Origem

Dan Brown · Capítulo 50 de 107

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Origem

Capítulo 52

Valdespino e o príncipe Julián saíram da segurança do complexo?

Garza não podia sequer imaginar o que eles estariam pensando.

Eles estão andando por Madri no carro de um acólito? Isso é loucura!

– Podemos contatar as autoridades de trânsito – disse Mónica. – Suresh acha que elas podem usar as câmeras que controlam o tráfego para ajudar a encontrar…

– Não! Alertar qualquer pessoa de que o príncipe está fora do palácio sem segurança é perigoso demais! Nossa preocupação principal é protegê-lo.

– Entendido, senhor. – Mónica pareceu subitamente inquieta. – Há outra coisa que o senhor deveria saber. É sobre um registro telefônico apagado.

– Espere aí – disse Garza, distraído pela chegada de seus quatro agentes que, para sua consternação, se aproximaram e o cercaram.

Antes que Garza pudesse reagir, os agentes da Guardia tinham retirado

habilmente sua arma e seu telefone.

– Comandante Garza – disse o agente principal, com o rosto inexpressivo. –

Tenho ordens diretas de prendê-lo.

C A P Í T U L O 5 2

A Casa Milà é construída na forma de um sinal de infinito: uma curva interminável que se dobra sobre si mesma e forma dois poços ondulantes que penetram no prédio. Cada um desses poços de iluminação abertos tem cerca de 30

metros de profundidade, amassados como um tubo parcialmente desmoronado e, do ar, parecem dois ralos enormes na cobertura do prédio.

De onde Langdon estava, na base do poço de iluminação mais estreito, olhar para o céu era decididamente inquietante: era como estar alojado na garganta de uma fera gigantesca.

Sob seus pés, o piso de pedra era inclinado e irregular. Uma escadaria helicoidal subia pelo interior do poço, com o corrimão de ferro forjado em treliça imitando as câmaras irregulares de uma esponja-do-mar. Uma pequena selva de trepadeiras retorcidas e palmeiras penduradas se derramava por cima dos parapeitos como se quisesse crescer e dominar todo o espaço.

Arquitetura viva, pensou Langdon, maravilhado com a capacidade de Gaudí de imbuir sua obra de uma qualidade quase biológica.

Seu olhar subiu mais alto ainda, para as laterais da “garganta”, escalando as paredes curvas, onde uma colcha de retalhos feita de ladrilhos marrons e verdes se entremeava com afrescos em tons pastel, mostrando plantas e flores que pareciam crescer em direção ao pedaço oblongo de céu noturno no topo do poço aberto.

– Os elevadores são por aqui – sussurrou Ambra, levando-o pela borda do pátio. – O apartamento de Edmond fica lá em cima.

Enquanto entravam no elevador desconfortavelmente pequeno, Langdon visualizou o sótão no último andar do prédio, que ele tinha visitado uma vez para ver uma pequena exposição sobre Gaudí. Pelo que lembrava, o sótão da Casa Milà era composto por uma série escura e sinuosa de cômodos com muito poucas janelas.

– Edmond poderia morar em qualquer lugar – disse Langdon enquanto o elevador começava a subir. – Ainda não consigo acreditar que ele alugou um sótão.

– É um apartamento estranho – concordou Ambra. – Mas, como você sabe, Edmond era excêntrico.

Quando o elevador chegou ao último andar, eles saíram num corredor elegante e subiram mais um lance de escada até um patamar privativo no topo do prédio.

– É aqui.

Ambra indicou uma porta de metal liso que não tinha maçaneta nem buraco de

fechadura. A entrada futurista parecia totalmente desconexa nesse prédio e obviamente fora acrescentada por Edmond.

– Você disse que sabe onde ele esconde a chave? – perguntou Langdon.

Ambra levantou o telefone de Edmond.

– No mesmo lugar onde ele parece esconder tudo.

Ela encostou o telefone na porta de metal, que soltou três bipes. Langdon ouviu uma série de trancas se abrindo. Ambra guardou o telefone e empurrou a porta.

– Pode entrar – disse ela com um floreio.

Langdon entrou num saguão mal iluminado cujas paredes e o teto eram de tijolos claros. O piso era de pedra e o ar parecia rarefeito.

Ao avançar para o espaço aberto do outro lado, ficou cara a cara com um quadro enorme pendurado na parede de trás, sob uma iluminação impecável, digna de um museu.

Quando Langdon viu a pintura, parou imediatamente.

– Meu Deus, isso é… o original?

Ambra sorriu.

– É. Eu ia mencionar no avião, mas pensei em surpreender você.

Sem fala, Langdon foi em direção à obra-prima. Tinha um pouco menos de quatro metros de largura e quase 1,5 metro de altura – muito maior do que ele recordava, pois já tinha visto o quadro no Museu de Belas Artes de Boston. Ouvi dizer que tinha sido vendido para um colecionador anônimo, mas não fazia ideia de que era Edmond.

– Quando vi pela primeira vez no apartamento – disse Ambra –, não acreditei que Edmond gostava desse tipo de arte. Mas agora que sei qual era o trabalho dele nesse ano, a pintura parece estranhamente adequada.

Langdon assentiu, incrédulo.

A pintura célebre era uma das principais obras do pós-impressionista francês Paul Gauguin – um pintor revolucionário que foi o principal representante do movimento simbolista no final do século XIX e ajudou a pavimentar o caminho para a arte moderna.

Enquanto ia em direção à pintura, Langdon ficou pasmo com a semelhança da paleta de cores de Gauguin com a da entrada da Casa Milà – uma mistura de verdes, marrons e azuis orgânicos. O quadro também mostrava uma cena muito naturalista.

Apesar do intrigante conjunto de pessoas e animais que apareciam na pintura, o olhar de Langdon foi imediatamente para o canto superior esquerdo – um trecho de um amarelo forte onde estava escrito o título da obra.

Langdon leu as palavras, incrédulo: D’où Venons Nous / Que Sommes Nous /

Où Allons Nous.

De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?

Imaginou se o fato de ser confrontado por essas perguntas todo dia ao chegar em casa teria de algum modo ajudado a inspirar Edmond.

Ambra se juntou a ele em frente à pintura.

– Edmond disse que queria ser motivado por essas perguntas sempre que chegasse em casa.

Era difícil não ver o quadro, pensou Langdon.

Observando o lugar de destaque em que Edmond tinha posto a obra-prima, Langdon se perguntou se a própria pintura talvez não guardasse alguma pista do que Edmond havia descoberto. A um primeiro olhar, o tema do quadro parecia primitivo demais para sugerir uma descoberta científica avançada. Suas pinceladas amplas e desiguais representavam uma selva no Taiti habitada por uma variedade de nativos taitianos e animais.

Langdon conhecia bem a pintura e, como lembrava, Gauguin pretendia que essa obra fosse “lida” da direita para a esquerda – direção inversa à do texto padrão em francês. E assim seu olhar seguiu as figuras familiares na direção reversa.

Na extrema direita um bebê recém-nascido dormia sobre uma pedra, representando o início da vida. De onde viemos?

No meio várias pessoas de diversas idades realizavam as tarefas cotidianas. O

que somos?

E na esquerda uma velha decrépita estava sentada sozinha, imersa em pensamentos, parecendo refletir sobre a própria mortalidade. Para onde vamos?

Langdon ficou surpreso por não ter pensado imediatamente nessa pintura quando Edmond descreveu o foco de sua descoberta. Qual é a nossa origem? Qual é o nosso destino?

Olhou os outros elementos da pintura: cachorros, gatos e pássaros que não pareciam estar fazendo nada específico, uma estátua de uma deusa primitiva ao fundo, uma montanha, raízes retorcidas e árvores. E, claro, o famoso “estranho pássaro branco” de Gauguin, que estava ao lado da velha e, segundo o artista, representava “a futilidade das palavras”.

Fúteis ou não, pensou Langdon, foi atrás de palavras que viemos aqui. De preferência com um total de 47 caracteres.

Por um instante se perguntou se o título incomum da pintura poderia ter uma relação direta com a senha de 47 letras que eles estavam procurando, mas uma contagem rápida, tanto em francês quanto em inglês, não deu esse número.

– Certo, estamos procurando um verso de um poema – disse Langdon com esperança.

– A biblioteca de Edmond é por aqui.

Ambra apontou à esquerda, para um corredor amplo que, como Langdon pôde ver, estava decorado com móveis elegantes entremeados por vários artefatos e caixas de vidro mostrando obras de Gaudí.

Edmond mora num museu? Langdon ainda não conseguia entender direito. O

sótão da Casa Milà não era exatamente o lugar mais aconchegante que ele já vira.

Feito de pedra e tijolos, era essencialmente um túnel contínuo guarnecido com

costelas – um aro composto por 270 arcos parabólicos de alturas variadas, separados por cerca de um metro cada. Havia pouquíssimas janelas e a atmosfera tinha um gosto seco e estéril, obviamente muito processada para proteger os artefatos de Gaudí.

– Vou me juntar a você num instante – disse Langdon. – Primeiro preciso encontrar o banheiro de Edmond.

Meio sem jeito, Ambra olhou de volta para a entrada.

– Edmond sempre me dizia para usar o do saguão, lá embaixo… ele era misteriosamente resguardado com relação ao banheiro particular do apartamento.

– É um apartamento de solteiro. O banheiro devia ser uma bagunça e ele ficava sem jeito.

Ambra sorriu.

– Bom, acho que é ali.

Ela apontou na direção oposta à biblioteca, por um túnel muito escuro.

– Obrigado. Já volto.

Ambra foi para o escritório de Edmond e Langdon partiu na direção oposta, pelo corredor estreito – um dramático túnel de arcos de tijolos que o fez se lembrar de uma caverna subterrânea ou uma catacumba medieval. Estranhamente, enquanto seguia pelo túnel de pedra, luzes com sensores de movimento iluminavam a base de cada arco parabólico, clareando o caminho.

Passou por uma elegante área de leitura, uma pequena área de ginástica e até uma copa, tudo intercalado com várias mesas com caixas de vidro mostrando desenhos, esboços arquitetônicos e maquetes de projetos de Gaudí.

Mas quando passou por uma mesa iluminada mostrando artefatos biológicos, Langdon parou, surpreso com o conteúdo – um fóssil de peixe pré-histórico, uma elegante concha de náutilo, um sinuoso esqueleto de cobra. Por um momento fugaz imaginou que Edmond devia ter montado pessoalmente aquela mostra científica – talvez relacionada aos seus estudos sobre as origens da vida. Então viu a anotação na caixa de vidro e percebeu que aqueles artefatos tinham pertencido a Gaudí e refletiam várias características arquitetônicas daquela casa: as escamas de peixe eram os padrões de ladrilhos nas paredes, o náutilo era a rampa que descia para a garagem e o esqueleto de cobra com suas centenas de costelas igualmente espaçadas era aquele mesmo corredor.

Acompanhando a mostra estavam as palavras humildes do arquiteto: Nada é inventado, já que está escrito primeiro na natureza.

A originalidade consiste em voltar à origem.

– ANTONI GAUDÍ

Langdon virou os olhos para o corredor sinuoso com abóbadas de costelas e de novo sentiu-se dentro de uma criatura viva.

Um lar perfeito para Edmond, decidiu. Arte inspirada pela ciência.

Enquanto seguia pela primeira curva no túnel serpentino, o espaço se alargou e as luzes acionadas por movimento se acenderam. Seu olhar foi atraído imediatamente para uma enorme caixa de vidro no centro do corredor.

Um modelo de catenária – pensou, sempre maravilhado com esses engenhosos protótipos de Gaudí. “Catenária” era um termo arquitetônico que se referia a uma curva formada por um cordão suspenso entre dois pontos fixos – como uma rede de dormir ou a corda de veludo pendurada entre dois balaústres num teatro.

No modelo de catenária diante de Langdon, dezenas de correntes tinham sido suspensas frouxamente do topo da caixa – resultando em fios longos que desciam e depois subiam de novo criando formas de U que pendiam frouxas. Como a tensão gravitacional era o inverso da compressão gravitacional, Gaudí podia estudar a forma exata assumida por uma corrente que pendesse naturalmente sob o próprio peso e podia imitar essa forma para solucionar os desafios arquitetônicos da compressão gravitacional.

Mas isso exige um espelho mágico, pensou Langdon, indo em direção à caixa.

Como tinha previsto, o piso da caixa era um espelho e, ao olhar para o reflexo, viu um efeito de magia. Todo o modelo ficou de cabeça para baixo – e as correntes suspensas se transformaram em pináculos altos.

Nesse caso Langdon percebeu que estava diante de uma visão aérea invertida da altíssima Basílica da Sagrada Família, cujas torres levemente curvas podiam ter sido projetadas usando este mesmo modelo.

Seguindo pelo corredor, chegou a uma elegante área de dormir com uma antiga cama de dossel, um armário de cerejeira e uma cômoda de marchetaria. As paredes eram decoradas com esboços de Gaudí, que Langdon percebeu que simplesmente faziam parte da mostra do museu.

A única obra de arte que parecia ter sido acrescentada era uma grande citação caligrafada pendurada acima da cama. Langdon leu as três primeiras palavras e reconheceu imediatamente a fonte.

Deus está morto. Deus continua morto. E nós o matamos. Como vamos nos consolar, os assassinos de todos os assassinos?

– NIETZSCHE

“Deus está morto” eram as três palavras mais famosas escritas por Friedrich Nietzsche, o renomado filósofo e ateu alemão do século XIX. Nietzsche era conhecido por suas críticas cáusticas à religião, mas também por suas reflexões

sobre ciência – especialmente a evolução darwiniana –, que ele acreditava ter transportado a humanidade para a borda do niilismo, uma percepção de que a vida não tinha significado nem propósito mais elevado e não oferecia qualquer prova direta da existência de Deus.

Ao ver a citação acima da cama, Langdon se perguntou se talvez, apesar de toda a sua petulância antirreligiosa, Edmond pudesse estar tendo dificuldades com seu próprio papel na tentativa de livrar o mundo de Deus.

A citação de Nietzsche, como Langdon recordava, concluía com as palavras:

“A grandeza desse ato não será grande demais para nós? Não devemos, nós mesmos, nos tornar deuses simplesmente para parecermos dignos dele?”

Essa ideia ousada – de que o homem deve se tornar Deus para matar Deus –

estava no cerne do pensamento de Nietzsche. E talvez, percebeu Langdon, explicasse em parte o complexo de ser Deus sofrido por tantos gênios pioneiros de tecnologias, como Edmond. Os que apagam Deus… devem ser deuses.

Enquanto pensava nisso, Langdon foi tomado por uma segunda percepção.

Nietzsche não era apenas filósofo – também era poeta!

O próprio Langdon tinha um exemplar de O Pavão e o Búfalo, uma compilação de 275 poemas e aforismos de Nietzsche com pensamentos sobre Deus, a morte e a mente humana.

Em seguida, contou os caracteres da citação famosa. O número não batia, porém sentiu uma ponta de esperança. Será que Nietzsche pode ser o poeta do verso que estamos procurando? Nesse caso será que vamos encontrar um livro de poesias de Nietzsche no escritório de Edmond? De qualquer modo, Langdon pediria a Winston que acessasse a compilação dos poemas de Nietzsche na internet e procurasse um verso de 47 caracteres.

Ansioso para voltar a Ambra e contar o que tinha pensado, atravessou rapidamente o quarto e foi para o banheiro visível do outro lado.

Quando entrou, as luzes lá dentro revelaram um cômodo muito bem decorado contendo uma pia de pedestal, um chuveiro e um vaso sanitário.

Seu olhar foi logo atraído para uma mesa antiga e baixa, atulhada de material de toalete e itens pessoais. Quando viu as coisas em cima da mesa inalou profundamente, dando um passo atrás.

Ah, meu Deus, Edmond… não.

A mesa diante dele parecia um laboratório de drogas de fundo de quintal: seringas usadas, frascos de comprimidos, cápsulas soltas e até um trapo manchado de sangue.

Seu coração se encolheu.

Edmond estava usando drogas?

Langdon sabia que nos últimos tempos o vício químico havia se tornado dolorosamente comum, até mesmo entre os ricos e famosos. Agora a heroína era mais barata do que a cerveja e as pessoas engoliam analgésicos opiáceos como se

fosse aspirina.

O vício certamente explicaria a perda de peso recente, pensou, imaginando se Edmond estaria apenas fingindo que tinha “virado vegano”, numa tentativa de encobrir a magreza e os olhos fundos.

Foi até a mesa, pegou um dos frascos e leu o rótulo, esperando encontrar um dos opiáceos comuns como oxicodona.

Em vez disso leu: docetaxel.

Perplexo, verificou outro frasco: gencitabina.

O que é isso? , pensou, verificando um terceiro frasco: fluorouracila. Ficou imóvel. Tinha ouvido falar do Fluorouracil por um colega de Harvard e teve uma súbita onda de pavor. Um instante depois viu um panfleto no meio dos frascos. O título era “O veganismo reduz o câncer do pâncreas?”.