Origem

Dan Brown · Capítulo 61 de 107

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Origem

Capítulo 63

Não acredita? Procure na internet.

Tudo começou com uma visão mística.

Em 1975, um corretor de seguros chamado Clemente Domínguez y Gómez disse ter tido uma visão em que era coroado papa pelo próprio Jesus Cristo.

Clemente assumiu o nome papal de Gregório XVII, rompendo com o Vaticano e nomeando seus próprios cardeais. Apesar de rejeitado por Roma, esse novo antipapa conseguiu milhares de seguidores e uma riqueza enorme, o que lhe permitiu construir uma igreja parecida com uma fortaleza, expandir seu ministério internacionalmente e consagrar centenas de bispos palmarianos por todo o mundo.

A cismática Igreja Palmariana ainda funciona em seu quartel-general mundial: um complexo seguro, cercado por muros, chamado Monte de Cristo Rei, em Palmar de Troya, na Espanha. Os palmarianos não são reconhecidos pelo Vaticano, mas continuam a atrair seguidores católicos ultraconservadores.

Voltaremos em breve com mais notícias sobre essa seita, além de uma atualização sobre o bispo Antonio Valdespino, que também parece estar envolvido na conspiração desta noite.

C A P Í T U L O 6 3

Certo, estou impressionado, pensou Langdon.

Com poucas palavras ditas com autoridade, Ambra tinha obrigado os tripulantes do helicóptero EC145 a fazer uma curva ampla e mudar o rumo para a Basílica da Sagrada Família.

Enquanto a aeronave se estabilizava e começava a voltar pelo céu, Ambra se virou para o agente Díaz e exigiu usar o celular dele, que o agente entregou com relutância. Ela abriu imediatamente o navegador da internet e começou a examinar as manchetes das notícias.

– Maldição – sussurrou, balançando a cabeça, frustrada. – Eu tentei dizer à mídia que você não me sequestrou. Ninguém ouviu.

– Talvez eles precisem de mais tempo para postar, não? – sugeriu Langdon.

Isso aconteceu há menos de dez minutos.

– Eles tiveram bastante tempo – respondeu ela. – Estou vendo imagens do nosso helicóptero se afastando da Casa Milà.

Já? Às vezes Langdon sentia que o mundo tinha começado a girar rápido demais. Ainda podia se lembrar de quando as “últimas notícias” eram impressas em papel e entregues em sua porta na manhã seguinte.

– Por sinal – disse Ambra com um traço de humor –, parece que você e eu somos um dos principais assuntos do mundo.

– Eu sabia que não deveria ter sequestrado você – respondeu ele com um sorriso torto.

– Isso não é engraçado. Pelo menos, não somos o assunto número um. – Ela lhe entregou o telefone. – Dê uma olhada nisso.

Langdon olhou a tela e viu a página do Yahoo! com seus dez principais

“Assuntos do Momento”. Olhou o mais popular, no topo:

1: “De onde viemos?” / Edmond Kirsch

Sem dúvida, a apresentação de Edmond tinha inspirado pessoas em todo o mundo a pesquisar e discutir esse tema. Edmond ficaria satisfeito, pensou Langdon.

Mas, quando clicou no link, percebeu que estava errado. As dez principais teorias sobre a origem humana eram histórias sobre criacionismo e extraterrestres.

Edmond ficaria horrorizado.

Uma das declarações mais inflamadas do ex-aluno de Langdon tinha acontecido num fórum público chamado Ciência e Espiritualidade, em que Edmond ficara tão exasperado com as perguntas da plateia que finalmente tinha levantado as mãos e saído pisando firme do palco, gritando: “Por que seres humanos inteligentes não podem discutir suas origens sem invocar o nome de Deus e da porra dos alienígenas?!”

Langdon continuou percorrendo a tela do telefone até encontrar um link aparentemente inócuo, da CNN Live, intitulado “O que Kirsch descobriu?”.

Clicou no link e segurou o telefone de modo que Ambra também pudesse ver.

Enquanto o vídeo começava a passar, aumentou o volume e os dois se inclinaram juntos para escutar o som acima do rugido das pás do helicóptero.

Uma apresentadora da CNN apareceu. Langdon a tinha visto muitas vezes no correr dos anos.

– Está conosco o astrobiólogo da Nasa Dr. Griffin Bennett – disse ela –, que tem algumas ideias relativas à misteriosa descoberta de Edmond Kirsch. Bem-vindo, Dr. Bennett.

O convidado – um homem barbudo com óculos de aro de metal – assentiu, sombrio.

– Obrigado. Em primeiro lugar, deixe-me dizer que eu conhecia Edmond pessoalmente. Sempre tive um respeito enorme por sua inteligência, sua criatividade e seu compromisso com o progresso e a inovação. O assassinato dele representou um golpe terrível para o meio científico, e espero que esse crime covarde sirva para ajudar a comunidade intelectual a permanecer unida contra os perigos do fanatismo, do pensamento supersticioso e dos que recorrem à violência, e não aos fatos, para sustentar suas crenças. Espero sinceramente que sejam verdadeiros os boatos de que existem pessoas trabalhando duro esta noite para encontrar um modo de trazer a público a descoberta de Edmond.

Langdon lançou um olhar para Ambra.

– Acho que ele está falando de nós.

Ela assentiu.

– Existem muitas pessoas que também esperam isso, Dr. Bennett – disse a apresentadora. – E será que o senhor pode lançar alguma luz sobre o que acha que seja o conteúdo da descoberta de Edmond Kirsch?

– Como cientista espacial – continuou o Dr. Bennett –, creio que deva prefaciar minhas palavras desta noite com uma afirmação genérica… que acredito que Edmond apreciaria. – Ele se virou e olhou direto para a câmera. – Quando se trata de vida extraterrestre – começou –, existe uma quantidade espantosa de ciência ruim, teorias da conspiração e fantasia completa. Oficialmente deixe-me dizer o seguinte: os círculos nas plantações são uma fraude. Os vídeos de autópsias de alienígenas são truques de imagens. Nenhuma vaca jamais foi mutilada por um alienígena. O disco

voador de Roswell foi um balão meteorológico do governo chamado de Projeto Mogul. As Grandes Pirâmides do Egito não foram construídas com tecnologia alienígena. E, mais importante, todas as histórias de abdução extraterrestre já relatadas são mentiras absolutas.

– Como pode ter tanta certeza, doutor? – perguntou a apresentadora.

– Lógica simples. – O cientista pareceu incomodado enquanto se virava de novo para a mulher. – Qualquer forma de vida suficientemente avançada para viajar anos-luz pelo espaço interestelar não teria nada a aprender examinando as entranhas de animais do Kansas. E essas formas de vida não precisariam se transformar em répteis e se infiltrar no governo para controlar o planeta. Qualquer forma de vida com tecnologia para viajar até a Terra não precisaria de nenhum subterfúgio nem sutileza para nos dominar.

– Bom, isso é alarmante! – comentou a apresentadora com um riso sem graça. –

E como isso se relaciona com suas ideias sobre a descoberta do Sr. Kirsch?

O cientista deu um suspiro pesado.

– Minha opinião enfática é que Edmond Kirsch ia anunciar que tinha encontrado uma prova definitiva de que a vida na Terra se originou no espaço.

Langdon ficou cético imediatamente, sabendo como Kirsch se sentia com relação ao tema da vida extraterrestre em nosso planeta.

– Fascinante. O que leva o senhor a dizer isso? – questionou a apresentadora.

– A vida vinda do espaço é a única resposta racional. Já temos provas incontestáveis de que materiais podem ser trocados entre os planetas. Há fragmentos de Marte e de Vênus, além de centenas de amostras de fontes não identificadas, o que apoiaria a ideia de que a vida chegou através de rochas espaciais na forma de micróbios e então evoluiu até formar a vida que existe na Terra.

A apresentadora assentiu com atenção.

– Mas essa teoria, dos micróbios vindos do espaço, já não existe há décadas, sem qualquer prova? Como o senhor acha que um gênio como Edmond Kirsch poderia provar uma teoria assim, que parece estar mais no âmbito da astrobiologia do que da ciência da computação?

– Bom, há uma lógica sólida nisso – respondeu o Dr. Bennett. – Os principais astrônomos vêm alertando há décadas de que a única esperança de sobrevivência da humanidade a longo prazo será deixar este planeta. A Terra já está na metade de seu ciclo de vida, e por fim o Sol vai se expandir até virar uma gigante vermelha e nos consumir. Isto é, se sobrevivermos às ameaças mais iminentes da colisão de um grande asteroide ou de uma enorme explosão de raios gama. Por esses motivos, já estamos projetando postos avançados em Marte para que possamos partir em direção ao espaço profundo em busca de um novo planeta habitável. Não preciso dizer que essa é uma tarefa gigantesca e que, se pudéssemos encontrar um modo mais simples de garantir a sobrevivência, iríamos implementá-lo imediatamente.

O Dr. Bennett fez uma pausa.

– E talvez haja um modo mais simples. E se, de alguma forma, pudéssemos colocar o genoma humano em cápsulas minúsculas e mandar milhões delas para o espaço na esperança de que alguma possa enraizar, semeando a vida humana num planeta distante? Essa tecnologia ainda não existe, mas nós a estamos discutindo como uma opção viável para a sobrevivência humana. E se nós estamos considerando “semear a vida”, deduz-se que uma forma de vida mais avançada pode ter pensado nisso também.

Langdon começou a imaginar aonde o Dr. Bennett queria chegar com sua teoria.

– Tendo isso em mente – continuou o astrobiólogo –, acredito que Edmond Kirsch pode ter descoberto algum tipo de assinatura alienígena, seja ela física, química, digital, não sei… provando que a vida em nosso planeta foi semeada a partir do espaço. Devo mencionar que Edmond e eu tivemos um grande debate sobre isso há alguns anos. Ele jamais gostou da teoria dos micróbios espaciais porque achava, como muitas pessoas, que o material genético não sobreviveria à radiação mortal e às temperaturas encontradas na longa jornada para a Terra. Pessoalmente acredito que seria viável lacrar essas “sementes da vida” em casulos protetores à prova de radiação e dispará-los no espaço com a intenção de povoar o cosmo, numa espécie de panspermia tecnológica.

– Certo. – A apresentadora pareceu inquieta. – Mas se alguém descobrisse provas de que os seres humanos vieram de um casulo de sementes mandado do espaço, significaria que não estamos sozinhos no Universo. – Ela fez uma pausa. –

Além disso, muito mais incrivelmente…

– Sim? – O Dr. Bennett sorriu pela primeira vez.

– Significaria que quem mandou os casulos poderia ser… como nós…

humanos!

– É, essa também foi minha primeira conclusão. – O cientista fez uma pausa. –

Mas Edmond me corrigiu. Observou a falácia desse raciocínio.

Isso pegou a apresentadora desprevenida.

– Então Edmond acreditava que quem mandou essas “sementes” não era humano? Como pode ser, se as sementes eram, por assim dizer, “receitas” para a propagação humana?

– Os humanos são inacabados – respondeu o Dr. Bennett –, para usar as palavras exatas de Edmond.

– Como assim?

– Edmond disse que, se essa teoria do casulo fosse verdadeira, a receita que foi mandada à Terra provavelmente ainda não estava no ponto certo de cozimento, não tinha sido acabada. O que quer dizer que os seres humanos não são o “produto final”, e sim uma espécie transitória evoluindo para outra coisa… uma coisa alienígena.

A apresentadora da CNN ficou perplexa.

– Edmond argumentou que qualquer forma de vida avançada não mandaria uma receita de seres humanos, assim como não mandaria uma receita para chimpanzés. –

O cientista deu um risinho. – De fato, Edmond me acusou de ser um cristão enrustido, dizendo de brincadeira que só uma mente religiosa poderia acreditar que a humanidade é o centro do Universo. Ou que os alienígenas mandariam pelo correio o DNA de “Adão e Eva” para o cosmo.

– Bom, doutor. – A apresentadora parecia nitidamente desconfortável com a direção da entrevista. – Certamente foi esclarecedor falar com o senhor. Obrigada pelo seu tempo.

O vídeo terminou e Ambra se virou para Langdon.

– Robert, se Edmond descobriu alguma prova de que os seres humanos são uma espécie alienígena semievoluída, isso levanta uma questão ainda maior: em direção a quê, exatamente, estamos evoluindo?

– Sim. E acredito que Edmond verbalizou isso de um modo ligeiramente diferente, fazendo uma pergunta: Para onde vamos?

Ambra pareceu espantada em completar o círculo.

– A segunda pergunta de Edmond na apresentação desta noite.

– Exato. De onde viemos? Para onde vamos? Parece que o cientista da Nasa que acabamos de ver acha que Edmond olhou para o céu e encontrou respostas para as duas perguntas.

– O que você acha, Robert? Foi isso que Edmond descobriu?

Langdon sentiu a testa se franzir enquanto avaliava as possibilidades. A teoria do cientista, apesar de empolgante, parecia genérica e sobrenatural demais para o pensamento agudo de Edmond Kirsch. Edmond gostava das coisas simples, limpas e técnicas. Era um cientista da computação. Mais importante, Langdon não conseguia imaginar como Edmond provaria uma teoria assim. Desencavando um casulo de semente antigo? Detectando uma transmissão alienígena? Nessas duas hipóteses, seriam revelações instantâneas, mas a descoberta do ex-aluno tinha demorado tempo.