Origem
Capítulo 65
Mónica fechou os olhos, tentando visualizar a reação do mundo à prova incontestável de que um bispo católico muito próximo do rei da Espanha estava envolvido na traição e no assassinato desta noite.
– Suresh – sussurrou Mónica, abrindo lentamente os olhos. – Preciso descobrir quem é esse tal de “Monte”. Você pode fazer isso por mim?
– Posso tentar.
Ele não parecia muito confiante.
– Obrigada. – Mónica devolveu o telefone do bispo e foi rapidamente para a porta. – E me mande uma captura de tela dessa mensagem!
– Aonde você vai? – gritou Suresh.
Mónica Martín não respondeu.
C A P Í T U L O 6 5
A Basílica da Sagrada Família ocupa todo um quarteirão no centro de Barcelona. Apesar da base enorme, a igreja parece flutuar quase sem peso acima da terra, um delicado agrupamento de pináculos arejados que sobem sem esforço para o céu da Espanha.
Intricadas e porosas, as torres têm várias alturas, o que dá ao templo o ar de um caprichoso castelo de areia erguido por gigantes travessos. Assim que estiver pronto, o mais alto dos 18 pináculos chegará a estonteantes 172 metros, algo sem precedentes – mais do que o Monumento a Washington –, tornando a Sagrada Família a igreja mais alta do mundo, eclipsando a Basílica de São Pedro, no Vaticano, por mais de 30 metros.
O corpo da igreja é abrigado por três fachadas enormes. No lado leste, a colorida fachada da Natividade sobe como um jardim suspenso do qual brotam plantas policromadas, animais, frutas e pessoas. Num contraste nítido, a fachada da Paixão, a oeste, é um austero esqueleto de pedra áspera, talhada para lembrar tendões e ossos. Ao sul, a fachada da Glória se retorce para cima num amontoado caótico de demônios, ídolos, pecados e vícios, dando lugar a símbolos mais elevados, de ascensão, virtude e paraíso.
Completando o perímetro, existem incontáveis fachadas menores, arcobotantes e torres, a maioria envolta num material semelhante a lama, dando a impressão de que a metade inferior da construção está se derretendo ou foi arrancada da terra.
Segundo um crítico importante, a metade inferior da Sagrada Família lembra “um tronco de árvore apodrecido do qual brotou uma família de intricados pináculos de cogumelos”.
Além de adornar sua igreja com a iconografia religiosa tradicional, Gaudí incluiu incontáveis características espantosas que refletiam sua reverência pela natureza: tartarugas sustentando colunas, árvores brotando de fachadas e até enormes caracóis e sapos de pedra escalando a parte externa.
Apesar do exterior estranho, a surpresa da Sagrada Família é vislumbrada somente depois que se passa por suas portas. Assim que entram no santuário principal, os visitantes ficam de queixo caído enquanto seu olhar sobe pelas colunas inclinadas e retorcidas parecendo troncos que, a 60 metros, chegam a uma série de abóbadas onde colagens psicodélicas de formas geométricas pairam como uma copa cristalina nos galhos de árvores. Segundo Gaudí, a criação de uma “floresta de
colunas” se destinava a encorajar a mente a retornar aos pensamentos dos primeiros homens que se dedicaram à busca espiritual, para quem a floresta havia servido como a catedral de Deus.
De modo pouco surpreendente, a colossal obra art nouveau de Gaudí é ao mesmo tempo adorada com paixão e desprezada com cinismo. Saudada por alguns como “sensual, espiritual e orgânica”, é ridicularizada por outros como “vulgar, pretensiosa e profana”. O escritor James Michener a descreveu como “uma das construções sérias mais estranhas do mundo” e a Architectural Review a chamou de
“monstro sagrado de Gaudí”.
Se sua estética é espantosa, as finanças são mais estranhas ainda. Bancada totalmente por doações particulares, a Sagrada Família não recebe qualquer apoio financeiro do Vaticano ou da liderança católica do mundo. Apesar de ter vivido períodos de quase falência e interrupções nas obras, a igreja exibe uma vontade quase darwiniana de sobreviver, tendo suportado com tenacidade a morte de seu arquiteto, uma violenta guerra civil, ataques terroristas de anarquistas catalães e até a escavação de um túnel de metrô ali perto que ameaçou desestabilizar o próprio terreno em que ela fica.
Diante de adversidades incríveis, a Sagrada Família continua de pé e crescendo.
Na última década, a sorte da igreja melhorou bastante, com os cofres complementados pela venda de ingressos a mais de quatro milhões de visitantes por ano, que pagam uma boa quantia para percorrer a estrutura parcialmente construída.
Agora, tendo anunciado o objetivo de ser completada em 2026 – centenário da morte de Gaudí –, a Sagrada Família parece infundida de um novo vigor, com as torres subindo ao céu com urgência e esperança renovadas.
O padre Joaquim Beña – o sacerdote mais velho e principal clérigo da Sagrada Família – era um homem jovial de 80 anos, com óculos redondos num rosto redondo sempre risonho em cima do corpo minúsculo envolto na batina. O sonho de Beña era viver o suficiente para ver o término desse templo glorioso.
Mas esta noite, em seu escritório clerical, o padre Beña não sorria. Tinha permanecido até tarde resolvendo problemas da igreja, mas depois ficou grudado ao computador, totalmente absorto no drama inquietante que se desenrolava em Bilbao.
Edmond Kirsch foi assassinado.
Nos últimos três meses, Beña havia forjado uma amizade delicada e improvável com Kirsch. O ateu confesso tinha impressionado Beña procurando-o pessoalmente com a oferta de fazer uma doação substancial à igreja. A quantia era sem precedentes e causaria um enorme impacto positivo.
A oferta de Kirsch não faz sentido, tinha pensado Beña, suspeitando de algum ardil. É um golpe de publicidade? Será que ele quer ter alguma influência na construção?
Em troca da doação, o renomado futurólogo tinha feito apenas um pedido.
Beña ouviu, inseguro. É só isso que ele quer?
– Para mim é uma questão pessoal – dissera Kirsch. – E espero que o senhor esteja disposto a honrar meu pedido.
Beña era um homem que costumava confiar nas pessoas, mas nesse momento sentiu que estava dançando com o diabo. Pegou-se examinando os olhos de Kirsch em busca de algum motivo oculto. E então viu. Atrás do charme despreocupado, ardia um desespero exausto, com os olhos fundos e o corpo magro lembrando a Beña seus dias de seminarista, quando trabalhava como conselheiro numa casa de repouso.
Edmond Kirsch está doente.
Beña se perguntou se ele estaria morrendo e se essa doação poderia ser uma tentativa súbita de fazer as pazes com o Deus que o cientista havia sempre desprezado.
Os mais soberbos na vida se tornam os mais temerosos na morte.
Beña pensou no primeiro evangelista cristão – São João – que tinha dedicado a vida a encorajar os descrentes a experimentar a glória de Jesus Cristo. Parecia que, se um não crente como Kirsch queria participar da criação de um templo dedicado a Jesus, negar-lhe essa conexão seria ao mesmo tempo pouco cristão e cruel.
Além disso, havia a obrigação pessoal de Beña de ajudar a levantar verbas para a igreja. E ele não conseguia se imaginar informando aos colegas que o presente gigantesco de Kirsch fora rejeitado por causa do passado de ateísmo explícito do sujeito.
No fim, Beña aceitou os termos de Kirsch e os dois se apertaram as mãos calorosamente.
Isso fora três meses atrás.
Esta noite Beña havia assistido à apresentação de Kirsch no Guggenheim, primeiro sentindo-se incomodado com o tom antirreligioso, depois intrigado com as referências a uma descoberta misteriosa e no final horrorizado ao ver Edmond Kirsch levar um tiro. Depois disso, não conseguiu sair de perto do computador, fascinado pelo que estava se tornando um atordoante caleidoscópio de teorias conspiratórias competindo entre si.
Estupefato, agora Beña estava sentado em silêncio no santuário enorme, sozinho na “floresta” de pilares de Gaudí. Mas a mata mística pouco servia para acalmar sua mente acelerada.
O que Kirsch descobriu? Quem desejava sua morte?
O padre Beña fechou os olhos e tentou clarear as ideias, mas as perguntas continuavam chegando.
De onde viemos? Para onde vamos?
– Viemos de Deus! – declarou em voz alta. – E vamos para Deus!
Enquanto falava, sentiu as palavras ressoando no peito com tanta força que todo o santuário pareceu vibrar. De repente um facho de luz brilhante rasgou o vitral acima da fachada da Paixão e penetrou na basílica.
Perplexo, o padre Beña se levantou e foi cambaleando até a janela. Agora toda a igreja trovejava enquanto o facho de luz celestial descia pelo vidro colorido.
Quando saiu intempestivamente pela porta principal do santuário, Beña foi golpeado por um vendaval ensurdecedor. Acima dele, à esquerda, um enorme helicóptero baixava do céu, com o farol de busca rasgando a frente da igreja.
Beña olhou, incrédulo, a aeronave pousar dentro do perímetro das cercas de construção no canto noroeste do complexo e desligar os motores.
Enquanto o vento e o barulho iam diminuindo, o padre Beña ficou parado na porta principal da Sagrada Família, vendo quatro figuras descerem e virem correndo até ele. As duas da frente eram reconhecíveis à primeira vista devido à transmissão desta noite: uma era a futura rainha da Espanha e a outra, o professor Robert Langdon. Dois homens fortes usando paletós com monograma os seguiam.
Pelo jeito, Langdon não tinha sequestrado Ambra Vidal, afinal de contas.
Enquanto o professor americano se aproximava, a Srta. Vidal parecia estar ao lado dele inteiramente por vontade própria.
– Padre! – chamou a mulher com um aceno amistoso. – Por favor, desculpe nossa intromissão barulhenta neste espaço sagrado. Precisamos falar com o senhor imediatamente. É muito importante.
Beña abriu a boca para responder, mas só pôde assentir, mudo, enquanto o grupo improvável chegava diante dele.
– Pedimos desculpas, padre – disse Robert Langdon com um sorriso afável. –
Sei que tudo isso deve parecer muito estranho. O senhor sabe quem somos nós?
– Claro – conseguiu dizer ele. – Mas achei…
– Informação errada – disse Ambra. – Está tudo bem, garanto.
Nesse momento, dois seguranças posicionados do lado de fora da cerca passaram rapidamente pelas catracas, alarmados com a chegada do helicóptero. Os guardas viram Beña e correram até ele.
No mesmo instante os dois homens com monogramas nos paletós giraram para encará-los, estendendo a palma da mão no símbolo universal de “pare”.
Os guardas pararam, espantados, olhando Beña em busca de orientação.
– ¡Tot està bé! – gritou Beña em catalão. – Tornin al seu lloc. – Está tudo bem!
Voltem ao seu posto.
Os guardas olharam de esguelha para o grupo improvável, parecendo inseguros.
– Són els meus convidats – declarou Beña, agora com firmeza. São meus convidados. – Confio em la seva discreció. – Confio na discrição de vocês.
Atarantados, os guardas recuaram pela catraca para voltar a patrulhar o perímetro.
– Obrigada – disse Ambra.
– Sou o padre Joaquim Beña. Por favor, digam o que desejam.
Robert Langdon avançou e apertou a mão de Beña.
– Padre, estamos procurando um livro raro pertencente ao cientista Edmond Kirsch. – Langdon pegou um elegante cartão em papel marfim e entregou a ele. –