Origem

Dan Brown · Capítulo 86 de 107

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Capítulo 88

– Deveríamos transmitir agora – insistiu Ambra.

Winston respondeu com tranquilidade:

– Acredito que Edmond preferiria que transmitíssemos na hora cheia, como foi anunciado. Ele era um homem de palavra. Além disso, estou monitorando o número de espectadores em todo o globo, e ele ainda está crescendo. Na taxa atual, nos próximos quatro minutos nossa audiência vai aumentar em 12,7 por cento, e prevejo que chegaremos à penetração máxima. – Winston fez uma pausa, parecendo quase agradavelmente surpreso. – Devo dizer que, apesar de tudo o que aconteceu esta noite, parece que a apresentação de Edmond acontecerá no melhor momento possível. Acho que ele ficaria profundamente grato a vocês dois.

C A P Í T U L O 8 8

Em menos de quatro minutos, pensou Langdon, sentando-se na cadeira de escritório e examinando os três enormes painéis de LCD que dominavam esta extremidade da sala. Na tela, as imagens das câmeras de segurança continuavam aparecendo, mostrando a polícia ao redor da capela.

– Tem certeza de que eles não podem entrar? – insistiu Ambra, remexendo-se, ansiosa, atrás de Langdon.

– Confiem em mim – respondeu Winston. – Edmond levava a segurança muito a sério.

– E se eles cortarem a energia do prédio? – perguntou Langdon.

– O fornecimento de eletricidade é isolado – respondeu Winston sem rodeios. –

Troncos redundantes enterrados. Nesse ponto ninguém pode interferir, garanto.

Langdon não pensou mais nisso. Winston esteve correto em todas as frentes…

E se manteve na retaguarda o tempo inteiro desde que tudo isso começou.

Acomodado no centro da mesa em forma de ferradura, Langdon voltou a atenção para o teclado incomum à sua frente. Tinha pelo menos o dobro do número normal de teclas – as alfanuméricas tradicionais e uma variedade de símbolos que nem ele reconhecia. O teclado era dividido ao meio, cada metade ergonomicamente em ângulo com relação à outra.

– Alguma orientação aqui? – perguntou Langdon, olhando a quantidade espantosa de teclas.

– Teclado errado – respondeu Winston. – Esse é o ponto de acesso principal do E-Wave. Como mencionei, Edmond mantinha a apresentação escondida de todo mundo, inclusive de mim. Ela deve ser iniciada a partir de outra máquina. Vá para a direita. Até o final.

Langdon olhou para a direita, onde meia dúzia de computadores estava alinhada ao longo da mesa. Enquanto deslizava a cadeira até eles, ficou surpreso ao ver que as primeiras máquinas eram bem antigas e ultrapassadas. Estranhamente, quanto mais se afastava, mais antigas as máquinas pareciam.

Isso não pode estar certo, pensou, passando por um sistema IBM DOS pesadão e bege que devia ter décadas de idade.

– Winston, o que são essas máquinas?

– Os computadores da infância de Edmond. Ele os guardou como lembrança de suas raízes. Às vezes, nos dias difíceis aqui, ele os ligava e rodava programas

antigos, para se reconectar com o assombro que sentiu quando criança, ao descobrir a programação.

– Adoro essa ideia – disse Langdon.

– Como o seu relógio do Mickey Mouse – sugeriu Winston. Espantado, Langdon olhou para baixo, puxando a manga da casaca para revelar o relógio antigo que ele usava desde que o havia ganhado, na infância. O fato de Winston saber sobre o relógio era surpreendente, se bem que Langdon se lembrava de ter contado recentemente a Edmond que o usava como um lembrete para permanecer jovem no coração.

– Robert – disse Ambra –, deixando de lado seu senso de moda, será que poderíamos digitar a senha, por favor? Até o seu camundongo está acenando, tentando atrair sua atenção.

Sem dúvida, a mão enluvada do Mickey estava acima da cabeça, o indicador apontando quase diretamente para o alto. Três minutos para a hora cheia.

Langdon deslizou rapidamente pela mesa e Ambra se juntou a ele diante do último computador da fila, uma caixa feia, cor de cogumelo, com baia de disquete, modem telefônico de 1.200 bauds e um bulboso monitor convexo de 12 polegadas em cima.

– Tandy TRS-80 – disse Winston. – A primeira máquina do Edmond. Ele a comprou de segunda mão e aprendeu o BASIC sozinho quando tinha uns 8 anos.

Langdon ficou feliz ao ver que esse computador, apesar de ser um dinossauro, já estava ligado e em modo de espera. A tela – em preto e branco – estava acesa com uma mensagem promissora, apresentada numa fonte de bitmap serrilhada.

BEM-VINDO, EDMOND.

POR FAVOR, DIGITE A SENHA:

Depois da palavra “senha”, um cursor preto piscava cheio de expectativa.

– É isso? – perguntou Langdon, sentindo de algum modo que aquilo era simples demais. – Eu só digito aqui?

– Exato – respondeu Winston. – Assim que o senhor digitar a senha, esse PC

vai mandar uma mensagem de destravamento autenticada para a parte lacrada do computador principal que contém a apresentação de Edmond. Então terei acesso e poderei manusear o arquivo, alinhá-lo com a hora cheia e enviar os dados aos principais canais de distribuição para ser transmitido globalmente.

Langdon acompanhou mais ou menos a explicação; no entanto, olhando para o computador desajeitado e o modem telefônico, ficou perplexo.

– Não entendo, Winston. Depois de todo o planejamento de Edmond para esta noite, por que ele confiaria toda a sua apresentação a uma ligação telefônica para um

modem pré-histórico?

– Eu diria que é somente Edmond sendo Edmond – respondeu Winston. –

Como vocês sabem, ele era apaixonado pela dramaticidade, pelo simbolismo e pela história. Suspeito que sentiu uma alegria tremenda em ligar seu primeiro computador e usá-lo para disparar o trabalho mais grandioso de sua vida.

Bom argumento, refletiu Langdon, percebendo que era exatamente assim que Edmond veria a coisa.

– E mais – acrescentou Winston. – Desconfio que Edmond provavelmente tinha contingências preparadas. Mas, de qualquer modo, há lógica em usar um computador antigo para “ligar um interruptor”. Tarefas simples pedem ferramentas simples. E, em termos de segurança, usar um processador lento garante que uma tentativa de invasão do sistema com força bruta demoraria uma eternidade.

– Robert? – insistiu Ambra atrás dele, apertando seu ombro com um gesto encorajador.

– É, desculpe, tudo certo.

Langdon puxou mais para perto o teclado do Tandy, com o cabo enrolado se esticando como um antigo fio de telefone de disco. Pousou os dedos nas teclas de plástico e visualizou a linha de texto escrita à mão que ele e Ambra tinham descoberto na cripta da Sagrada Família.

The dark religions are departed & sweet science reigns. As religiões das trevas partiram e reina a doce ciência.

O final grandioso do poema épico de William Blake, Os Quatro Zoas, parecia a opção perfeita para destrancar a última revelação científica de Edmond: uma descoberta que, segundo ele, mudaria tudo.

Langdon respirou fundo e digitou o verso cuidadosamente, sem espaços, substituindo o & pela conjunção et.

Quando terminou, olhou a tela.

POR FAVOR, DIGITE A SENHA:

...............................................

Langdon contou os pontos: 47.

Perfeito. Vamos lá.

Olhou para Ambra e ela assentiu. Ele estendeu a mão e apertou a tecla Enter.

Instantaneamente, o computador emitiu um zumbido fraco.

SENHA INCORRETA.

TENTE DE NOVO.

O coração de Langdon disparou.

– Ambra, eu digitei perfeitamente! Tenho certeza!

Ele girou na cadeira e olhou para ela, esperando ver um rosto cheio de medo.

Em vez disso, Ambra Vidal olhou para ele com um sorriso divertido. Balançou a cabeça e riu.

– Professor – sussurrou ela, apontando para o teclado –, a tecla de maiúsculas está acionada.

Nesse momento, no fundo de uma montanha, o príncipe Julián estava hipnotizado, olhando fixamente e tentando entender a cena espantosa à sua frente.

Seu pai, o rei da Espanha, estava sentado imóvel numa cadeira de rodas, no lugar mais remoto e privado daquela basílica subterrânea.

Sentiu uma onda de pavor e correu para perto dele.

– Pai?

Quando Julián chegou, o rei abriu lentamente os olhos, parecendo emergir de um cochilo. O monarca doente conseguiu dar um sorriso relaxado.

– Obrigado por ter vindo, filho – sussurrou com a voz frágil.

Julián se agachou na frente da cadeira de rodas, aliviado porque o pai estava vivo, mas também alarmado ao ver como seu estado havia se deteriorado dramaticamente em apenas alguns dias.

– Pai? O senhor está bem?

O rei deu de ombros.

– Tão bem quanto seria de esperar – respondeu com bom humor surpreendente.

– E como você está? Seu dia foi… movimentado.

Julián não tinha ideia de como responder.

– O que o senhor está fazendo aqui?

– Bom, eu estava cansado de ficar preso a uma cama e queria tomar um pouco de ar.

– Ótimo, mas… aqui?

Julián sabia que seu pai sempre havia abominado a conexão simbólica daquele templo com a perseguição e a intolerância.

– Majestade! – gritou Valdespino, correndo em volta do altar e se juntando a eles, ofegante. – O que é isso?

O rei sorriu para o amigo de toda a vida.

– Bem-vindo, Antonio.

¿Antonio? O príncipe Julián nunca tinha visto o pai se dirigir ao bispo Valdespino pelo primeiro nome. Em público, ele era sempre “Excelência”.

A estranha falta de formalidade do rei pareceu abalar o bispo.

– O… obrigado – gaguejou ele. – O senhor está bem?

– Simplesmente maravilhoso – respondeu o rei com um sorriso largo. – Estou na presença das duas pessoas em quem mais confio no mundo.

Valdespino lançou um olhar inquieto para Julián e depois se virou de novo para o rei.