Origem

Dan Brown · Capítulo 68 de 107

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Capítulo 70

O agente Díaz sentiu-se grato pelo momento de paz enquanto olhava as três figuras desaparecerem na escada sinuosa. A tensão cada vez maior entre Ambra Vidal e o agente Fonseca estava ficando preocupante.

Os agentes da Guardia não estão acostumados com ameaças de demissão por parte das pessoas que eles protegem – só do comandante Garza.

Díaz ainda estava perplexo com a detenção de Garza. De modo estranho, Fonseca tinha se recusado a contar exatamente quem tinha dado a ordem de prisão ou iniciado o boato de sequestro.

– A situação é complexa – dissera Fonseca. – E, para sua própria proteção, é melhor que você não saiba.

Então quem estava dando as ordens? , pensou Díaz. Seria o príncipe? Parecia improvável que Julián arriscasse a segurança de Ambra espalhando uma falsa história de sequestro. Seria Valdespino? Díaz não sabia direito se o bispo teria esse tipo de influência.

– Volto logo – resmungou Fonseca, e se afastou dizendo que precisava encontrar um banheiro.

Enquanto Fonseca ia para a área escura, Díaz o viu pegar o telefone, fazer uma ligação e iniciar uma conversa em voz baixa.

Díaz esperou sozinho no abismo do santuário, sentindo-se cada vez menos confortável com o comportamento sigiloso de Fonseca.

C A P Í T U L O 7 0

A escada da cripta descia o equivalente a três andares para dentro da terra, curvando-se num arco amplo e gracioso antes de deixar Langdon, Ambra e o padre Beña na câmara subterrânea.

Uma das maiores criptas da Europa, pensou Langdon, admirando o vasto espaço circular. Exatamente como lembrava, o mausoléu subterrâneo da Sagrada Família tinha uma rotunda alta e bancos para centenas de fiéis. Lanternas a óleo douradas, postas a intervalos na circunferência do salão, iluminavam um piso de mosaico representando trepadeiras retorcidas, raízes, galhos, folhas e outras imagens da natureza.

Uma cripta era literalmente um local “oculto”, e Langdon achava quase inconcebível que Gaudí tivesse escondido com sucesso um salão tão grande embaixo da igreja. Isso não se parecia nem um pouco com a brincalhona “cripta inclinada” da Colònia Güell; esse espaço era uma austera câmara neogótica com colunas com folhas, arcos pontudos e abóbadas enfeitadas. O ar era mortalmente parado e tinha um leve cheiro de incenso.

Ao pé da escada um recesso profundo estendia-se à esquerda. O piso de arenito claro sustentava uma laje cinza e despretensiosa disposta horizontalmente e cercada por lanternas.

O próprio, percebeu Langdon, lendo a inscrição em latim.

ANTONIUS GAUDÍ

Enquanto examinava o local de descanso de Gaudí, Langdon sentiu de novo a perda aguda de Edmond. Levantou os olhos para a estátua da Virgem Maria acima do túmulo, cuja base tinha um símbolo desconhecido.

Que negócio é esse?

Langdon olhou o ícone estranho.

Raramente Langdon via um símbolo que não conseguia identificar. Nesse caso tinha uma letra grega lambda – que, na sua experiência, não aparecia no simbolismo cristão. O lambda era um símbolo científico, comum nas áreas da evolução, da física de partículas e na cosmologia. Mais estranho ainda: havia uma cruz cristã brotando para cima a partir do topo desse lambda específico.

A religião sustentada pela ciência? Nunca tinha visto nada assim.

– Perplexo com o símbolo? – perguntou Beña, chegando ao lado de Langdon. –

O senhor não é o único. Mas não passa de uma interpretação tremendamente modernista de uma cruz no topo de uma montanha.

Langdon avançou um pouco, agora vendo três fracas estrelas douradas acompanhando o símbolo.

Três estrelas nessa posição, pensou, reconhecendo imediatamente. A cruz no topo do Monte Carmelo.

– É uma cruz carmelita.

– Correto. O corpo de Gaudí está embaixo da Santa Virgem Maria do Monte Carmelo.

– Gaudí era carmelita? – perguntou Langdon, achando difícil imaginar o arquiteto modernista seguindo a interpretação rígida do catolicismo feita pela irmandade do século XII.

– Com certeza não – respondeu Beña, rindo. – Mas quem cuidava dele era. Um grupo de freiras carmelitas morava com Gaudí e cuidou dele nos últimos anos. Elas acreditavam que ele gostaria de ser protegido também na morte e deram esse

presente generoso para esta capela.

– Muito amável – disse Langdon, censurando-se por ter interpretado mal um símbolo tão inocente.

Pelo jeito, todas as teorias da conspiração que circulavam esta noite tinham feito com que até ele começasse a conjurar fantasmas.

– Esse é o livro de Edmond? – perguntou Ambra de repente.

Os dois homens se viraram e a viram ir para as sombras à direita do túmulo de Gaudí.

– É – respondeu Beña. – Desculpe a luz ser tão fraca.

Ambra foi rapidamente para a caixa de vidro e Langdon a acompanhou, vendo que o livro tinha sido relegado a uma parte escura da cripta, sombreado por uma coluna enorme à direita do túmulo.

– Normalmente colocamos ali os panfletos de informações – disse Beña –, mas eu os transferi para outro lugar, abrindo espaço para o livro do Sr. Kirsch. Parece que ninguém notou.

Langdon se juntou rapidamente a Ambra perto de uma caixa parecida com uma arca, com o tampo de vidro inclinado. Dentro, aberta na página 163, quase invisível à luz fraca, estava uma enorme edição das Obras Completas de William Blake.

Como Beña tinha informado, a página em questão não continha um poema, e sim uma ilustração. Langdon tinha pensado em quais das imagens de Deus feitas por Blake deveria esperar, mas certamente não era aquela.

O Ancião dos Dias, pensou, franzindo os olhos na escuridão para enxergar a famosa aquarela de Blake pintada em 1794.

Langdon ficou surpreso porque o padre Beña tinha chamado aquilo de “imagem de Deus”. De fato, a ilustração parecia representar o arquetípico Deus cristão: um velho barbado com cabelos brancos, empoleirado nas nuvens e estendendo a mão para baixo. Mas um pouco de pesquisa por parte de Beña revelaria algo muito diferente. Na verdade, a figura não era o Deus cristão, e sim uma divindade chamada Urizen – um deus conjurado pela imaginação visionária de Blake. Ali, ele era representado medindo o céu com um compasso gigantesco, prestando homenagem às leis científicas do Universo.

A obra tinha um estilo tão futurista que, séculos depois, o famoso físico e ateu Stephen Hawking a havia escolhido como ilustração para a capa do seu livro Deus Criou os Números Inteiros. Além disso, o atemporal demiurgo de Blake vigiava o Rockefeller Center de Nova York, olhando de cima de uma escultura art déco intitulada Sabedoria, Luz e Som.

Langdon olhou para o livro, imaginando de novo por que Edmond teria se esforçado tanto para que ele fosse exposto ali. Seria pura vingança? Um tapa na cara da Igreja Católica?

A guerra de Edmond contra a religião nunca chega ao fim, pensou Langdon, olhando o Urizen de Blake. A riqueza dera a Edmond a capacidade de fazer o que

desejava na vida, mesmo que fosse expor uma arte blasfema no coração de uma igreja cristã.

Raiva e ressentimento, pensou. Talvez seja simples assim. Justa ou injustamente, Edmond sempre havia culpado a religião institucionalizada pela morte da mãe.

– Claro, eu tenho pleno conhecimento de que esta pintura não é do Deus cristão

– disse Beña.

Langdon se virou para o velho sacerdote com surpresa.

– Tem?

– Sim, Edmond foi muito explícito com relação a isso, mesmo não precisando.

Eu conheço as ideias de Blake.

– E mesmo assim não teve problema em expor o livro?

– Professor – sussurrou o padre, sorrindo –, esta é a Sagrada Família. Dentro dessas paredes, Gaudí fundiu Deus, ciência e natureza. O tema desta pintura não é nada de novo para nós. – Seus olhos piscaram misteriosamente. – Nem todos os membros do nosso clero são tão progressistas quanto eu, mas, como o senhor sabe, para todos nós o cristianismo continua sendo uma obra inacabada. – Ele deu um sorriso gentil, assentindo de novo na direção do livro. – Fico feliz porque o Sr.

Kirsch concordou em não expor o cartão dele junto com o livro. Considerando sua reputação, não sei como eu explicaria isso, especialmente depois da apresentação desta noite. – Beña fez uma pausa, com o rosto sombrio. – Mas sinto que esta imagem não é o que vocês esperavam encontrar, não é?

– O senhor está certo. Estamos procurando um verso de um poema de Blake.

– “Tygre Tygre, chama que arde pura / Nas florestas da noite escura”? – sugeriu Beña.

Langdon sorriu, impressionado ao ver que Beña sabia de cor os primeiros versos do poema mais famoso de Blake – uma busca religiosa de seis estrofes perguntando se o mesmo Deus que havia criado o temível tigre também criara o dócil cordeiro.

– Padre Beña? – chamou Ambra, agachando-se e olhando atentamente pelo vidro. – Por acaso, o senhor tem um celular ou uma lanterna portátil?

– Não, sinto muito. Devo pegar uma lamparina do túmulo de Antoni?

– O senhor poderia, por favor? Seria útil.

Beña se afastou a passos rápidos.

No instante em que ele saiu, ela sussurrou, ansiosa:

– Robert! Edmond não escolheu a página 163 por causa da pintura!

– Como assim? – Não há mais nada na página 163.

– É um ardil inteligente.

– Não entendi – disse Langdon, olhando a pintura.

– Edmond escolheu a página 163 porque é impossível mostrá-la sem mostrar simultaneamente a página ao lado, a 162!

 

Langdon virou o olhar para a esquerda, examinando a página anterior ao Ancião dos Dias. À luz fraca não conseguia enxergar grande coisa, a não ser que parecia consistir, toda ela, em um texto escrito à mão com letras minúsculas.

Beña voltou com a lamparina a óleo e entregou a Ambra, que a manteve acima do livro. Enquanto a claridade suave se espalhava sobre o volume aberto, Langdon ofegou, espantado.

A página tinha um texto escrito à mão, como todos os originais de Blake, e as margens eram enfeitadas com desenhos, molduras e figuras variadas. Porém, mais significativo, o texto parecia organizado em estrofes elegantes.

Diretamente acima, na área principal do santuário, o agente Díaz andava de um lado para outro no escuro, imaginando onde seu parceiro estaria.

Fonseca já deveria ter voltado.

Quando o telefone em seu bolso começou a vibrar, ele achou que provavelmente era Fonseca ligando, mas ao verificar o identificador de chamadas viu um nome que jamais esperaria.

Mónica Martín

Não conseguia imaginar o que a coordenadora de RP desejava, mas, o que quer que fosse, ela deveria estar ligando diretamente para Fonseca. Ele é o agente principal dessa equipe.

– Alô – disse. – Aqui é o Díaz.

– Agente Díaz, aqui é Mónica Martín. Tenho alguém que precisa falar com o senhor.

Um instante depois uma voz forte soou na linha.

– Agente Díaz, aqui é o comandante Garza. Por favor, diga que a Srta. Vidal está em segurança.

– Sim, comandante – respondeu Díaz, assumindo involuntariamente a posição de sentido ao som da voz de Garza. – A Srta. Vidal está em perfeita segurança. No momento, o agente Fonseca e eu estamos com ela dentro…

– Não diga isso numa linha de telefone aberta – interrompeu Garza, taxativo. –

Se ela está num lugar seguro, mantenha-a aí. Não se mexa. Fico aliviado em escutar sua voz. Nós tentamos ligar para o agente Fonseca, mas ele não atendeu. Ele está com você?

– Sim, senhor. Ele se afastou um pouco para dar um telefonema, mas deve retornar…

– Não tenho tempo para esperar. No momento estou detido e a Srta. Martín me emprestou o telefone dela. Ouça com muita atenção. Essa história de sequestro, como sem dúvida você sabe, é falsa. Colocou a Srta. Vidal num risco tremendo.