Origem

Dan Brown · Capítulo 47 de 107

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Origem

Capítulo 49

um homem adulto que comandou um navio! Tem medo de que o papa vá fazer lavagem cerebral em você em dez minutos e prendê-lo como refém?

Não sei do que tenho medo, pensou Ávila, olhando a perna ferida, sentindo-se estranhamente pequeno e impotente. Durante a maior parte da vida estivera no comando, dando ordens. Não tinha certeza quanto à perspectiva de receber ordens de outra pessoa.

– Tudo bem – disse Marco, prendendo de novo o cinto de segurança. –

Desculpe, dá para ver que você está desconfortável. Não queria pressionar. – E

estendeu a mão para ligar o carro.

Ávila se sentiu idiota. Marco era praticamente uma criança, tinha um terço da sua idade, não tinha uma perna, estava tentando ajudar um colega inválido, e ele havia retribuído sendo ingrato, cético e condescendente.

– Não – disse. – Desculpe, Marco. Vai ser uma honra ouvir o homem pregar.

C A P Í T U L O 4 9

O para-brisa do Tesla Modelo X de Edmond era amplo, fundindo-se sem emendas ao teto do carro em algum ponto atrás da cabeça de Langdon, o que lhe dava a sensação desorientadora de estar flutuando dentro de uma bolha de vidro.

Guiando pela autoestrada cercada de árvores ao norte de Barcelona, Langdon ficou surpreso ao se pegar dirigindo muito mais rápido do que o generoso limite de 120 quilômetros por hora. O motor silencioso e a aceleração linear do veículo faziam com que todas as velocidades parecessem quase idênticas.

No banco ao lado, Ambra navegava na internet no enorme computador do painel do carro e lhe repassava as notícias divulgadas no mundo inteiro. Uma teia cada vez mais profunda de intrigas estava emergindo, inclusive boatos de que o bispo Valdespino estivera transferindo fundos para o antipapa da Igreja Palmariana –

que supostamente tinha ligações militares com carlistas e parecia responsável não somente pela morte de Edmond, mas também pela de Syed al-Fadl e do rabino Yehuda Köves.

Enquanto Ambra lia em voz alta, ficou claro que os veículos de mídia de toda parte faziam a mesma pergunta: o que Edmond Kirsch podia ter descoberto que fosse tão ameaçador a ponto de um bispo proeminente e uma seita católica conservadora o assassinarem num esforço para silenciar o anúncio?

– O número de pessoas visualizando as notícias é incrível – disse Ambra, levantando o olhar da tela. – O interesse por essa história não tem precedentes…

parece que o mundo inteiro está hipnotizado.

Nesse instante Langdon percebeu que talvez houvesse um macabro aspecto positivo no assassinato de Edmond. Com toda a atenção da mídia, a audiência global de Kirsch havia atingido um patamar muito mais alto do que ele poderia imaginar.

Mesmo morto, Edmond tinha a atenção do mundo.

Essa percepção deixou Langdon mais comprometido ainda em alcançar seu objetivo: encontrar a senha de 47 letras e revelar a apresentação ao mundo.

– Ainda não há nenhuma declaração do Julián – constatou Ambra, perplexa. –

Nenhuma palavra do Palácio Real. Não faz sentido. Eu tive uma experiência pessoal com a coordenadora de RP de lá, Mónica Martín, e ela é totalmente a favor da transparência e de divulgar informações antes que a imprensa possa deturpá-las.

Tenho certeza de que ela está insistindo para que Julián faça uma declaração.

Langdon suspeitou que Ambra estivesse certa. Considerando que a mídia

acusava o principal conselheiro religioso do palácio de conspiração – talvez até de assassinato –, parecia lógico que Julián fizesse algum tipo de declaração, nem que fosse apenas para dizer que o palácio estava investigando as acusações.

– Especialmente considerando que a futura rainha consorte do país estava ao lado de Edmond quando ele levou o tiro – acrescentou Langdon. – Poderia ter sido você, Ambra. O príncipe poderia ao menos dizer que está aliviado por você estar em segurança.

– Não sei se ele está – disse Ambra em tom casual, saindo do navegador da internet e se recostando no banco.

Langdon olhou para ela.

– Bom, se é que vale alguma coisa, eu fico feliz porque você está em segurança.

Não sei se poderia ter me virado sozinho esta noite.

– Sozinho? – perguntou uma voz com sotaque pelos alto-falantes do carro. –

Com que rapidez a gente esquece!

Langdon gargalhou diante da indignação de Winston.

– Winston, Edmond realmente programou você para ser defensivo e inseguro?

– Não. Ele me programou para observar, aprender e imitar o comportamento humano. Meu tom foi uma tentativa de humor, coisa que Edmond me encorajou a desenvolver. O humor não pode ser programado… deve ser aprendido.

– Bom, você está aprendendo bem.

– Estou? – Winston implorou: – Pode repetir isso?

Langdon gargalhou.

– Como eu disse, você está aprendendo bem.

Ambra pôs a tela do painel na página padrão: um programa de GPS consistindo em uma imagem de satélite onde era visível um “avatar” minúsculo do carro.

Langdon viu que eles tinham serpenteado pelas montanhas de Collserola e agora entravam na Autoestrada B-20 em direção a Barcelona. Ao sul de onde estavam, na imagem de satélite, viu uma coisa incomum que atraiu sua atenção: uma grande área florestal no meio da vastidão urbana. A área verde era alongada e amorfa, como uma ameba gigante.

– É o Parc Güell? – perguntou.

Ambra olhou para a tela e assentiu.

– Bom olho.

– Edmond parava lá com frequência no caminho do aeroporto para casa –

acrescentou Winston.

Langdon não ficou surpreso. O Parc Güell era uma das obras-primas mais conhecidas de Antoni Gaudí – o mesmo arquiteto e artista cuja obra estava reproduzida na capa do telefone de Edmond. Gaudí era muito parecido com Edmond, pensou Langdon. Um visionário inovador a quem as regras normais não se aplicavam.

Devotado estudioso da natureza, Gaudí se inspirava em formas orgânicas para

sua arquitetura, usando o “mundo natural de Deus” como ajuda para projetar estruturas fluidas e biomórficas que frequentemente pareciam ter brotado do chão.

Não existem linhas retas na natureza, teria dito uma vez. E, de fato, também havia pouquíssimas linhas retas em sua obra.

Frequentemente descrito como pai da “arquitetura viva” e do “design orgânico”, Gaudí inventou técnicas de carpintaria, ferragem, vidraria e cerâmica jamais vistas antes para “cobrir” seus prédios com peles ofuscantes e coloridas.

Mesmo agora, quase um século depois de sua morte, turistas de todo o mundo viajavam a Barcelona para ter um vislumbre de seu estilo modernista inimitável.

Dentre suas obras estão parques, prédios públicos, mansões particulares e, claro, sua obra magna, a Sagrada Família, a enorme basílica católica cujos altíssimos

“pináculos de esponjas do mar” dominam o horizonte de Barcelona e que os críticos saúdam como “diferente de tudo em toda a história da arte”.

Langdon sempre havia se maravilhado com a visão audaciosa de Gaudí para a Sagrada Família – uma basílica tão colossal que continuava em construção até hoje, quase 140 anos depois do início.

Olhando a imagem de satélite do famoso Parc Güell, Langdon se lembrou de sua primeira visita ao local na época em que era estudante universitário: um passeio por uma terra de fantasia com colunas retorcidas que imitavam árvores sustentando passagens elevadas, nebulosos bancos tortos, grutas com fontes que lembravam dragões e peixes e um muro branco ondulante, tão nitidamente fluido que parecia a cauda sinuosa de uma gigantesca criatura unicelular.

– Edmond adorava tudo de Gaudí – continuou Winston. – Em especial o conceito da natureza como arte orgânica.

A mente de Langdon voltou à descoberta de Edmond. Natureza. Orgânica. A Criação. Pensou nos famosos Panots de Gaudí em Barcelona – ladrilhos hexagonais encomendados para as calçadas da cidade. Cada ladrilho tinha um desenho sinuoso idêntico com rabiscos que pareciam sem sentido. Mas quando todos eram arrumados e girados intencionalmente, surgia um padrão espantoso: uma paisagem subaquática que dava a impressão de plânctons, micróbios e flora submarina – La Sopa Primordial, como os moradores da cidade costumavam chamar o desenho.

A sopa primordial de Gaudí, pensou Langdon, de novo espantado com o modo perfeito como a cidade de Barcelona e a curiosidade de Edmond pela origem da vida se encaixavam. A teoria científica prevalecente era que a vida tinha começado numa sopa primordial: os oceanos antigos onde os vulcões expeliam substâncias químicas ricas que ficavam girando, umas ao redor das outras, constantemente bombardeadas por relâmpagos de tempestades intermináveis… até que de repente, como algum tipo de golem microscópico, a primeira criatura unicelular saltou para a vida.

– Ambra – disse Langdon –, você é uma curadora de museu. Deve ter discutido arte frequentemente com Edmond. Alguma vez ele lhe disse especificamente o que o atraía em Gaudí?

– Só o que Winston mencionou. A arquitetura dele parece criada pela própria natureza. As grutas de Gaudí parecem escavadas pelo vento e a chuva, suas colunas de sustentação parecem ter crescido da terra e seu trabalho com ladrilhos lembra a vida marinha primitiva. – Ela deu de ombros. – Qualquer que fosse o motivo, Edmond admirava Gaudí a ponto de ter se mudado para a Espanha.

Langdon olhou para ela, surpreso. Sabia que Edmond possuía casas em vários países ao redor do mundo, mas nos últimos anos tinha escolhido se estabelecer na Espanha.

– Está dizendo que Edmond se mudou para cá por causa da arte de Gaudí?

– Acredito que sim. Uma vez perguntei a ele: “Por que a Espanha?”, e ele disse que tivera a rara oportunidade de alugar uma propriedade única aqui, diferente de tudo no mundo. Presumo que estivesse falando do apartamento dele.

– Onde fica o apartamento?

– Robert – disse ela –, Edmond morava na Casa Milà.

Langdon ficou perplexo.

– Na Casa Milà?

– A própria – respondeu ela, assentindo. – No ano passado, ele alugou todo o último andar e foi morar na cobertura.

Langdon precisou de um momento para processar a novidade. A Casa Milà era um dos prédios mais famosos de Gaudí, uma “casa” espantosamente original cuja fachada em camadas e as sacadas ondulantes lembravam uma montanha escavada, o que havia suscitado seu apelido popular, “La Pedrera” – a pedreira.

– O último andar não é um museu dedicado a Gaudí? – perguntou Langdon, lembrando uma de suas visitas ao prédio.

– É – respondeu Winston. – Mas Edmond fez uma doação à Unesco, que protege a casa como Patrimônio Mundial, e a instituição concordou em fechá-la temporariamente e deixar que ele morasse lá durante dois anos. Afinal de contas, não existe escassez de arte de Gaudí em Barcelona.

Edmond morava dentro da Casa Milà? , pensou Langdon, perplexo. E mudou-se para ficar apenas dois anos?

Winston entoou:

– Edmond até ajudou a curadoria da Casa Milà a criar um novo vídeo educativo sobre sua arquitetura. Vale a pena assistir.

– O vídeo é bem impressionante – concordou Ambra, inclinando-se à frente e tocando a tela do navegador de internet. Um teclado apareceu e ela digitou: Lapedrera.com. – Você deveria assistir a isso.

– Estou meio que dirigindo – respondeu Langdon.

Ambra estendeu a mão para a coluna de direção e deu dois puxões rápidos numa pequena alavanca. Langdon sentiu o volante enrijecer de repente e notou que o carro parecia estar se guiando sozinho, permanecendo perfeitamente centralizado na pista.

– Piloto automático – disse ela.

O efeito era inquietante, e Langdon não conseguiu tirar as mãos do volante e o pé do freio.

– Relaxe. – Ambra pôs a mão em seu ombro, tranquilizando-o. – É muito mais seguro do que um motorista humano.

Relutante, Langdon baixou as mãos no colo.

– Pronto – disse ela. – Agora você pode assistir ao vídeo da Casa Milà.

O vídeo começava com uma imagem dramática de ondas batendo, feitas a partir de um helicóptero voando a pouco mais de um metro acima do mar aberto. A distância havia uma ilha – uma montanha de pedra com penhascos íngremes que subiam dezenas de metros acima das ondas violentas.