Origem

Dan Brown · Capítulo 28 de 107

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Capítulo 28

Mais alarmante, viu o segundo oficial da Guardia, o agente Díaz, entrando de novo na cúpula pelo rasgo no tecido. Díaz examinou o local e começou a ir diretamente para Ambra.

Ele nunca vai me deixar sair daqui!

De repente, Langdon estava ao lado dela. Pôs a mão gentilmente em sua cintura e começou a guiá-la para longe, indo rápido para a outra extremidade da cúpula, a passagem por onde todo mundo havia entrado.

– Srta. Vidal! – gritou Díaz. – Aonde vocês vão?

– Já vamos voltar – respondeu Langdon, levando-a rapidamente pela vastidão deserta, indo em linha reta para o fundo da sala e o túnel de saída.

– Sr. Langdon! – Era a voz do agente Fonseca, gritando atrás deles. – O senhor está proibido de sair desta sala!

Ambra sentiu a mão de Langdon apertando suas costas com mais intensidade.

– Winston – sussurrou Langdon ao fone. – Agora!

Um instante depois toda a cúpula escureceu.

C A P Í T U L O 2 8

O agente Fonseca e seu parceiro Díaz correram pela cúpula escurecida, iluminando o caminho com as lanternas dos celulares e mergulhando no túnel por onde Langdon e Ambra tinham acabado de desaparecer.

Na metade do túnel, Fonseca encontrou o telefone de Ambra caído no carpete.

Essa visão o deixou perplexo.

Ambra jogou fora o telefone?

A Guardia Real, com a permissão de Ambra, usava um aplicativo muito simples para saber sua localização o tempo todo. Só poderia haver uma explicação para ela ter deixado o telefone para trás: queria escapar da proteção deles.

Essa ideia deixou Fonseca extremamente preocupado, se bem que nem de longe tão nervoso quanto a perspectiva de ter que informar ao seu chefe que a futura rainha consorte da Espanha estava desaparecida. O comandante da Guardia era obsessivo e implacável quando se tratava de proteger os interesses do príncipe. Esta noite o próprio comandante havia passado o serviço a Fonseca. Sua diretriz não podia ser mais simples: “Mantenha Ambra Vidal em segurança e fora de encrenca o tempo todo.”

Não posso mantê-la em segurança se não souber onde ela está.

Os dois agentes foram rapidamente até o fim do túnel e chegaram à antessala escura, que agora parecia uma convenção de fantasmas – um monte de rostos pálidos e chocados, iluminados pelas telas dos celulares enquanto se comunicavam com o mundo lá fora, contando o que tinham acabado de testemunhar.

Várias pessoas gritavam:

– Acendam as luzes!

O telefone de Fonseca tocou e ele atendeu.

– Agente Fonseca, aqui é da segurança do museu – disse uma jovem em espanhol com a voz tensa. – Sabemos que vocês estão sem luz aí em cima. Parece que foi um problema de computador. Teremos a energia de volta num instante.

– As câmeras de segurança interna ainda estão funcionando? – perguntou Fonseca, sabendo que todas elas eram equipadas com visão noturna.

– Estão, sim.

Fonseca examinou a sala escura.

– Ambra Vidal acabou de entrar na antessala do lado de fora do teatro principal.

Você consegue ver para onde ela foi?

 

– Um momento, por favor.

Fonseca esperou com o coração martelando de frustração. Tinha acabado de receber a notícia de que o Uber estava com dificuldade para rastrear o carro usado pelo assassino em fuga.

Será que mais alguma coisa pode dar errado esta noite?

Infelizmente, essa era a primeira vez que trabalhava na segurança de Ambra Vidal. Como oficial de alta patente, Fonseca só era designado para acompanhar o próprio príncipe Julián. No entanto, de manhã, seu chefe o havia chamado e dissera:

– Esta noite a Srta. Vidal vai ser anfitriã de um evento contra a vontade do príncipe Julián. Você vai acompanhá-la e garantir que esteja em segurança.

Fonseca jamais imaginaria que a apresentação acabaria sendo um ataque explícito contra a religião, culminando num assassinato público. Ainda tentava digerir a recusa raivosa de Ambra em atender ao telefonema preocupado do príncipe.

Tudo aquilo parecia inconcebível, no entanto, o comportamento bizarro dela só vinha aumentando. Ao que parecia, Ambra Vidal estava tentando despistar sua equipe de segurança para poder fugir com um professor americano.

Se o príncipe Julián ficar sabendo disso…

– Agente Fonseca? – A voz da mulher da segurança retornou. – Podemos ver que a Srta. Vidal e um acompanhante saíram da antessala. Seguiram pela passarela e acabaram de entrar na galeria onde está a exposição Celas, de Louise Bourgeois.

Saia pela porta e vire à direita. É a segunda galeria à sua direita.

– Obrigado! Continue rastreando-os!

Fonseca e Díaz correram pela antessala e saíram na passarela. Lá embaixo podiam ver bandos de convidados andando rapidamente pelo saguão em direção às saídas.

À direita, exatamente como a segurança havia informado, Fonseca viu a abertura de uma grande galeria. A placa da exposição dizia: CELAS.

A galeria era ampla e abrigava um conjunto de estranhas áreas cercadas, parecidas com jaulas, cada uma contendo uma escultura branca e amorfa.

– Srta. Vidal! – gritou Fonseca. – Sr. Langdon!

Não recebendo resposta, os dois agentes começaram a procurar.

Várias salas atrás dos agentes da Guardia, do lado de fora do auditório em cúpula, Langdon e Ambra estavam passando por um labirinto de andaimes, indo em silêncio em direção a uma placa de saída, mal iluminada, a distância.

Suas ações nos últimos minutos tinham sido um borrão – com Langdon e Winston colaborando para enganar os agentes.

Seguindo a indicação de Langdon, Winston havia apagado as luzes e mergulhado a cúpula na escuridão. O professor tinha feito uma imagem mental da distância entre a posição em que se encontravam e o túnel de saída, com uma estimativa quase perfeita. Na boca do túnel, Ambra jogou seu telefone na passagem escura. Depois, em vez de entrar na passagem, eles deram meia-volta, permanecendo dentro da cúpula, e voltaram ao longo da parede interna, correndo as mãos pelo tecido até encontrarem o rasgo por onde o agente da Guardia havia saído em perseguição ao assassino de Edmond. Depois de passar pela abertura na parede de tecido, os dois foram até a parede externa da sala e seguiram na direção de uma placa iluminada que indicava uma escada de emergência.

Langdon se lembrou com espanto da rapidez com que Winston tinha tomado a decisão de ajudá-los.

– Se o anúncio de Edmond pode ser acessado com uma senha – dissera Winston

–, devemos encontrá-la e usá-la imediatamente. Minha diretriz original era ajudar Edmond de todos os modos possíveis para tornar o anúncio desta noite um sucesso.

Obviamente fracassei nisso e farei qualquer coisa para ajudar a reparar esse erro.

Langdon já ia agradecer, mas Winston continuou sem respirar. As palavras saíam dele num ritmo que não era humano, como uma gravação passando em velocidade acelerada.

– Se eu pudesse acessar a apresentação de Edmond – disse Winston –, faria isso imediatamente, mas, como o senhor ouviu, ela está armazenada num servidor seguro, fora daqui. Parece que tudo de que precisamos para divulgar a descoberta dele ao mundo é seu telefone especial e a senha. Já examinei todos os textos publicados em busca de um verso de 47 letras e, infelizmente, as possibilidades chegam às centenas de milhares ou mais, considerando o transbordamento de um verso no outro. Além disso, como geralmente as interfaces de Edmond bloqueiam os usuários depois de algumas tentativas fracassadas de digitar a senha, um ataque com força bruta será impossível. Com isso resta apenas uma opção: devemos descobrir a senha de outro modo. Concordo com a Srta. Vidal, vocês devem ir imediatamente à casa de Edmond em Barcelona. Parece lógico que, se ele tinha um verso predileto, deveria possuir um livro contendo o poema, e talvez até tenha marcado de algum modo seu verso preferido. Portanto calculo uma probabilidade muito alta de que Edmond gostaria que vocês fossem a Barcelona, encontrassem a senha e a usassem para divulgar o anúncio, como foi planejado. Além disso, agora constatei que o telefonema de último minuto requisitando a inclusão do almirante Ávila na lista de convidados se originou mesmo no Palácio Real de Madri, como declarou a Srta.

Vidal. Por esse motivo, decidi que não podemos confiar nos agentes da Guardia Real e vou arranjar um modo de despistá-los e facilitar a fuga de vocês.

Incrivelmente, parecia que Winston tinha encontrado um modo de fazer isso.

Langdon e Ambra haviam chegado à saída de emergência, onde Langdon abriu a porta sem fazer barulho, fez com que ela passasse e a fechou de novo.

– Bom – disse a voz de Winston, materializando-se na cabeça de Langdon. –

Vocês estão na escada.

– E os agentes da Guardia?

– Longe. No momento estou falando pelo telefone com eles, fingindo que sou uma agente de segurança do museu e mandando-os para uma galeria na outra ponta do prédio.

Incrível, pensou Langdon, balançando a cabeça positivamente para tranquilizar Ambra.

– Tudo bem.

– Desçam a escada até o térreo e saiam do museu – disse Winston. – Além disso, saibam que, assim que vocês deixarem o prédio, o fone não vai ter mais conexão comigo.

Maldição. Isso não havia ocorrido a Langdon.

– Winston – disse ele apressadamente –, você sabe que Edmond compartilhou a descoberta com alguns líderes religiosos na semana passada?

– Sei que isso parece improvável – respondeu Winston. – Mas, como a introdução desta noite certamente sugeriu, o trabalho de Edmond pode ter um impacto profundo sobre as religiões, de modo que talvez ele quisesse discutir essas descobertas com líderes desse campo.

– Pode ser. Um deles era o bispo Valdespino, de Madri.

– Interessante. Vejo numerosas referências na internet dizendo que ele é um conselheiro muito íntimo do rei da Espanha.

– É, e mais uma coisa. Você sabia que Edmond recebeu uma mensagem de voz ameaçadora vinda de Valdespino depois do encontro entre eles?

– Não. Deve ter sido feita por uma linha privada.

– Edmond me mostrou a gravação. Valdespino insistiu que ele cancelasse a apresentação e alertou que os clérigos consultados estavam avaliando uma medida preventiva para, de algum modo, minar a força de Edmond antes que ele fizesse o anúncio publicamente. – Langdon diminuiu o passo enquanto descia a escada, permitindo que Ambra fosse à frente. E baixou a voz. – Você encontrou alguma conexão entre Valdespino e o almirante Ávila?

Winston fez uma pausa de alguns segundos.

– Não encontrei nenhuma conexão direta, mas isso não significa que não exista.

Só quer dizer que não é documentada.

Os dois se aproximavam do térreo.

– Professor, se me permite… – disse Winston. – Considerando os acontecimentos desta noite, a lógica sugere que forças poderosas estão decididas a enterrar a descoberta de Edmond. Tendo em mente que ele citou o senhor durante a apresentação como a pessoa cujas ideias ajudaram a inspirar sua descoberta, é possível que os inimigos de Edmond o considerem uma ponta solta perigosa.

Langdon jamais havia pensado nessa possibilidade e teve uma súbita sensação

de perigo quando chegou ao térreo. Ambra já estava lá e tinha aberto a porta de metal.

– Quando saírem – disse Winston –, vocês vão estar num beco. Virem à esquerda rodeando o prédio e sigam até o rio. Dali vou facilitar seu transporte até o local do qual falamos.

BIO-EC346, pensou Langdon, tendo pedido que Winston os levasse até lá. O

lugar onde Edmond e eu deveríamos nos encontrar depois do evento. Finalmente Langdon havia decifrado o código, percebendo que BIO-EC346 não era nenhum clube secreto de ciência. Era uma coisa muito mais corriqueira. Mesmo assim esperava que fosse a chave para sua saída de Bilbao.

Se conseguirmos chegar lá sem sermos detectados…, pensou, sabendo que logo haveria bloqueios de rua em toda parte. Precisamos nos mover rapidamente.

Quando Langdon e Ambra passaram pela porta e saíram no ar frio da noite, Langdon ficou intrigado ao ver o que pareciam contas de rosário espalhadas pelo chão. Nem teve tempo de se perguntar por quê. Winston ainda estava falando:

– Assim que chegarem ao rio, vão à passarela embaixo da Ponte La Salve e esperem até…