Origem

Dan Brown · Capítulo 16 de 107

Páginas do PDF

Origem

Capítulo 16

Ávila tinha ensaiado aquela missão na mente numerosas vezes. Enfiou a mão no bolso e pegou o rosário de contas grandes. Nesse momento, vinda de um grupo de alto-falantes na parte de cima da cúpula, a voz de um homem trovejou como a de Deus:

– Boa noite, amigos. Meu nome é Edmond Kirsch.

C A P Í T U L O 1 6

Em Budapeste, o rabino Köves andava nervoso à luz fraca do escritório no seu házikó. Segurando o controle remoto da TV, ficou mudando ansiosamente de canal enquanto esperava mais notícias do bispo Valdespino.

Na televisão, vários canais de notícias tinham interrompido a programação regular nos últimos dez minutos para transmitir ao vivo o que acontecia no Guggenheim. Comentaristas discutiam as realizações de Kirsch e especulavam sobre o misterioso comunicado que ele iria fazer. Köves se encolheu diante do interesse crescente.

Já vi esse anúncio.

Três dias antes, na montanha de Montserrat, Edmond Kirsch tinha mostrado uma versão supostamente “não acabada” para Köves, al-Fadl e Valdespino. Agora, suspeitava Köves, o mundo iria ver o mesmo programa.

Esta noite tudo vai mudar, pensou com tristeza.

O telefone tocou, arrancando Köves de sua contemplação. Ele pegou o aparelho.

Valdespino começou sem qualquer preâmbulo:

– Yehuda, infelizmente tenho uma notícia ruim.

Em tom sombrio, ele repassou um relato bizarro que vinha naquele mesmo instante dos Emirados Árabes Unidos.

Köves cobriu a boca, horrorizado.

– O allamah al-Fadl… cometeu suicídio?

– É o que as autoridades estão especulando. Ele foi encontrado há pouco tempo no meio do deserto… como se simplesmente tivesse caminhado até lá para morrer. –

Valdespino fez uma pausa. – Só posso supor que a tensão dos últimos dias tenha sido demasiada para ele.

Köves considerou a possibilidade, sentindo uma onda de tristeza e confusão.

Também estivera lutando com as implicações da descoberta de Kirsch, no entanto a ideia de que o allamah al-Fadl pudesse se matar de desespero parecia completamente improvável.

– Alguma coisa está errada – declarou Köves. – Não acredito que ele agiria assim.

Valdespino ficou em silêncio por muito tempo.

– Fico feliz por você dizer isso – concordou finalmente. – Devo admitir que

também acho difícil aceitar que tenha sido suicídio.

– Então… quem poderia ser o responsável?

– Qualquer um que quisesse que a descoberta de Kirsch permanecesse em segredo – respondeu o bispo rapidamente. – Alguém que acreditasse, como nós, que ainda faltavam semanas para esse anúncio.

– Mas Kirsch disse que mais ninguém sabia da descoberta! – argumentou Köves. – Só você, o allamah al-Fadl e eu.

– Talvez Kirsch tenha mentido sobre isso também. Mas ainda que nós três sejamos de fato os únicos a quem ele contou, não se esqueça de como nosso amigo Syed al-Fadl queria desesperadamente ir a público. É possível que o allamah tenha contado alguma coisa a um colega nos Emirados. E talvez essa pessoa tenha acreditado, como eu, que a descoberta de Kirsch teria repercussões perigosas.

– Está sugerindo o quê? – perguntou o rabino, com raiva. – Que um colega de al-Fadl o matou para manter isso em segredo? É ridículo!

– Rabino – disse o bispo calmamente. – Sem dúvida, eu não sei o que aconteceu. Só estou tentando imaginar respostas, assim como você.

Köves soltou o ar dos pulmões.

– Desculpe. Ainda estou com dificuldade para absorver a notícia da morte de Syed.

– Eu também. E se Syed foi assassinado devido ao que sabia, precisamos ser cuidadosos. É possível que você e eu também sejamos alvos.

Köves pensou nisso.

– Assim que a notícia for divulgada nós seremos irrelevantes.

– Verdade, mas ela ainda não foi divulgada.

– Reverendíssimo, faltam apenas minutos para o anúncio. Todas as estações vão transmitir.

– É… – Valdespino soltou um suspirou cansado. – Parece que terei de aceitar que minhas orações não foram atendidas.

Köves se perguntou se o bispo teria literalmente rezado para Deus intervir e mudar o pensamento de Kirsch.