Origem
Capítulo 33
BIO era mesmo um código – tão fácil de decifrar quanto códigos semelhantes ao redor do mundo: BOS, LAX, JFK.
BIO é o código do aeroporto local.
O resto do código de Edmond havia se encaixado instantaneamente.
EC346.
Langdon nunca tinha visto o jato particular de Edmond, mas sabia de sua existência e estava quase certo de que o código na cauda de um avião na Espanha começaria com a letra E.
Com certeza, se um motorista de táxi o tivesse levado ao Aeroporto de Bilbao,
Langdon poderia ter apresentado o cartão de Edmond à segurança e ser acompanhado até seu jato particular.
Espero que Winston tenha conseguido falar com os pilotos, avisando que estamos indo, pensou, olhando de volta na direção do museu que estava ficando cada vez menor, lá atrás.
Pensou em ir para a cabine juntar-se a Ambra, mas a sensação do ar puro era boa e ele decidiu dar alguns minutos para ela ficar a sós e se recuperar.
Eu também gostaria de ter um momento a sós, pensou, indo para a proa.
Na frente do barco, com o vento açoitando o cabelo, Langdon desamarrou a gravata-borboleta e a colocou no bolso. Depois abriu o botão de cima do colarinho formal e respirou o mais fundo que pôde, deixando o ar noturno encher os pulmões.
Edmond, pensou. O que você fez?
C A P Í T U L O 3 3
O comandante Diego Garza estava fumegando enquanto andava de um lado para outro na penumbra do apartamento do príncipe Julián ouvindo o sermão fanático do bispo.
O senhor está ultrapassando os limites, Garza queria gritar para Valdespino.
Esta não é a sua área.
De novo o bispo Valdespino tinha se metido na política do palácio. Tendo se materializado como um espectro na escuridão do apartamento de Julián, Valdespino estava adornado com as vestimentas eclesiásticas completas e agora fazia um sermão passional para Julián, falando da importância das tradições espanholas, da religiosidade devota dos reis e rainhas do passado e da influência reconfortante da Igreja em tempos de crise.
Este não é o momento. Garza fervia por dentro.
Esta noite o príncipe Julián precisaria desempenhar um papel delicado de relações públicas, e a última coisa de que Garza necessitava era que ele fosse distraído pelas tentativas do bispo de impor uma agenda religiosa.
O toque do seu telefone interrompeu convenientemente o monólogo de Valdespino.
– Sí, dime – disse Garza em voz alta, posicionando-se entre o príncipe e o bispo. – ¿Qué tal va?
– Senhor, é o agente Fonseca, em Bilbao – respondeu a pessoa do outro lado da linha, num espanhol rapidíssimo. – Infelizmente não conseguimos capturar o atirador. A empresa prestadora de serviços, que achamos que poderia rastreá-lo, perdeu o contato. Parece que o atirador previu nossas ações.
Garza engoliu a raiva e exalou o ar com calma, tentando garantir que sua voz não revelasse nada sobre seu estado de ânimo.
– Sei – respondeu em tom tranquilo. – No momento sua única preocupação deve ser a Srta. Vidal. O príncipe está esperando para vê-la e nós garantimos a ele que você irá trazê-la para cá em breve.
Houve um longo silêncio na linha. Longo demais.
– Comandante? – perguntou Fonseca, hesitando. – Sinto muito, senhor, mas tenho más notícias. Parece que a Srta. Vidal e o professor americano saíram do prédio. – Ele fez uma pausa. – Sem nós.
Garza quase largou o telefone.
– Desculpe, você pode… repetir isso?
– Sim, senhor. A Srta. Vidal e Robert Langdon fugiram do museu. A Srta.
Vidal se desfez intencionalmente do telefone dela, de modo que não pudéssemos rastreá-la. Não temos ideia de para onde eles foram.
Garza percebeu que tinha ficado boquiaberto, e agora o príncipe estava encarando-o com preocupação aparente. Valdespino também se inclinava para escutar, as sobrancelhas arqueadas com interesse inconfundível.
– Ah, notícia excelente! – disse Garza de súbito, assentindo com convicção. –
Bom trabalho. Veremos todos vocês aqui mais tarde. Só vamos confirmar os protocolos de transporte e segurança. Um momento, por favor.
Garza cobriu o telefone e sorriu para o príncipe.
– Está tudo bem. Só vou dar um pulinho em outro cômodo para cuidar dos detalhes, de modo que os senhores possam ter privacidade.
Garza estava relutante em deixar o príncipe sozinho com Valdespino, mas aquele não era um telefonema que ele poderia continuar na frente dos dois, por isso foi até um dos quartos de hóspedes, entrou e fechou a porta.
– ¿Qué diablos ha pasado? – perguntou. Que diabo aconteceu?
Fonseca contou uma história que parecia uma fantasia completa.
– As luzes se apagaram? – irritou-se Garza. – Um computador fingiu ser uma agente de segurança e lhe deu informações erradas? Como eu deveria reagir a isso?
– Sei que é difícil imaginar, senhor, mas chegamos à conclusão de que foi exatamente o que aconteceu. O que estamos lutando para entender é por que o computador teve uma mudança de postura tão súbita.
– Mudança de postura?! É uma porcaria de um computador!
– Quero dizer que antes o computador estava ajudando, identificando o nome do atirador, tentando impedir o assassinato e também descobrindo que o veículo usado para a fuga era um Uber. Então, do nada, ele parecia estar trabalhando contra nós. Só podemos deduzir que Robert Langdon deve ter dito alguma coisa, porque, depois de uma conversa que ele teve com o computador, tudo mudou.
Agora estou lutando contra um computador? Garza decidiu que estava ficando velho demais para esse mundo moderno.
– Tenho certeza, agente Fonseca, de que não preciso dizer como seria embaraçoso para o príncipe, tanto pessoal quanto politicamente, se fosse revelado que sua noiva fugiu com o americano e que a Guardia Real foi enganada por um computador.
– Temos plena consciência disso.
– Você tem alguma ideia do que levaria os dois a fugir? Parece uma coisa totalmente imprevista e imprudente.
– O professor Langdon resistiu um bocado quando falei que ele iria conosco para Madri esta noite. Deixou claro que não desejava ir.
E por isso fugiu de um local de assassinato? Garza sentiu que havia alguma
coisa por trás disso, mas não conseguia imaginar o que fosse.
– Ouça com atenção. É absolutamente fundamental que você localize Ambra Vidal e a traga para o palácio antes que qualquer dessas informações vaze.
– Entendo, senhor, mas Díaz e eu somos os únicos agentes aqui. Não podemos revirar toda Bilbao sozinhos. Precisaremos alertar as autoridades locais, obter acesso às câmeras de trânsito, apoio aéreo, todas…
– De jeito nenhum! – reagiu Garza. – Não podemos nos dar ao luxo desse embaraço. Façam o seu serviço. Encontrem-nos sozinhos e devolvam a Srta. Vidal à nossa custódia o mais rápido possível.
– Sim, senhor.
Garza desligou, incrédulo.
Enquanto saía do quarto, uma jovem pálida se aproximou dele rapidamente pelo corredor. Estava usando os óculos de fundo de garrafa e o terninho bege de sempre e segurava ansiosamente um tablet.
Deus me ajude, pensou Garza. Agora, não.
Mónica Martín era a mais recente e mais jovem “coordenadora de relações públicas” de todos os tempos no palácio: um posto que incluía os serviços de contato com a mídia, estrategista de relações públicas e diretora de comunicações – e que Mónica parecia realizar em permanente estado de alerta.
Aos 26 anos, Mónica possuía diploma de Comunicação da Universidade Complutense de Madri, tinha feito dois anos de pós-graduação numa das principais escolas de informática do mundo – a Universidade de Tsinghua, em Pequim – e depois tivera um cargo importante de relações públicas no Grupo Planeta, seguido por um alto posto de “comunicações” na rede de televisão espanhola Antena 3.
No ano anterior, numa tentativa desesperada de se conectar com os jovens da Espanha por meio da mídia digital e para acompanhar a influência cada vez maior do Twitter, do Facebook, dos blogs e dos jornais e revistas on-line, o palácio havia demitido um antigo profissional de RP, com décadas de experiência na mídia impressa, e o substituíra por essa jovem cheia de conhecimento tecnológico.
Mónica deve tudo ao príncipe Julián, Garza sabia.
A nomeação da jovem tinha sido uma das poucas contribuições do príncipe Julián às operações do palácio – uma situação rara em que ele teve uma queda de braço com o pai. Mónica Martín era considerada uma das melhores do ramo, mas Garza achava sua paranoia e sua energia nervosa absolutamente exaustivas.
– Teorias da conspiração – anunciou ela, balançando o tablet enquanto chegava.
– Estão explodindo em toda parte.
Garza olhou incrédulo para sua coordenadora de relações públicas. Está parecendo que eu me importo? Ele tinha coisas mais importantes com que se preocupar esta noite do que com a fábrica de boatos conspiratórios.
– Poderia me dizer o que está fazendo, andando pela residência real?
– A sala de controle acabou de localizar o seu GPS. – Ela apontou para o
telefone no cinto de Garza.
Ele fechou os olhos e soltou o ar, engolindo a irritação. Além de uma nova coordenadora de RP, o palácio havia implementado recentemente uma nova “divisão de segurança eletrônica”, que apoiava sua equipe com serviços de GPS, vigilância digital, criação de perfis e coleta preventiva de dados. A cada dia o grupo de funcionários de Garza ficava mais diversificado e jovem.
Nossa sala de controle parece o centro de informática de uma universidade.
Aparentemente a tecnologia recém-implementada para localizar os agentes da Guardia também estava rastreando o próprio Garza. Era irritante pensar que um punhado de garotos no porão sabia seu paradeiro a todo instante.
– Vim falar com o senhor pessoalmente – disse Mónica, estendendo o tablet –
porque tinha certeza de que gostaria de ver isso.
Garza arrancou o aparelho das mãos dela e olhou para a tela, vendo uma foto e uma biografia do espanhol de barba grisalha que tinha sido identificado como o atirador de Bilbao: o almirante Luis Ávila, da Marinha real.
– Há muitos comentários negativos – continuou Mónica –, e estão falando que Ávila foi empregado da família real.
– Ávila trabalhava para a Marinha! – reagiu Garza com rispidez.
– É, mas tecnicamente o rei é o comandante das Forças Armadas…
– Pode parar – ordenou Garza, empurrando o tablet de volta para ela. – Sugerir que, de algum modo, o rei é cúmplice de um ato terrorista é um absurdo inventado por malucos obcecados por conspirações, e isso é totalmente irrelevante para nossa situação esta noite. Vamos pensar no lado positivo e voltar ao trabalho. Afinal de contas, esse lunático poderia ter matado a futura rainha consorte, mas em vez disso optou por assassinar um ateu americano. No todo, não é um resultado ruim!
A jovem não se abalou.
– Há outra coisa, senhor, que tem a ver com a família real. Eu não queria que o senhor fosse apanhado desprevenido.
Enquanto Mónica falava, seus dedos voaram sobre o tablet, navegando para outro site.
– Esta é uma foto que está na rede há alguns dias, mas ninguém havia notado.
Agora, com tudo sobre Edmond Kirsch viralizando, a foto começou a aparecer nos noticiários.
Ela entregou o tablet a Garza.
Garza viu a chamada: “Esta é a última foto tirada do futurólogo Edmond Kirsch?”
Uma foto borrada mostrava Kirsch vestindo terno escuro, parado numa pedra ao lado de um penhasco perigoso.
– A foto foi tirada há três dias – disse Mónica –, enquanto Kirsch visitava a Abadia de Montserrat. Um homem que estava trabalhando lá o reconheceu e tirou uma foto. Depois do assassinato, postou a foto como sendo a última que fora tirada
dele.
– E o que isso tem a ver conosco? – ponderou Garza.
– Veja a foto seguinte.
Garza rolou a tela do tablet. Ao ver a segunda imagem, precisou estender a mão e se apoiar na parede.
– Isso… isso não pode ser verdade.
Nessa versão mais larga da mesma foto, Edmond Kirsch podia ser visto ao lado de um homem alto que usava uma tradicional batina roxa da Igreja Católica. Era o bispo Valdespino.
– É verdade, senhor – disse Mónica. – Valdespino se encontrou com Kirsch há alguns dias.
– Mas… – Garza hesitou, momentaneamente sem fala. – Mas por que o bispo não mencionaria isso? Ainda mais considerando tudo o que aconteceu esta noite!
Mónica balançou a cabeça, uma expressão desconfiada no rosto.
– Foi por isso que optei por falar primeiro com o senhor.
Valdespino se encontrou com Kirsch! Garza não conseguia entender. E o bispo não quis falar sobre isso? A notícia era assustadora e o comandante ficou ansioso para alertar o príncipe.
– Infelizmente há muito mais.
Mónica começou a manipular o tablet outra vez.
– Comandante? – A voz de Valdespino soou de repente vinda da sala. – Quais são as novidades sobre o transporte da Srta. Vidal?
Mónica Martín levantou a cabeça de modo súbito, com os olhos arregalados.
– É o bispo? – sussurrou ela. – Valdespino está aqui, na residência?
– Está. Aconselhando o príncipe.
– Comandante! – chamou Valdespino de novo. – O senhor está aí?
– Acredite – sussurrou Mónica em pânico –, há mais informações a que o senhor precisa ter acesso imediatamente, antes de dizer qualquer outra palavra ao bispo ou ao príncipe. Acredite quando digo que a crise desta noite tem um impacto maior sobre nós do que o senhor pode imaginar.
Garza observou por um momento sua coordenadora de RP e tomou uma decisão.
– Lá embaixo, na biblioteca. Encontro você em um minuto.
Mónica assentiu e foi embora.
Sozinho, Garza respirou fundo e forçou as feições a relaxar, esperando apagar todos os traços da raiva e da confusão crescentes. Com calma, voltou para a sala.
– Está tudo bem com a Srta. Vidal – anunciou com um sorriso ao entrar. – Ela vai chegar mais tarde. Estou indo para a sala de segurança confirmar pessoalmente o transporte. – Garza fez um gesto confiante para Julián e depois se virou para o bispo Valdespino. – Volto daqui a pouco. Não vá embora.
Em seguida se virou e saiu.
Enquanto Garza deixava o apartamento, o bispo Valdespino ficou observando-o com a testa franzida.
– Alguma coisa errada? – perguntou o príncipe, olhando o bispo com atenção.
– Sim – respondeu Valdespino, virando-se de volta para Julián. – Ouço confissões há 50 anos. Sei quando alguém está falando uma mentira.