Origem
Capítulo 22
Sua missão desta noite não poderia ter sido mais fácil.
Na mente começou a ouvir as notas jubilosas do hino de Oriamendi – a letra antiquíssima fora cantada numa batalha sangrenta ali mesmo em Bilbao. ¡Por Dios, por la Patria y el Rey! , cantou Ávila mentalmente. Por Deus, pela Pátria e pelo Rei!
O grito de batalha fora esquecido muito tempo atrás… mas a guerra tinha apenas começado.
C A P Í T U L O 2 2
O Palácio Real de Madri é o maior da Europa, além de ser uma das fusões arquitetônicas mais espantosas dos estilos clássico e barroco. Ele foi construído no local de um castelo mourisco do século IX, e sua fachada de três andares com colunas imponentes ocupa todos os 150 metros de largura da enorme Plaza de la Armería, onde se situa. O interior é um espantoso labirinto de 3.418 cômodos que se espalham por quase 200 mil metros quadrados de espaço. Os salões, os quartos e os corredores são adornados com uma coleção de arte religiosa de valor inestimável, que inclui obras-primas de Velázquez, Goya e Rubens.
Durante gerações, o palácio tinha sido residência privada de reis e rainhas da Espanha. Mas agora era usado principalmente para funções de Estado, enquanto a família real residia no Palacio de la Zarzuela, mais discreto e isolado, fora da cidade.
Nos últimos meses, porém, o palácio formal de Madri tinha se tornado o lar permanente do príncipe herdeiro Julián – o futuro rei da Espanha, de 42 anos. Ele havia se mudado a pedido de seus conselheiros, que queriam que “ficasse mais visível para o país” durante o período sombrio antes de sua coroação.
O pai do príncipe Julián, o rei atual, estava de cama havia meses, com uma doença terminal. Enquanto as faculdades mentais do monarca iam sendo erodidas, o palácio tinha dado início à lenta passagem de poder, preparando o príncipe para ascender ao trono assim que o pai falecesse. Com uma iminente alteração na liderança, os espanhóis voltaram os olhos para o príncipe herdeiro, com uma única pergunta em mente:
Que tipo de governante ele será?
O príncipe Julián tinha sido sempre uma criança discreta e cautelosa, tendo suportado o peso de seu futuro reinado desde pequeno. Sua mãe havia morrido de complicações da gravidez do segundo filho, e o rei, para surpresa de muitos, optara por não se casar de novo, deixando Julián como único sucessor do trono espanhol.
Como o príncipe tinha amadurecido sob a asa do pai conservador, a maioria dos espanhóis tradicionalistas acreditava que ele manteria os costumes austeros de seus reis, preservaria a dignidade da Coroa espanhola de acordo com as convenções estabelecidas, celebraria os rituais e permaneceria sempre reverente à rica história da Espanha católica.
Durante séculos, o legado dos reis católicos tinha servido de alicerce moral da nação. Mas, nos anos recentes, a base de fé do país parecia estar se dissolvendo e a
Espanha se via presa num violento cabo de guerra entre os muito velhos e os muito novos.
Agora um número crescente de liberais inundava os blogs e as mídias sociais com boatos sugerindo que, assim que pudesse emergir da sombra do pai, Julián revelaria seu eu verdadeiro: o líder ousado, progressista e secular, finalmente disposto a seguir o caminho de tantos países europeus e abolir de vez a monarquia.
O pai de Julián sempre tivera um papel muito ativo como rei, deixando pouco espaço para o filho participar da política. O rei declarava abertamente que Julián deveria aproveitar a juventude e, só quando se casasse e se estabelecesse, faria sentido ele se engajar nas questões de Estado. E, assim, os primeiros 40 anos do príncipe – eternamente comentados na imprensa espanhola – tinham se resumido a uma vida de escolas particulares, cavalgadas, inaugurações, festas para arrecadação de donativos e viagens pelo mundo. Apesar de ter realizado pouca coisa notável, sem dúvida Julián era o melhor partido da Espanha.
Com o passar do tempo, o belo príncipe havia namorado publicamente um número incontável de mulheres adequadas. Apesar de sua reputação de romântico incurável, ninguém jamais roubara seu coração. Nos últimos meses, no entanto, Julián tinha sido visto várias vezes com uma mulher linda que parecia uma modelo aposentada, mas era a respeitadíssima diretora do Museu Guggenheim de Bilbao.
A mídia saudou Ambra Vidal como “um par perfeito para um rei moderno”.
Era culta, bem-sucedida e, mais importante, não vinha de uma família nobre da Espanha. Ambra Vidal era do povo.
Aparentemente o príncipe concordava com essa avaliação. Depois de um namoro muito curto, ele a pediu em casamento – de um modo bastante inesperado e romântico – e Ambra aceitou.
Nas semanas seguintes, a imprensa não parou de falar sobre ela, dizendo que estava se mostrando muito mais do que apenas um rosto bonito. Ambra logo se revelou uma mulher de uma independência feroz. Que, apesar de futura rainha consorte da Espanha, recusava-se peremptoriamente a permitir que a Guardia Real interferisse em sua rotina diária. Também não deixava que os agentes lhe dessem proteção em situações corriqueiras, apenas em grandes eventos públicos.
Quando o comandante da Guardia sugeriu discretamente que ela começasse a usar roupas mais conservadoras e menos justas, Ambra fez piada disso em público, dizendo que tinha sido repreendida pelo comandante da “Guardarropía Real” – do Guarda-Roupa Real.