Origem

Dan Brown · Capítulo 4 de 107

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Origem

Capítulo 3

Enquanto se aproximava do edifício, viu dezenas de convidados se misturando, vestidos com seus melhores trajes a rigor.

As massas sem Deus se congregaram.

Mas esta noite não será como nenhum deles imagina.

Ajeitou o quepe de almirante e alisou o paletó, fortificando-se mentalmente para a tarefa. Aquela noite fazia parte de uma missão muito maior: uma cruzada pela honradez.

Enquanto atravessava o pátio em direção à entrada do museu, tocou gentilmente no rosário dentro do bolso.

C A P Í T U L O 3

O átrio do museu parecia uma catedral futurista.

Quando Langdon entrou, seu olhar se voltou imediatamente para cima, escalando por um conjunto de colunas brancas e colossais ao longo de uma altíssima cortina de vidro que subia por 60 metros até um teto em abóbada, onde refletores halógenos lançavam uma luz branca e pura. Suspensa no ar, uma teia de passarelas e sacadas atravessava os céus, salpicada com visitantes vestidos de preto e branco que entravam e saíam das galerias superiores e paravam junto às janelas altas, admirando o lago lá embaixo. Ali perto um elevador de vidro descia suavemente pela parede, voltando à terra para recolher mais visitantes.

Era diferente de todos os museus que Langdon tinha visto. Até a acústica parecia estranha. Em vez do tradicional silêncio reverente, criado pelos acabamentos que abafavam os sons, aquele lugar era vivo – com ecos murmurantes de vozes filtradas pela pedra e o vidro. Para Langdon, a única sensação familiar era o gosto estéril no fundo da língua. O ar dos museus era o mesmo em todo o mundo – filtrado meticulosamente para retirar todas as partículas e oxidantes, depois umidificado com água ionizada até 45 por cento.

Passou por uma série de pontos de segurança surpreendentemente rígidos, notando uma boa quantidade de guardas armados, e finalmente se viu diante de outra mesa de recepção. Uma jovem estava distribuindo fones de ouvido.

– ¿Audioguía?

Langdon sorriu.

– Não, obrigado.

Mas, enquanto ele se aproximava da mesa, a mulher o fez parar, passando a falar num inglês perfeito.

– Sinto muito, senhor, mas nosso anfitrião, o Sr. Edmond Kirsch, pediu que todos usassem fones. Faz parte da experiência da noite.

– Claro.

Langdon estendeu a mão para pegar um fone, mas ela fez que não. Depois de verificar seu crachá, procurou o nome dele na lista de convidados e entregou um fone cujo número estava indicado ao lado do seu nome.

– As visitas desta noite são preparadas uma a uma para cada convidado.

Verdade? Langdon olhou ao redor. Há centenas de convidados.

Olhou o fone, que não passava de uma fina alça de metal com almofadas

minúsculas nas extremidades. Talvez vendo sua expressão perplexa, a moça deu a volta na mesa para ajudar.

– Estes são bastante novos – disse ela, ajudando-o a colocar o aparelho. – Os transdutores não vão dentro dos ouvidos, e sim apoiam-se no rosto.

Ela pôs a alça por trás da cabeça dele e posicionou as almofadas de modo a apertarem gentilmente logo acima do malar e abaixo da têmpora.

– Mas como…

– Tecnologia de condutividade pelos ossos. Os transdutores mandam o som para os ossos do maxilar, permitindo que ele chegue diretamente à cóclea, a parte anterior do labirinto, no ouvido interno. Eu experimentei antes e achei incrível. É

como ter uma voz dentro da cabeça. E mais: deixa as orelhas livres para as conversas externas.

– Muito inteligente.

– A tecnologia foi inventada pelo Sr. Kirsch há mais de uma década. Agora muitas marcas de fones de ouvido comuns já a estão usando.

Espero que Ludwig van Beethoven ganhe a parte dele nos lucros, pensou Langdon, quase certo de que o inventor da tecnologia de condutividade sonora pelos ossos era o compositor do século XVIII que, ao ficar surdo, descobriu que podia fixar uma haste de metal ao piano e mordê-la enquanto tocava, o que lhe permitia ouvir perfeitamente através das vibrações no osso do maxilar.

– Esperamos que goste da experiência – disse a mulher. – O senhor tem cerca de uma hora para explorar o museu antes da apresentação. Seu guia de áudio vai alertá-lo quando for hora de subir para o auditório.

– Obrigado. Eu preciso apertar alguma coisa para…

– Não, o aparelho se ativa sozinho. Sua visita guiada vai começar assim que o senhor se mover.

– Ah, sim, claro – disse Langdon com um sorriso.

E foi andando pelo átrio em direção a vários outros convidados, todos esperando os elevadores e usando fones semelhantes.

Só estava na metade do átrio quando uma voz masculina soou em sua cabeça.

– Boa noite e bem-vindo ao Guggenheim de Bilbao.

Langdon sabia que eram os fones, mas ainda assim parou e olhou para trás. O

efeito era espantoso: exatamente como a moça havia descrito. Era como ter alguém dentro da cabeça.

– Sinceras boas-vindas, professor Langdon. – A voz era amigável e leve, com um animado sotaque britânico. – Meu nome é Winston, e é uma honra ser seu guia esta noite.

Quem foi que gravou isso? Hugh Grant?

– Esta noite – continuou a voz alegre – o senhor pode se sentir livre para andar como quiser, ir aonde quiser, e terei o prazer de dar os esclarecimentos quanto ao que estiver olhando.

Aparentemente, além de um narrador cheio de vida, gravações personalizadas e tecnologia de condutividade pelos ossos, cada fone era equipado com GPS para discernir exatamente onde o visitante se encontrava no museu e, portanto, que comentário gerar.

– Sei que – acrescentou a voz –, como professor de arte, o senhor é um dos nossos convidados mais bem informados, e talvez tenha pouca necessidade dos meus comentários. Pior ainda, é possível que discorde totalmente da minha análise de determinadas obras! – A voz deu um risinho sem graça.

Sério? Quem escreveu esse roteiro? O tom animadinho e o serviço personalizado eram de fato um toque charmoso, mas Langdon não conseguia imaginar a quantidade de esforço necessária para preparar centenas de fones.

Felizmente a voz ficou em silêncio, como se tivesse exaurido o diálogo de boas-vindas pré-programado.

Langdon olhou pelo átrio, vendo outro enorme estandarte vermelho suspenso acima das pessoas.

EDMOND KIRSCH

ESTA NOITE AVANÇAMOS

O que, afinal, Edmond vai anunciar?

Langdon voltou o olhar para os elevadores, onde um grupo de convidados conversava, dentre eles dois famosos fundadores de empresas globais de internet, um proeminente ator indiano e várias outras pessoas importantes e bem-vestidas, que Langdon sentia que provavelmente deveria conhecer, mas não conhecia. Sentindo-se pouco disposto e mal preparado para conversar amenidades sobre mídia social e Bollywood, foi na direção oposta, para uma grande obra de arte moderna encostada na parede mais distante.

A instalação era aninhada numa gruta escura e consistia em nove esteiras transportadoras que emergiam de fendas no chão e se moviam rapidamente para cima, desaparecendo em fendas no teto. A obra lembrava nove passarelas estreitas movendo-se em plano vertical. Cada esteira tinha uma mensagem iluminada, que corria na direção do céu.

Rezo em voz alta… Sinto seu cheiro na minha pele… Digo seu nome.

Mas, à medida que Langdon chegava mais perto, percebeu que as faixas em movimento estavam de fato imóveis; a ilusão de movimento era criada por uma “pele” de minúsculas luzes de LED posicionadas em cada trave vertical. As luzes se iluminavam em rápida sucessão para formar palavras que se materializavam no piso, corriam pela faixa e desapareciam no teto.

Estou chorando muito… Havia sangue… Ninguém me contou.

Langdon se moveu ao redor das faixas verticais, absorvendo tudo aquilo.

– Esta é uma obra desafiadora – declarou o guia sonoro, voltando de repente. –

Chama-se Instalação para Bilbao e foi criada pela artista conceitual Jenny Holzer.

Consiste em nove placas de LED, cada uma com 12 metros de altura, transmitindo citações em basco, espanhol e inglês, todas relacionadas aos horrores da aids e à dor suportada pelos que ficaram para trás.

Langdon teve que admitir que o efeito era hipnotizante e, de algum modo, doloroso.

– Talvez o senhor já tenha visto alguma obra de Jenny Holzer, não?

Langdon sentiu-se hipnotizado pelo texto correndo para o céu.

Enterro minha cabeça… Enterro sua cabeça… Enterro você.

– Sr. Langdon? – cantarolou a voz em sua cabeça. – Está ouvindo? Seu fone está funcionando?

Langdon foi arrancado dos pensamentos.

– Desculpe… o quê? Olá?

– Olá – respondeu a voz. – Acho que já nos cumprimentamos. Só estou verificando se o senhor consegue me ouvir.

– Eu… desculpe – gaguejou Langdon, dando as costas para a instalação e olhando pelo átrio. – Achei que você era uma gravação! Não percebi que tinha uma pessoa de verdade na linha.

Langdon imaginou um monte de cubículos ocupados por um exército de guias munidos de fones de ouvido e catálogos do museu.

– Sem problema. Serei seu guia pessoal esta noite. Seu fone tem um microfone também. O programa é criado como uma experiência interativa em que o senhor e eu podemos ter um diálogo sobre arte.

Agora Langdon podia ver que outros convidados também estavam falando em seus fones com microfones. Até os casais pareciam ter se separado um pouco, trocando olhares de curiosidade enquanto tinham conversas particulares com seus guias.

– Todo convidado tem um guia particular?

– Sim, senhor. Esta noite estamos acompanhando individualmente a visita de 318 convidados.

– Incrível.

– Bom, como o senhor sabe, Edmond Kirsch é um ávido fã de arte e tecnologia.

Ele projetou este sistema especificamente para museus, com a esperança de substituir as visitas em grupo, que ele abomina. Desse modo cada visitante pode ter uma visita particular, mover-se em seu próprio ritmo, fazer a pergunta que ele ficaria

 

sem graça de fazer diante de um grupo. É de fato muito mais íntimo e imersivo.

– Não quero parecer antiquado, mas por que simplesmente não acompanhar cada um de nós pessoalmente?

– Logística. Acrescentar guias pessoais a um evento de museu literalmente dobraria a quantidade de pessoas nos salões e necessariamente reduziria à metade o número de visitantes possíveis. Além disso, a cacofonia de todos os monitores dando informações ao mesmo tempo causaria distração. A ideia é fazer com que a discussão seja uma experiência fluida. Um dos objetivos da arte, como diz o Sr.

Kirsch, é promover o diálogo.

– Concordo plenamente. E é por isso que as pessoas costumam visitar os museus com um cônjuge ou amigo. Esses fones podem ser considerados um pouco antissociais.

– Bom – respondeu o inglês –, se o senhor vier com um cônjuge ou amigo, pode designar um guia único para todos os fones e desfrutar de uma discussão em grupo. O programa é muito avançado.

– Parece que você tem resposta para tudo.

– Na verdade, este é o meu trabalho. – O guia deu um riso sem graça e mudou de assunto abruptamente. – Agora, professor, se for pelo átrio na direção das janelas, verá a maior pintura do museu.

Enquanto andava pelo átrio, Langdon passou por um belo casal de 30 e poucos anos, usando bonés iguais. Na frente dos bonés, em vez de um logotipo de empresa, havia um símbolo surpreendente.

Era um ícone que Langdon conhecia bem, mas nunca tinha visto em um boné.

Nos últimos anos, a letra A ligeiramente estilizada havia se tornado o símbolo universal de um dos grupos demográficos que mais cresciam e mais se manifestavam no planeta – os ateus. A cada dia eles vinham falando com mais veemência sobre o que consideravam os perigos da crença religiosa.