Origem
Capítulo 55
Quem deu essas ordens a Mónica? , pensou Suresh.
Enquanto tentava entender o comportamento bizarro da coordenadora de RP, seu computador soltou um bipe com uma mensagem. Suresh foi até ele e olhou a tela, pasmo ao ver quem havia escrito para ele.
monte@iglesia.org
O informante, pensou Suresh.
Era a mesma pessoa que vinha passando informações para o ConspiracyNet durante toda a noite. E agora, por algum motivo, estava contatando Suresh diretamente.
Cauteloso, Suresh se sentou e abriu o e-mail.
hackeei as mensagens de texto de valdespino.
ele tem segredos perigosos.
o palácio deveria acessar os registros de sms dele.
agora.
Alarmado, Suresh releu a mensagem. Depois a apagou.
Por um longo momento ficou sentado em silêncio, pensando nas opções.
Então, finalmente decidindo, gerou um cartão chave mestra para os aposentos reais e subiu sem ser visto.
C A P Í T U L O 5 5
Com urgência cada vez maior, Langdon passou o olhar pela coleção de livros que forrava o corredor de Edmond.
Poesia… tem de haver algum livro de poesia por aí.
A chegada inesperada da Guardia em Barcelona tinha disparado um cronômetro perigoso, no entanto Langdon estava confiante de que daria tempo. Afinal de contas, assim que ele e Ambra tivessem localizado o verso predileto de Edmond, só precisariam de segundos para digitá-lo no telefone e transmitir a apresentação para o mundo. Como Edmond pretendia.
Olhou para Ambra, que estava do lado oposto do corredor, mais adiante, continuando sua busca do lado esquerdo enquanto ele passava um pente-fino no lado direito.
– Está vendo alguma coisa aí?
Ambra balançou a cabeça.
– Até agora só ciência e filosofia. Nada de poemas. Nada de Nietzsche.
– Continue procurando.
Langdon retornou à sua busca. No momento estava examinando um trecho com grossos volumes de história:
PRIVILÉGIO, PERSEGUIÇÃO E PROFECIA: A IGREJA CATÓLICA NA ESPANHA PELA ESPADA E PELA CRUZ: A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MONARQUIA CATÓLICA NO MUNDO
Os títulos o faziam se lembrar de uma história sombria que Edmond tinha contado anos antes, depois de Langdon comentar que, para um ateu americano, ele parecia ter uma obsessão incomum pela Espanha e pelo catolicismo.
– Minha mãe era espanhola – respondera Edmond sem rodeios. – E era uma católica assolada pela culpa.
Enquanto Edmond contava a história trágica de sua infância e de sua mãe, Langdon só conseguia ouvir com enorme surpresa. O cientista da computação contou que Paloma Calvo era filha de trabalhadores simples em Cádiz, na Espanha.
Aos 19 anos, se apaixonou por um professor universitário de Chicago, Michael
Kirsch, que estava passando um ano sabático na Espanha, e engravidou. Tendo testemunhado a rejeição sofrida por outras mães solteiras em sua rígida comunidade católica, Paloma não viu opção a não ser aceitar a oferta não muito entusiasmada do homem para se casar e mudar com ele para Chicago. Pouco depois de seu filho, Edmond, nascer, o marido de Paloma morreu atropelado por um carro enquanto voltava para casa de bicicleta.
Castigo divino, disse o pai dela.
Os pais de Paloma se recusaram a deixar que ela voltasse para Cádiz levando vergonha ao lar deles. Em vez disso, alertaram que sua situação difícil era sinal claro da raiva de Deus e que o reino dos céus jamais iria aceitá-la, a menos que ela se dedicasse a Cristo de corpo e alma pelo resto da vida.
Para criar Edmond do melhor modo que podia, Paloma foi trabalhar como arrumadeira num motel. À noite, em seu pequeno apartamento, lia as Escrituras e rezava por perdão, mas as dificuldades só aumentavam e, com isso, a certeza de que Deus ainda não estava satisfeito com sua penitência.
Em desgraça e com medo, depois de cinco anos, Paloma se convenceu de que seu ato mais profundo de amor materno seria dar uma vida nova ao filho, protegida dos castigos que Deus infligia à mãe por seus pecados. E assim pôs o menino de 5
anos num orfanato e voltou para a Espanha, onde entrou para um convento. Edmond nunca mais a viu.
Quando estava com 10 anos, ele ficou sabendo que a mãe tinha morrido no convento durante um jejum autoimposto. Dominada pela dor física, havia se enforcado.
– Não é uma história agradável – disse Edmond a Langdon. – Fiquei sabendo desses detalhes quando estava no ensino médio. E, como você pode imaginar, o fanatismo implacável da minha mãe tem muito a ver com minha repulsa pela religião. Eu chamo isso de “Terceira Lei de Newton Sobre a Criação dos Filhos: Para cada loucura há uma loucura igual e oposta”.
Depois de ouvir a história, Langdon entendeu por que Edmond era tão cheio de raiva e amargura quando os dois se conheceram, no primeiro ano do rapaz em Harvard. Também se admirou por Edmond jamais ter reclamado dos rigores sofridos na infância. Em vez disso, ele se declarava um felizardo por ter enfrentado todas aquelas dificuldades no início da vida. Isso servira como uma motivação poderosa para alcançar seus dois objetivos da infância: primeiro, sair da pobreza e, segundo, expor a hipocrisia da fé que ele acreditava ter destruído sua mãe.
Teve sucesso nas duas coisas, pensou Langdon com tristeza, continuando a examinar a biblioteca do apartamento.
Enquanto começava a olhar uma nova seção de estantes, viu muitos títulos que reconheceu, a maioria relevante para as preocupações de Edmond com relação aos perigos da religião:
DEUS, UM DELÍRIO
DEUS NÃO É GRANDE
O ATEU PORTÁTIL
CARTA A UMA NAÇÃO CRISTÃ
A MORTE DA FÉ
O VÍRUS DE DEUS: COMO A RELIGIÃO INFECTA NOSSA VIDA E NOSSA CULTURA Na última década, livros defendendo a racionalidade contra a fé cega tinham brotado nas listas de best-sellers de não ficção. Langdon precisava admitir que o afastamento cultural da religião vinha se tornando cada vez mais visível – mesmo no campus de Harvard. Recentemente o Washington Post tinha publicado uma matéria sobre “o ateísmo em Harvard”, dizendo que pela primeira vez nos 380 anos da universidade a classe de calouros tinha mais agnósticos e ateus do que protestantes e católicos juntos.
De modo semelhante, por todo o mundo ocidental estavam brotando organizações antirreligiosas, fazendo pressão contra o que consideravam perigos do dogma religioso: Ateus Americanos, Freedom from Religion Foundation, Americanhumanist.org, Aliança Ateísta Internacional.
Langdon nunca tinha prestado muita atenção nesses grupos até que Edmond lhe contou sobre o Movimento Bright – uma organização global que, apesar do nome frequentemente mal-entendido, endossava uma visão de mundo naturalista sem qualquer elemento sobrenatural ou místico. Dentre os brights estavam intelectuais importantes como Richard Dawkins, Margaret Downey e Daniel Dennett.
Aparentemente o crescente exército de ateus estava reunindo armamento pesado.
Minutos antes, enquanto examinava a seção da biblioteca dedicada à evolução, Langdon tinha visto livros de Dawkins e Dennett. O clássico de Dawkins, O
Relojoeiro Cego, desafiava enfaticamente a noção teleológica de que os seres humanos – como relógios complexos – só poderiam existir se tivessem tido um
“projetista”. De modo semelhante, um dos livros de Dennett, A Perigosa Ideia de Darwin, argumentava que a seleção natural por si só bastava para explicar a evolução da vida e que os complexos projetos biológicos podiam existir sem um projetista divino.
Deus não é necessário para a vida, pensou Langdon, lembrando-se da apresentação de Edmond. De repente, a pergunta “De onde viemos?” ressoou um pouco mais intensa na sua mente. Será que isso pode ser parte da descoberta de Edmond? A ideia de que a vida existe por conta própria – sem um Criador?
Essa teoria, claro, era diretamente oposta a todas as principais narrativas da Criação, o que deixou Langdon cada vez mais curioso para saber se podia estar na
pista certa. Mas isso não parecia ser algo que fosse possível provar.
– Robert? – chamou Ambra atrás dele.
Langdon se virou e viu que Ambra tinha terminado a busca no seu lado da biblioteca e estava balançando a cabeça.
– Aqui, nada – disse. – Tudo não ficção. Vou ajudar a procurar do seu lado.
– Até agora a mesma coisa aqui.
Enquanto Ambra se encaminhava para o outro lado, a voz de Winston soou no telefone:
– Srta. Vidal?
Ambra levantou o aparelho de Edmond.
– Sim?
– A senhorita e o professor Langdon precisam ver uma coisa agora mesmo. O
palácio acaba de fazer uma declaração pública.
Langdon foi para perto de Ambra assistir ao vídeo que baixava na tela do telefone.
Reconheceu a praça diante do Palácio Real de Madri, onde um homem uniformizado e com algemas era obrigado por quatro agentes da Guardia Real a entrar em quadro. Os agentes viraram o prisioneiro para a câmera, como se quisessem envergonhá-lo diante dos olhos do mundo.
– Garza!? – exclamou Ambra, perplexa. – O chefe da Guardia Real está sendo preso?
Então a câmera se virou e mostrou uma mulher de óculos grossos que pegou um papel no bolso do terninho e se preparou para ler uma declaração.
– Essa é Mónica Martín – disse Ambra. – Coordenadora de relações públicas. O
que está acontecendo?
A mulher começou a ler, enunciando cada palavra com clareza.
– O Palácio Real está prendendo o comandante Diego Garza pela participação no assassinato de Edmond Kirsch e por sua tentativa de implicar o bispo Valdespino nesse crime.
Langdon sentiu Ambra cambalear ligeiramente enquanto Mónica Martín continuava a ler.
– Com relação à futura rainha, Ambra Vidal, e ao professor americano Robert Langdon, infelizmente tenho notícias perturbadoras.
Langdon e Ambra trocaram um olhar de espanto.
– O palácio acaba de receber a confirmação por parte dos seguranças da Srta.
Vidal – continuou Mónica – de que esta noite ela foi tirada do Museu Guggenheim contra a vontade e levada por Robert Langdon. Agora nossa Guardia Real está em alerta máximo, coordenando-se com autoridades locais de Barcelona, onde acredita-se que Robert Langdon esteja mantendo a Srta. Vidal como refém.