Origem

Dan Brown · Capítulo 23 de 107

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Capítulo 23

As revistas liberais estampavam seu rosto em todas as capas. “Ambra! O Lindo Futuro da Espanha!” Quando ela recusava uma entrevista, era saudada como

“independente”; quando dava uma entrevista, era “acessível”.

As revistas conservadoras se concentravam no hábito de Ambra de chamar o príncipe Julián apenas pelo primeiro nome, deixando de lado o costume tradicional de se referir a ele como Don Julián ou Su Alteza.

A segunda preocupação delas parecia muito mais séria. Nas últimas semanas, o trabalho de Ambra a havia deixado quase indisponível para o príncipe, mas ela fora vista várias vezes em Bilbao, almoçando perto do museu com um ateu declarado: o tecnólogo americano Edmond Kirsch.

Apesar da insistência de Ambra de que os almoços eram simplesmente reuniões de trabalho com um dos principais doadores do museu, fontes internas do palácio sugeriam que o sangue de Julián estava começando a ferver.

Não que alguém pudesse culpá-lo.

A verdade era que a estonteante noiva de Julián – apenas algumas semanas depois do noivado – vinha optando por passar a maior parte do tempo com outro homem.

C A P Í T U L O 2 3

O rosto de Langdon continuava pressionado contra a grama. O peso do agente era esmagador.

Estranhamente, ele não sentia nada.

Suas emoções estavam dispersas e entorpecidas – camadas tortuosas de tristeza, medo e ultraje. Uma das mentes mais brilhantes do mundo – um amigo querido – fora executado publicamente do modo mais brutal. Foi morto apenas alguns segundos antes de revelar a maior descoberta de sua vida.

Langdon percebeu que a trágica perda de uma vida humana era acompanhada por uma segunda perda: científica.

Agora talvez o mundo jamais conheça o que Edmond descobriu.

Sentiu uma raiva súbita, seguida por uma determinação férrea.

Vou fazer todo o possível para descobrir quem é o responsável por isso. Vou honrar seu legado, Edmond. E encontrar um modo de compartilhar sua descoberta com o mundo.

– Você sabia – disse asperamente a voz do guarda, perto de seu ouvido. –

Estava indo para o pódio como se esperasse que alguma coisa acontecesse.

– Eu… fui… avisado – conseguiu dizer Langdon, praticamente incapaz de respirar.

– Foi avisado por quem?

Langdon sentiu seu fone torcido e fora do lugar na bochecha.

– O fone que estou usando… é um guia automático. O computador de Edmond Kirsch me avisou. Ele encontrou uma anomalia na lista de convidados, um almirante reformado da Marinha espanhola.

Agora a cabeça do guarda estava suficientemente perto do ouvido de Langdon para que ele escutasse o fone do rádio do sujeito. A voz na transmissão estava sem fôlego e ansiosa. E ainda que o espanhol de Langdon fosse precário, ele ouviu o suficiente para decifrar a má notícia.

… el asesino ha huido…

O assassino tinha escapado.

… salida bloqueada…

Uma saída tinha sido bloqueada.

… uniforme militar blanco…

Quando as palavras “uniforme militar” foram ditas, o guarda em cima de

Langdon diminuiu a pressão.

– ¿Uniforme naval? – perguntou ele ao parceiro. – Blanco… ¿Como de almirante?

A resposta foi afirmativa.

Um uniforme da Marinha, percebeu Langdon. Winston estava certo.

– Não se mexa – disse o guarda.

Langdon não tinha intenção de se mexer; o oficial em cima dele tinha uns 100

quilos de puro músculo e já havia mostrado que levava seu trabalho tremendamente a sério.

– ¡Inmediatamente! – gritou o guarda pelo rádio, continuando com um pedido urgente de apoio das autoridades locais e bloqueios de estradas em volta do museu.

… policía local… bloqueos de carretera…

De onde estava, na grama, Langdon podia ver Ambra Vidal ainda no chão perto da parede. Ela tentou se levantar mas vacilou, caindo de quatro.

Alguém a ajude!

Mas o guarda estava gritando para o outro lado da cúpula, parecendo não se dirigir a ninguém em especial.

– ¡Luces! ¡Y cobertura de móvil! – Preciso de luzes e serviço de celular!

Langdon levantou a mão e ajeitou o transdutor no rosto.

– Winston, você está aí?

O guarda se virou, olhando Langdon de modo estranho.

– Estou. – A voz de Winston saiu chapada.

– Winston, Edmond levou um tiro. Precisamos das luzes de volta imediatamente. E do desbloqueio do serviço de celulares. Você pode controlar isso?

Ou contatar alguém que possa?

Segundos depois, as luzes da cúpula aumentaram abruptamente de intensidade, dissolvendo a ilusão mágica de uma campina enluarada e clareando uma vastidão deserta de grama artificial com cobertores abandonados.

O guarda ficou estupefato com o aparente poder de Langdon. Depois de um momento, ele se abaixou e puxou o professor para que ficasse de pé. Os dois se encararam sob a luz forte.

O agente era alto, de estatura equivalente à de Langdon, com cabeça raspada e corpo musculoso que forçava as costuras do blazer azul. O rosto era claro, com feições tranquilas destacando os olhos penetrantes que, no momento, estavam focalizados no professor como lasers.

– O senhor apareceu no vídeo desta noite. O senhor é Robert Langdon.

– Sim. Edmond Kirsch foi meu aluno e era meu amigo.

– Sou o agente Fonseca, da Guardia Real – anunciou o homem num inglês perfeito. – Diga como soube sobre o uniforme da Marinha.

Langdon se virou para o corpo de Edmond imóvel na grama ao lado do pódio.

Ambra Vidal se ajoelhou ao lado dele junto com dois seguranças do museu e um

paramédico, que já havia abandonado os esforços para ressuscitá-lo. Ela cobriu o cadáver gentilmente com um cobertor.

Sem dúvida, Edmond estava morto.

Langdon sentiu náuseas, incapaz de afastar o olhar do amigo assassinado.

– Não podemos ajudá-lo – disse o guarda bruscamente. – Diga como ficou sabendo.

Langdon voltou a olhar para o guarda, cujo tom não deixava espaço para dúvidas. Era uma ordem.

Rapidamente ele contou o que Winston lhe dissera: o programa de guias notou que um dos fones tinha sido abandonado e, quando um guia humano encontrou o aparelho numa lata de lixo, eles foram verificar qual convidado recebera aquele fone e ficaram alarmados ao descobrir que tinha sido uma inclusão de última hora.

– Impossível. – Os olhos do guarda se estreitaram. – A lista de convidados foi fechada ontem. Verificamos os antecedentes de todo mundo.

– Não os desse homem – disse Winston no fone de Langdon. – Fiquei preocupado e investiguei o nome dele. Descobri que é um almirante reformado da Marinha espanhola, dispensado por alcoolismo e estresse pós-traumático devido a um ataque terrorista em Sevilha há cinco anos.

Langdon repassou a informação para o guarda.

– O atentado a bomba na catedral? – O sujeito pareceu incrédulo.

– Além disso – disse Winston a Langdon –, descobri que o oficial não tem qualquer ligação com o Sr. Kirsch, o que me preocupou, por isso contatei a segurança do museu para acionar os alarmes. Mas, sem ter mais informações conclusivas, eles concordaram que não deveríamos arruinar o evento de Edmond, especialmente enquanto estava sendo transmitido ao vivo para o mundo. Sabendo quanto Edmond trabalhou no programa desta noite, a lógica deles fez sentido para mim. Resolvi contatar você de imediato, Robert, esperando que conseguisse identificar o homem, de modo que eu pudesse mandar uma equipe de segurança até ele sem fazer alarde. Eu deveria ter tomado uma atitude mais firme. Fracassei com Edmond.

Langdon achou um tanto irritante que a máquina de Edmond parecesse sentir culpa. Olhou para o corpo coberto do amigo e viu Ambra Vidal se aproximando.

Fonseca a ignorou, ainda concentrado em Langdon.

– O computador lhe deu o nome do oficial em questão?

Langdon assentiu.

– É o almirante Luis Ávila.

Quando ele falou o nome, Ambra parou e encarou Langdon com uma expressão de horror absoluto.

Fonseca notou a reação e foi imediatamente na direção dela.

– Srta. Vidal? Já ouviu este nome?

Ambra pareceu incapaz de responder. Baixou o olhar para o chão, como se

tivesse acabado de ver um fantasma.

– Srta. Vidal – repetiu Fonseca –, já ouviu falar do almirante Luis Ávila?

A expressão chocada de Ambra deixou poucas dúvidas de que ela conhecia o assassino. Depois de um momento atônita, ela piscou duas vezes e seus olhos escuros começaram a ficar mais límpidos, como se estivesse emergindo de um transe.

– Não… nunca ouvi o nome – sussurrou, olhando para Langdon e depois para seu segurança. – Só fiquei… chocada ao saber que o assassino era um oficial da Marinha espanhola.

Ela está mentindo, sentiu Langdon, intrigado com o motivo para Ambra tentar disfarçar a reação. Eu vi. Ela reconheceu o nome do sujeito.

– Quem estava encarregado da lista de convidados?! – perguntou Fonseca, dando mais um passo na direção de Ambra. – Quem acrescentou o nome desse homem?

Agora os lábios de Ambra estavam tremendo.

– Eu… não faço ideia.

As perguntas do guarda foram interrompidas por uma súbita cacofonia de telefones tocando e emitindo bipes por toda a cúpula. Aparentemente Winston tinha arranjado um modo de restaurar o serviço de celulares, e um dos que tocavam estava no bolso do blazer de Fonseca.

O agente da Guardia pegou o aparelho e, vendo o identificador de chamadas, respirou fundo e atendeu.

– Ambra Vidal está a salvo – anunciou.

Langdon virou para a mulher perturbada. Ela estava olhando para ele. Quando os dois se encararam, continuaram assim por um longo momento.

Então Langdon escutou a voz de Winston se materializar em seu fone.

– Professor – sussurrou Winston –, Ambra Vidal sabe muito bem como Luis Ávila entrou na lista de convidados. Ela mesma colocou o nome dele.

Langdon precisou de um momento para assimilar a informação.

A própria Ambra Vidal colocou o assassino na lista de convidados?

E agora está mentindo sobre isso?

Antes que Langdon pudesse processar essa informação, Fonseca entregou seu celular a Ambra.

– Don Julián quiere hablar con usted – disse o agente.

Ambra pareceu se encolher para longe do telefone.

– Diga que estou bem – respondeu ela. – Ligo para ele daqui a pouco.

A expressão do guarda foi de incredulidade absoluta. Ele cobriu o telefone e sussurrou para Ambra.

– Su Alteza Don Julián, el príncipe, ha pedido…

– Não me importa se ele é o príncipe – disparou ela de volta. – Se ele vai ser meu marido, terá de aprender a me dar espaço quando eu preciso. Acabei de

testemunhar um assassinato e preciso de um minuto para pensar! Diga que ligo daqui a pouco.

Fonseca encarou-a, os olhos relampejando com uma emoção à beira do desprezo. Depois se virou e saiu para continuar a ligação em particular.