Origem

Dan Brown · Capítulo 82 de 107

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Capítulo 84

– Não é coincidência – trovejou uma voz familiar pelos alto-falantes acima deles. – Edmond me ensinou a receber os convidados na minha casa colocando alguma música de que eles gostem e mostrando alguma coisa interessante para discutir.

Langdon e Ambra olharam para os alto-falantes, incrédulos. A voz animada que os recebia tinha um nítido sotaque inglês.

– Estou muito feliz por vocês terem encontrado este local – disse a voz sintética e muito familiar.

– Winston! – exclamou Langdon, pasmo ao sentir um alívio tão grande por se reconectar com uma máquina.

Ele e Ambra contaram rapidamente o que havia acontecido.

– É bom escutar suas vozes – disse Winston. – Então digam, encontramos o que estávamos procurando?

C A P Í T U L O 8 4

– William Blake – disse Langdon. – The dark religions are departed & sweet science reigns. As religiões das trevas partiram e reina a doce ciência.

Winston fez apenas uma pausa rápida.

– O último verso do poema épico Os Quatro Zoas. Devo admitir que é uma escolha perfeita. – Ele fez mais uma pausa. – Mas o número necessário de 47

letras…

– O ampersand – disse Langdon, explicando rapidamente o truque de ligadura com o et.

– É a quintessência do Edmond – retrucou a voz sintética com um risinho desajeitado.

– E então, Winston? – instigou Ambra. – Agora que você sabe a senha do Edmond, pode transmitir o resto da apresentação?

– Claro que posso – afirmou Winston. – Só preciso que vocês digitem a senha manualmente. Edmond colocou firewalls em volta desse projeto, por isso não tenho acesso direto a ele, mas posso levar vocês ao laboratório e mostrar onde digitar a informação. Podemos rodar o programa em menos de dez minutos.

Langdon e Ambra se entreolharam. A confirmação abrupta de Winston os pegou desprevenidos. Com tudo o que haviam passado durante a noite, esse momento definitivo de triunfo parecia ter chegado sem qualquer fanfarra.

– Robert – sussurrou Ambra, pondo a mão no ombro dele –, você fez isso.

Obrigada.

– Trabalho de equipe – retrucou ele com um sorriso.

– Será que posso sugerir irmos imediatamente para o laboratório de Edmond? –

disse Winston. – Vocês estão muito visíveis aqui no saguão, e eu detectei alguns informes de noticiário dizendo que vocês estão nesta área.

Langdon não ficou surpreso; um helicóptero militar pousando num parque metropolitano certamente atrairia a atenção.

– Diga aonde devemos ir – pediu Ambra.

– Passem entre as colunas – respondeu Winston. – Sigam minha voz.

No saguão, a música parou abruptamente e a tela de plasma escureceu. Na entrada principal, uma série de pancadas secas ecoou enquanto trancas automáticas eram acionadas.

Edmond provavelmente transformou essa instalação numa fortaleza, percebeu

Langdon, olhando rapidamente pelas grossas janelas do saguão, aliviado ao ver que a área com árvores em volta da capela estava deserta. Pelo menos por enquanto.

Enquanto se virava para Ambra, viu uma luz se acender na extremidade do saguão, iluminando uma passagem entre duas colunas. Ele e Ambra foram até lá, entraram e se viram num corredor comprido. Mais luzes se acenderam na outra ponta do corredor, orientando o caminho.

Enquanto Langdon e Ambra seguiam pelo corredor, Winston disse:

– Acredito que, para alcançar exposição máxima, precisamos fazer um anúncio global à imprensa agora mesmo, dizendo que a apresentação do falecido Edmond Kirsch vai ser transmitida. Com uma janela de tempo extra para a mídia divulgar o evento, a audiência vai aumentar drasticamente.

– Ideia interessante. – Ambra começou a andar mais depressa. – Mas quanto você acha que deveríamos esperar? Não quero correr nenhum risco.

– Dezessete minutos – respondeu Winston. – Assim, a transmissão aconteceria numa hora cheia: três da madrugada aqui e horário nobre nos Estados Unidos.

– Perfeito – concordou ela.

– Muito bem – entoou Winston. – O anúncio para a mídia vai sair agora e a apresentação terá início em 17 minutos.

Langdon se esforçava para acompanhar o planejamento acelerado de Winston.

Ambra foi andando à frente.

– E quantos funcionários estão aqui esta noite?

– Nenhum – respondeu Winston. – Edmond era obsessivo com relação à segurança. Não há praticamente nenhum funcionário. Eu cuido de todas as redes de computadores, além da iluminação, do ar-condicionado e da segurança. Edmond brincava dizendo que nesta era de casas “inteligentes” ele era o primeiro a ter uma igreja inteligente.

Langdon só estava escutando pela metade, o pensamento consumido por preocupações súbitas com relação às atitudes que estavam para tomar.

– Winston, você acha mesmo que este é o momento de transmitir a apresentação de Edmond?

Ambra parou e o encarou.

– Claro que é, Robert! É por isso que estamos aqui! O mundo inteiro está sintonizado! Além disso, não sei se mais alguém virá tentar nos impedir. Precisamos fazer isso agora, antes que seja tarde demais!

– Concordo – disse Winston. – De uma perspectiva estritamente estatística, essa história está se aproximando do ponto de saturação. Medida em terabytes de dados de mídia, a descoberta de Edmond Kirsch é uma das notícias mais importantes da década. O que não é nem um pouco surpreendente, considerando como a comunidade conectada cresceu de modo exponencial nos últimos dez anos.

– Robert? – pressionou Ambra, com o olhar sondando o dele. – Qual é a sua preocupação?

Langdon hesitou, tentando identificar a fonte de sua incerteza súbita.

– Acho que só estou preocupado com a possibilidade de que todas as histórias de conspiração desta noite, com assassinatos, sequestro, intriga real… ofusquem de algum modo a descoberta científica do Edmond.

– É um argumento válido, professor – concordou Winston. – Mas acredito que deixa de lado um fato importante: essas histórias de conspiração são um motivo substancial para tantas pessoas no mundo estarem conectadas. No início da transmissão da noite passada, havia três milhões de espectadores, mas, agora, depois de todos os acontecimentos dramáticos das últimas horas, estimo que cerca de 200

milhões de pessoas estejam seguindo essa história através de sites de notícias, mídias sociais, televisão e rádio.

O número parecia espantoso para Langdon, mas ele se lembrou de que mais de 200 milhões de pessoas tinham assistido à final da Copa do Mundo da FIFA e 500

milhões tinham assistido ao primeiro pouso na Lua meio século atrás, quando não existia internet e os televisores eram muito menos disseminados globalmente.

– Talvez o senhor não veja isso na academia, professor – disse Winston. – Mas o resto do mundo virou um reality show. Ironicamente, as pessoas que tentaram silenciar Edmond conseguiram o oposto: deram-lhe a maior audiência de qualquer anúncio científico em toda a história. Isso me faz lembrar de quando o Vaticano foi contra o seu livro O Cristianismo e o Sagrado Feminino, que depois disso se tornou um best-seller.

Quase best-seller, pensou Langdon, mas o argumento de Winston era válido.

– Um dos principais objetivos de Edmond era ter uma audiência maximizada.

– Ele está certo – concordou Ambra, olhando para Langdon. – Quando Edmond e eu discutíamos o evento ao vivo no Guggenheim, ele ficava obcecado com a ideia de aumentar a audiência e atrair o maior número de espectadores possível.

– Como eu disse – enfatizou Winston –, estamos chegando ao ponto de saturação de mídia, e não há momento melhor do que o atual para revelar a descoberta dele.

– Entendi – disse Langdon. – Só diga o que fazer.

Continuando, chegaram a um obstáculo inesperado: uma escada posta no meio do corredor, como se para um serviço de pintura. Era impossível avançar sem tirar a escada da frente ou passar por baixo dela.

– Essa escada – observou Langdon. – Devo tirá-la?

– Não – respondeu Winston. – Edmond a colocou deliberadamente aí, muito tempo atrás.

– Por quê? – perguntou Ambra.

– Como vocês talvez saibam, Edmond desprezava todas as formas de superstição. Ele fazia questão de passar por baixo de uma escada todo dia, a caminho do trabalho, como se mostrasse a língua para os deuses. E, mais ainda, se algum visitante ou técnico se recusasse a passar por baixo dessa escada, Edmond o

expulsava do prédio.

Sempre tão razoável! Langdon sorriu, lembrando-se de uma vez em que Edmond o havia censurado em público por “bater na madeira” para espantar a má sorte. Robert, a não ser que você seja um druida enrustido que ainda bate nas árvores para acordá-las, por favor, deixe essa superstição ignorante no passado, que é o lugar dela!

Ambra continuou andando, abaixando-se e passando sob a escada. Com um tremor de nervosismo reconhecidamente irracional, Langdon foi atrás.

Quando chegaram ao outro lado, Winston os orientou a virarem num canto, chegando a uma grande porta de segurança que tinha duas câmeras e um scanner biométrico.

Havia uma placa escrita à mão acima da porta: SALA 13.

Langdon olhou o número do azar. Edmond zombando dos deuses outra vez.

– Esta é a entrada do laboratório dele – disse Winston. – A não ser os técnicos contratados que ajudaram Edmond a construí-lo, pouquíssimas pessoas têm acesso permitido.

Com isso, a porta zumbiu alto e Ambra não perdeu tempo segurando a maçaneta e abrindo-a. Deu um passo para dentro, parou e levou a mão à boca, com um arquejo. Quando Langdon olhou para a frente, para o santuário da igreja, entendeu a reação dela.

O grande salão da capela era dominado pela maior caixa de vidro que Langdon já vira. O volume transparente cobria todo o piso e chegava até o teto da capela, a uns seis metros de altura.

A caixa parecia dividida em dois andares.

No primeiro, Langdon podia ver centenas de armários de metal do tamanho de geladeiras, enfileirados como bancos de igreja voltados para um altar. Os armários não tinham portas e suas entranhas estavam à mostra. Espantosas e intricadas matrizes de fios vermelhos pendiam de densas grades de pontos de conexão, descendo em arco na direção do piso, onde se juntavam em grossas cordas que corriam entre as máquinas, criando o que parecia uma trama de veias.

Caos organizado, pensou Langdon.

– No primeiro andar, vocês veem o famoso supercomputador MareNostrum: 48.896 núcleos Intel se comunicando por uma rede InfiniBand FDR10: uma das máquinas mais rápidas do mundo. O MareNostrum estava aqui quando Edmond chegou. E, em vez de retirá-lo, ele o quis incorporar, por isso simplesmente expandiu… para cima.