Origem
Capítulo 92
O líquido continuou borbulhando cada vez mais rápido.
– E então eu deixei correr solto! – gritou Edmond, a voz cada vez mais intensa.
As moléculas na tela continuaram a se ligar, com a complexidade das estruturas aumentando enquanto o programa avançava séculos, milênios, milhões de anos.
Enquanto as imagens passavam em velocidade ofuscante, Edmond perguntou, vibrando:
– E adivinhem o que acabou aparecendo dentro desse vidro?
Langdon e Ambra se inclinaram adiante, empolgados.
A expressão exuberante de Edmond se desinflou de repente.
– Absolutamente nada – disse ele. – Nada de vida. Nenhuma reação química espontânea. Nenhum momento de Criação. Só uma mistura confusa de substâncias químicas sem vida. – Ele soltou um suspiro pesado. – Só pude chegar a uma conclusão lógica. – E encarou, resignado, a câmera. – Para criar a vida… é preciso Deus.
Langdon ficou olhando em choque. O que ele está dizendo?
Depois de um momento, um leve riso se esgueirou no rosto de Edmond.
– Ou, talvez, eu tenha deixado de colocar um ingrediente fundamental na receita.
C A P Í T U L O 9 2
Ambra Vidal estava hipnotizada, imaginando os milhões de pessoas por todo o globo que, agora mesmo, como ela, estavam totalmente concentradas na apresentação de Edmond.
– E então, qual era o ingrediente que me faltava? – perguntou ele. – Por que minha sopa primordial se recusava a produzir vida? Eu não tinha ideia. Por isso, fiz o que todos os cientistas bem-sucedidos fazem. Perguntei a alguém mais inteligente do que eu.
Surgiu uma mulher de óculos e aparência erudita: a Dra. Constance Gerhard, bioquímica da Universidade de Stanford.
– Como podemos criar a vida? – A cientista riu, balançando a cabeça. – Não podemos! Esse é o ponto. Quando se trata do processo de criação, de atravessar a fronteira em que substâncias químicas inanimadas formam coisas vivas, toda a nossa ciência foge pela janela. Não existe mecanismo na química que explique como isso acontece. De fato, a simples ideia de células se organizando em formas de vida parece estar em conflito direto com a lei da entropia!
– Entropia – repetiu Edmond, agora aparecendo numa praia linda. – A entropia é só um modo chique de dizer: as coisas se desfazem. Em linguagem científica, dizemos que “um sistema organizado se deteriora inevitavelmente”. – Ele estalou os dedos e um intricado castelo de areia apareceu aos seus pés. – Acabei de organizar milhões de grãos de areia para formar um castelo. Vejamos o que o Universo acha disso. – Segundos depois, uma onda chegou e varreu o castelo. – É, o Universo localizou meus grãos organizados e os desorganizou, espalhando-os na praia. Isso é entropia. As ondas jamais batem na praia e depositam areia na forma de um castelo.
A entropia dissolve a estrutura. Os castelos de areia nunca aparecem espontaneamente no Universo, só desaparecem.
Edmond estalou os dedos de novo e reapareceu numa cozinha elegante.
– Quando você esquenta café – disse tirando uma xícara fumegante de dentro de um micro-ondas –, concentra a energia térmica numa xícara. Se você deixar essa xícara na bancada por uma hora, o calor se dissipa no cômodo e se espalha por igual, como grãos de areia numa praia. De novo é entropia. E o processo é irreversível.
Não importa quanto você espere, o Universo jamais vai reaquecer magicamente o seu café. – Edmond sorriu. – Nem vai pôr um ovo quebrado de novo na casca ou reconstituir um castelo de areia erodido.
Ambra se lembrou de ter visto uma instalação chamada Entropia – uma fileira de velhos blocos de cimento, cada qual mais desmoronado que o outro, desintegrando-se lentamente numa pilha de entulho.
A Dra. Gerhard, a cientista de óculos, reapareceu.
– Nós vivemos num Universo entrópico – disse. – Um mundo cujas leis físicas tornam as coisas aleatórias, e não organizadas. A questão é a seguinte: como substâncias químicas sem vida se organizam magicamente em formas de vida complexas? Nunca fui uma pessoa religiosa, mas devo admitir que a existência da vida é o único mistério científico que já me levou a pensar na ideia de um Criador.
Edmond se materializou balançando a cabeça.
– Acho irritante quando pessoas inteligentes usam a palavra “Criador”… – E
deu de ombros, bem-humorado. – Sei que elas fazem isso porque a ciência simplesmente não tem uma explicação boa para o princípio da vida. Mas, acreditem, se vocês estiverem procurando algum tipo de força invisível que cria a ordem num Universo caótico, existem respostas mais simples do que Deus.
Edmond estendeu um prato de papel com limalha de ferro espalhada por sua superfície. Em seguida, pegou um ímã grande e o segurou embaixo do prato. Num instante, as partículas de limalha saltaram num arco organizado, alinhando-se perfeitamente umas com as outras.
– Uma força invisível acaba de organizar essa limalha. Foi Deus? Não… foi o eletromagnetismo.
Agora ele apareceu ao lado de uma grande cama elástica. Sobre a superfície esticada havia centenas de bolas de gude espalhadas.
– Uma mistura aleatória de bolas – declarou. – Mas se eu fizer isso… – Ele levou uma bola de boliche até a cama elástica e a fez rolar sobre o tecido. Seu peso criou uma depressão funda, e imediatamente as bolas de gude espalhadas correram para a depressão, formando um círculo em volta da bola de boliche. – É a mão de Deus organizando? – Edmond fez uma pausa. – Não, de novo… foi apenas a gravidade.
Agora ele apareceu em close.
– Por acaso, a vida não é o único exemplo do Universo criando ordem.
Moléculas não vivas se organizam o tempo todo em estruturas complexas.
Uma montagem de imagens se materializou: o vórtice de um tornado, um floco de neve, um leito de rio ondulado, um cristal de quartzo, os anéis de Saturno.
– Como vocês veem, às vezes o Universo organiza a matéria, o que parece ser exatamente o oposto da entropia. – Edmond suspirou. – Mas, afinal, o Universo prefere a ordem ou o caos?
Edmond reapareceu, andando por um caminho em direção à famosa cúpula do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, conhecido como MIT.
– Segundo a maioria dos físicos, a resposta é caos. A entropia é de fato quem manda, e o Universo está constantemente se desintegrando na direção da desordem.
É uma mensagem meio depressiva. – Edmond fez uma pausa e se virou, rindo. –
Mas hoje vim conhecer um jovem cientista brilhante que acredita haver uma peculiaridade… uma peculiaridade que pode guardar a chave para o início da vida.
Jeremy England?
Langdon ficou pasmo ao reconhecer o nome do físico que Edmond estava descrevendo. Atualmente, o professor do MIT, de 30 e poucos anos, era o queridinho da academia em Boston, tendo provocado uma agitação global em um novo campo chamado biologia quântica.
Por coincidência, Jeremy England e Robert Langdon tinham estudado na mesma escola preparatória para a universidade – a Phillips Exeter Academy –, e Langdon ficara sabendo do jovem físico na revista de ex-alunos da escola, num artigo intitulado “Organização adaptativa conduzida pela dissipação”. Apesar de Langdon ter lido apenas superficialmente a matéria e mal entendido alguma coisa, ficara intrigado ao saber que um ex-membro da Exeter era um físico brilhante e, ao mesmo tempo, profundamente religioso – judeu ortodoxo.
Dava para entender por que Edmond havia se interessado tanto pelo trabalho de England.
Na tela surgiu outro homem, identificado como o físico Alexander Grosberg, da Universidade de Nova York, a NYU.
– Nossa grande esperança – disse Grosberg – é que Jeremy England tenha identificado o princípio físico subjacente por trás da origem e da evolução da vida.
Langdon se empertigou mais um pouco ao ouvir isso, assim como Ambra.
Outro rosto surgiu.
– Se England puder demonstrar que sua teoria é verdadeira – disse o historiador Edward J. Larson, ganhador do Prêmio Pulitzer –, seu nome será lembrado para sempre. Ele poderia ser o próximo Darwin.
Meu Deus. Langdon sabia que Jeremy England estava provocando marolas, mas aquilo mais parecia um tsunami.
Carl Franck, físico de Cornell, acrescentou:
– A cada trinta anos, aproximadamente, experimentamos gigantescos passos adiante… e esse pode ser um deles.
Uma série de manchetes surgiu na tela em rápida sucessão.
“CONHEÇA O CIENTISTA QUE PODE REFUTAR DEUS”
“ESMAGANDO O CRIACIONISMO”
“OBRIGADO, DEUS – MAS NÃO PRECISAMOS MAIS DA SUA AJUDA”
A lista de chamadas continuava, agora seguida por pequenos trechos de importantes publicações científicas, todas parecendo proclamar a mesma mensagem: se Jeremy England puder provar sua nova teoria, as implicações serão avassaladoras
– não só para a ciência, mas também para a religião.
Langdon olhou o último título na parede – era da revista on-line Salon, de 3 de janeiro de 2015.
“DEUS ESTÁ ENCURRALADO: A CIÊNCIA NOVA E BRILHANTE QUE ATERRORIZA OS
CRIACIONISTAS E A DIREITA CRISTÔ
Um jovem professor do MIT está terminando a tarefa de Darwin – e ameaçando revogar tudo o que a direita fanática valoriza A imagem mudou e Edmond reapareceu, andando, determinado, pelo corredor de um laboratório de ciência numa universidade.