz de esperar, subiu cautelosamente a escada, onde lhe disseram que encontraria vários outros toaletes. No segundo andar da mansão, o rabino se moveu por um labirinto de salas e quartos interligados, cada qual com seu próprio bar ou lugar para sentar.

Perguntou a um garçom sobre o banheiro e o homem apontou para um corredor a uma boa distância dali, aparentemente acessível por uma comprida sacada acima do pátio.

Köves foi rapidamente para a sacada, apoiando-se no corrimão. Enquanto andava, olhou o pátio movimentado lá embaixo, onde um mar de jovens girava com a pulsação profunda da música.

Então viu.

Parou, seu sangue de repente gelado.

Ali, no meio da multidão, estava o homem de boné e jeans olhando diretamente para ele. Por um breve instante os dois se encararam. Então, com a velocidade de uma pantera, o homem de boné partiu para a ação, abriu caminho entre os fregueses e subiu correndo a escada.

O assassino subia depressa, examinando cada rosto pelo qual passava. O bar Szimpla era bastante familiar para ele. Subiu até a sacada onde seu alvo estivera.

O rabino havia sumido.

Não passei por você, pensou o matador, o que significa que ainda está no prédio.

Levantando o olhar para um corredor escuro adiante, o assassino sorriu, suspeitando de que sabia exatamente onde seu alvo tentaria se esconder.

O corredor era apertado e fedia a urina. Na outra ponta havia uma porta de madeira empenada.

O matador foi andando com estardalhaço e bateu com força à porta.

Silêncio.

Bateu de novo.

Uma voz profunda lá dentro grunhiu, dizendo que o lugar estava ocupado.

– Bocsássom meg! – desculpou-se o matador num tom de voz suave e fingiu que estava se afastando, fazendo barulho.

Então deu meia-volta em silêncio e retornou à porta, encostando o ouvido na madeira. Dentro, podia ouvir o rabino sussurrando desesperadamente em húngaro.

– Alguém está tentando me matar! Ele estava na frente da minha casa! Agora me encurralou dentro do bar Szimpla em Budapeste! Por favor, mande ajuda!

Aparentemente o alvo tinha ligado para o 112, o número da polícia em Budapeste. O tempo de reação da polícia era notoriamente lento, mas mesmo assim o assassino tinha ouvido o suficiente.

Olhando para trás, para ver se estava sozinho, virou o ombro musculoso na direção da porta, inclinou-se para trás e sincronizou o golpe com a pancada trovejante da música.

A dobradiça velha estourou na primeira tentativa. A porta se abriu com estrondo. O assassino entrou, fechou a porta e encarou sua presa.

O homem encolhido no canto parecia tão confuso quanto aterrorizado.

O assassino pegou o telefone do rabino e jogou no vaso sanitário.

– Quem mandou você? – gaguejou Köves.

– A beleza da minha situação – respondeu o homem – é que não tenho como saber.

Agora o velho chiava, suando profusamente. De repente, começou a ofegar, os olhos se arregalando enquanto apertava o peito com as duas mãos.

Sério? , pensou o assassino, sorrindo. Ele está tendo um ataque cardíaco?

No piso do banheiro, o velho se retorcia engasgado, os olhos implorando compaixão enquanto o rosto ficava vermelho e ele apertava o peito. Por fim virou de rosto para baixo no ladrilho sujo, onde ficou tremendo e se sacudindo enquanto a bexiga se esvaziava nas calças e um fio de urina corria pelo chão.

Por fim, o rabino ficou imóvel.

O assassino se agachou e tentou ouvir a respiração. Nada.

Então se levantou com um risinho.

– Você tornou meu serviço mais fácil do que eu previa.

Com isso, foi para a porta.

Os pulmões do rabino Köves ansiavam por ar.

Tinha conseguido fazer o desempenho de toda uma vida.

À beira da inconsciência, ficou imóvel escutando os passos do agressor pelo banheiro. A porta se abriu rangendo e se fechou com um estalo.

Silêncio.

Köves se obrigou a esperar mais alguns instantes para garantir que o assassino não poderia ouvi-lo. Depois, incapaz de esperar mais um segundo, exalou e começou

a respirar profundamente. Até mesmo o ar rançoso do banheiro tinha gosto de algo mandado pelo céu.

Abriu lentamente os olhos, com a visão turva pela falta de oxigênio. Enquanto levantava a cabeça latejante, a visão começou a clarear. Para sua perplexidade, viu uma figura escura parada do lado de dentro da porta fechada.

O homem de boné estava sorrindo para ele.

Köves se imobilizou. Ele não saiu do banheiro.