Origem

Dan Brown · Capítulo 103 de 107

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Origem

Epílogo

Seguiu por um caminho estreito e procurou até encontrar um bosque abrigado.

Olhando o telefone na mão e pensando em Edmond, colocou-o numa pedra chata.

Então, como se realizasse uma espécie de sacrifício ritual, levantou uma pedra pesada acima da cabeça e baixou-a violentamente, destroçando o aparelho em dezenas de pedaços.

Na saída do parque, jogou os restos numa lata de lixo e se virou para descer a montanha.

Enquanto fazia isso, precisou admitir que se sentia um pouco mais leve.

E, de uma forma estranha… um pouco mais humano.

EPÍLOGO

O sol do fim da tarde ardia sobre as torres da Sagrada Família, lançando sombras grandes na Plaça de Gaudí e protegendo as filas de turistas que esperavam para entrar na igreja.

Robert Langdon estava no meio deles, olhando enquanto amantes tiravam selfies, turistas gravavam vídeos, crianças usavam fones de ouvido e pessoas ao redor mandavam mensagens de texto, digitavam e se atualizavam – aparentemente sem prestar atenção à basílica ao lado.

Na apresentação da noite anterior, Edmond tinha declarado que a tecnologia reduzira os “seis graus de separação” da humanidade para meros “quatro graus” –

com cada pessoa na Terra ligada a qualquer outra por não mais do que quatro indivíduos.

Logo esse número será zero, dissera Edmond, saudando a futura

“singularidade” – o momento em que a inteligência artificial ultrapassaria a humana e as duas se fundiriam em uma só. E, quando isso acontecer, acrescentou, nós que vivemos agora… seremos os antigos.

Langdon nem conseguia começar a imaginar a paisagem desse futuro, mas, olhando as pessoas ao redor, sentiu que os milagres da religião teriam uma dificuldade cada vez maior para competir com os da tecnologia.

Quando finalmente entrou na basílica, ficou aliviado ao encontrar um ambiente familiar, nem um pouco parecido com a caverna fantasmagórica da noite anterior.

Hoje a Sagrada Família estava viva.

Fachos ofuscantes de luz iridescente – carmim, dourada, púrpura – escorriam pelos vitrais, incendiando a densa floresta de colunas. Centenas de visitantes, parecendo anões junto das colunas que lembravam árvores, olhavam para o alto, para a reluzente vastidão abobadada, seus sussurros maravilhados criando um reconfortante zumbido de fundo.

Enquanto Langdon avançava pela basílica, seu olhar percebia uma forma orgânica depois da outra, finalmente subindo para a trama de estruturas de aparência celular que formavam a cúpula. Algumas pessoas diziam que esse teto central lembrava um organismo complexo visto por um microscópio. Vendo-o agora, cheio de luz, Langdon precisou concordar.

– Professor? – chamou uma voz conhecida, e Langdon se virou, vendo o padre Beña se aproximar rapidamente. – Sinto muito – disse com sinceridade o sacerdote pequenino. – Acabei de saber que alguém viu o senhor esperando na fila. O senhor poderia ter me chamado!

Langdon sorriu.

– Obrigado, mas isso me deu tempo para admirar a fachada. Além disso, achei que o senhor estaria dormindo hoje.

– Dormindo? – Beña riu. – Talvez amanhã.

– A atmosfera é bem diferente da de ontem à noite – disse Langdon, indicando o santuário.

– A luz natural faz maravilhas. Assim como a presença de pessoas. – Beña fez uma pausa, olhando Langdon. – Na verdade, já que o senhor está aqui, se não for muito incômodo, eu gostaria de saber sua opinião sobre uma coisa lá embaixo.

Enquanto seguia Beña em meio à multidão, Langdon ouviu os sons de construção reverberando acima, o que o fez lembrar que a Sagrada Família ainda era um prédio em evolução.

– Por acaso o senhor assistiu à apresentação de Edmond? – perguntou Langdon.

Beña gargalhou.

– Três vezes. Devo dizer que essa nova ideia de entropia, do Universo

“querendo” espalhar energia, se parece um pouco com o Gênesis. Quando penso no Big Bang e no Universo em expansão, imagino uma esfera de energia que cresce cada vez mais na escuridão do espaço… levando luz a lugares que não têm luz nenhuma.

Langdon sorriu, desejando que Beña tivesse sido o sacerdote da sua infância.

– O Vaticano já deu alguma declaração oficial?

– Eles estão tentando, mas parece haver um pouco de… – Beña deu de ombros, com ar brincalhão – divergência. Essa questão da origem do homem, como o senhor sabe, sempre foi um ponto sensível para os cristãos, especialmente os fundamentalistas. Se me perguntar, acho que deveríamos resolvê-la de uma vez por todas.

– É? E como seria isso?

– Todos deveríamos fazer o que muitas igrejas já fazem: admitir abertamente que Adão e Eva não existiram, que a evolução é um fato e que os cristãos que declaram o contrário fazem com que todos nós pareçamos idiotas.

Langdon parou, olhando o velho sacerdote.

– Ah, por favor! – disse Beña, gargalhando. – Não acredito que o mesmo Deus que nos dotou de inteligência, razão e bom senso…

– … quisesse nos privar de usá-los.

Beña riu.

– Vejo que você é familiarizado com Galileu. Na verdade, a física foi minha paixão da juventude. Cheguei a Deus através de uma reverência profunda pelo

universo físico. Esse é um dos motivos para a Sagrada Família ser tão importante para mim. Ela parece uma igreja do futuro… conectada diretamente à natureza.

Langdon se pegou imaginando se talvez a Sagrada Família – como o Panteão de Roma – poderia se tornar um ponto crítico de transição, um prédio com um pé no passado e outro no futuro, uma ponte física entre uma fé agonizante e uma fé emergente. Se isso fosse verdade, a Sagrada Família seria muito mais importante do que qualquer pessoa poderia imaginar.

Agora Beña estava guiando Langdon pela mesma escada sinuosa por onde tinham descido na noite anterior.

A cripta.

– Para mim, é óbvio que só há um modo de o cristianismo sobreviver à futura era da ciência – disse Beña enquanto andavam. – Devemos parar de rejeitar as descobertas científicas. Devemos parar de negar fatos comprovados. Devemos nos tornar parceiros espirituais da ciência, usando nossa enorme experiência, milênios de filosofia, indagações pessoais, meditação e busca da alma para ajudar a humanidade a construir uma estrutura moral e garantir que as tecnologias vindouras unifiquem, iluminem e nos elevem… em vez de nos destruir.

– Concordo plenamente.

Só espero que a ciência aceite sua ajuda.

Na base da escada, Beña sinalizou para além do túmulo de Gaudí, para a vitrine onde estava o volume de William Blake pertencente a Edmond.

– Era sobre isso que eu queria lhe falar.

– O livro de Blake?

– É. Como o senhor sabe, prometi ao Sr. Kirsch que iria expor o livro aqui.

Concordei porque presumi que ele queria mostrar essa ilustração.

Chegaram à caixa e olharam a visão dramática de Blake do deus que ele chamou de Urizen, medindo o Universo com um compasso.

– E, no entanto – disse Beña –, observei que o texto na página ao lado… bom, talvez o senhor devesse ler a última linha.

O olhar de Langdon não se afastou dos olhos de Beña.

– “As religiões das trevas partiram e reina a doce ciência”?

Beña pareceu impressionado.

– O senhor sabe.

Langdon sorriu.

– Sei.

– Bom, devo admitir que isso me incomoda profundamente. Essa expressão, as

“religiões das trevas”, é perturbadora. Parece que Blake está dizendo que as religiões são sombrias… mal-intencionadas e malignas de algum modo.

– Esse é um erro comum – respondeu Langdon. – Na verdade, Blake era um homem profundamente espiritual, moralmente mais evoluído do que o cristianismo de mente estreita da Inglaterra no século XVIII. Ele acreditava que as religiões se

 

dividiam em dois tipos: as religiões escuras, dogmáticas, que oprimiam o pensamento criativo… e as religiões claras, expansivas, que encorajavam a introspecção e a criatividade.

Beña pareceu espantado.

– O verso final de Blake – garantiu Langdon – poderia ser facilmente: “A doce ciência vai banir as religiões das trevas… para que as religiões esclarecidas possam florescer.”

Beña ficou em silêncio por um longo tempo. E, então, um sorriso silencioso começou a surgir em seus lábios.

– Obrigado, professor. Acredito que o senhor me poupou de um incômodo dilema ético.

Em cima, na área principal do santuário, depois de se despedir do padre Beña, Langdon se demorou um pouco, sentado placidamente num banco junto com centenas de outras pessoas, todas olhando os raios coloridos de luz se esgueirarem pelas altas colunas enquanto o sol se punha.