Origem
Capítulo 41
Os bares de ruínas estavam apinhados, com a clientela barulhenta se esparramando pelas ruas. Ao redor de Köves, o som de música eletrônica latejava e o cheiro de cerveja permeava o ar, misturado com a fumaça adocicada dos cigarros Sopianae e dos bolinhos Kürtőskalács, em forma de chaminé.
Enquanto se aproximava da esquina, Köves continuou com a sensação estranha de estar sendo vigiado. Diminuiu o passo e olhou de novo para trás. Felizmente o homem de jeans e boné não estava à vista.
Na penumbra, junto a uma porta, a silhueta agachada permaneceu imóvel por dez longos segundos antes de espiar cuidadosamente em direção à esquina.
Bela tentativa, velho, pensou ele, sabendo que tinha se escondido bem a tempo.
O homem verificou a seringa dentro do bolso. Depois saiu das sombras, ajeitou o boné e acelerou o passo para alcançar seu alvo.
C A P Í T U L O 4 1
Diego Garza, o comandante da Guardia, subiu correndo para os aposentos residenciais, ainda segurando o tablet de Mónica Martín.
O tablet continha uma gravação telefônica – uma conversa entre um rabino húngaro chamado Yehuda Köves e algum tipo de informante da internet – e o conteúdo chocante da gravação tinha deixado pouquíssimas opções para o comandante Garza.
Quer Valdespino estivesse ou não por trás da conspiração assassina alegada pela informante, Garza sabia que, quando o áudio se tornasse público, a reputação de Valdespino estaria destruída para sempre.
Devo alertar o príncipe e isolá-lo das consequências.
Valdespino deve ser retirado do palácio antes que a história vaze.
Na política, percepção é tudo – e os vendedores de informações, justa ou injustamente, estavam para jogar Valdespino aos lobos. Sem dúvida, o príncipe herdeiro não poderia ser visto perto do bispo esta noite.
Mónica Martín, a coordenadora de RP, tinha aconselhado Garza a convencer o príncipe a fazer uma declaração imediatamente, para não correr o risco de parecer cúmplice.
Ela está certa, Garza sabia. Precisamos colocar Julián na televisão. Agora.
Garza chegou ao topo da escada e foi andando sem fôlego pelo corredor, na direção do apartamento de Julián, olhando o tablet.
Além da foto da tatuagem franquista e da gravação do telefonema do rabino, a iminente divulgação de dados por parte do ConspiracyNet incluiria uma terceira e última revelação – algo que, Mónica alertou, colocaria ainda mais lenha na fogueira.
Uma constelação de dados, era como ela havia chamado aquilo – descrevendo uma coleção de informações ou factoides aparentemente aleatórios e disparatados que os teóricos da conspiração seriam encorajados a analisar e conectar para criar possíveis “constelações”.
Eles não são melhores do que fanáticos pelo zodíaco! , pensou Garza, furioso, criando formas de animais a partir do arranjo aleatório das estrelas!
Infelizmente, os dados do ConspiracyNet que estavam no tablet pareciam formulados para se juntar numa única constelação. E, segundo o ponto de vista do palácio, não era uma constelação bonita.
ConspiracyNet.com
O ASSASSINATO DE KIRSCH
O QUE SABEMOS ATÉ AGORA
Edmond Kirsch compartilhou sua descoberta científica com três líderes religiosos: o bispo Antonio Valdespino, o allamah Syed al-Fadl e o rabino Yehuda Köves.
Kirsch e al-Fadl estão mortos e o rabino Yehuda não atende mais ao telefone de sua casa e parece ter sumido.
O bispo Valdespino está vivo e bem, e foi visto pela última vez atravessando a praça em direção ao Palácio Real.
O assassino de Kirsch – identificado como o almirante Luis Ávila – tem uma tatuagem que o liga a uma facção franquista ultraconservadora. (Será que o bispo Valdespino, um conhecido conservador, também é franquista?) E, finalmente, segundo fontes internas do Guggenheim, a lista de convidados do evento estava fechada, no entanto o nome do assassino Luis Ávila foi acrescentado no último minuto a pedido de alguém de dentro do Palácio Real.
(A pessoa no museu que cedeu a esse pedido foi a futura rainha consorte Ambra Vidal.)
O ConspiracyNet gostaria de agradecer ao informante monte@iglesia.org pela substancial colaboração para esta matéria.
monte@iglesia.org?
Garza já havia concluído que o endereço de e-mail devia ser falso.
Iglesia.org era um importante site católico na Espanha, uma comunidade virtual de padres, leigos e estudantes dedicados aos ensinamentos de Jesus. O informante parecia ter falsificado de alguma forma o domínio de modo que todas as alegações parecessem ter vindo do iglesia.org.
Esperto, pensou Garza, sabendo que o bispo Valdespino era profundamente admirado pelos católicos devotos que administravam o site. O comandante se perguntou se esse “colaborador” virtual seria a mesma pessoa que ligara para o rabino.
Quando chegou à porta do apartamento, pensou em como daria a notícia ao príncipe. O dia tinha começado de modo bastante normal e, de repente, parecia que o palácio estava travando uma guerra contra fantasmas. Um informante sem rosto
chamado Monte? Uma constelação de dados? Para piorar ainda mais, Garza continuava sem notícias de Ambra Vidal e Robert Langdon.
Deus nos ajude se a mídia souber das atitudes desafiadoras de Ambra esta noite.
O comandante entrou sem bater.
– Príncipe Julián? – gritou, indo rapidamente para a sala. – Preciso falar com o senhor a sós por um momento.
Chegou à sala e parou bruscamente.
Vazia.
– Don Julián? – gritou, andando de volta até a cozinha. – Bispo Valdespino?
Examinou todo o apartamento, mas o príncipe e Valdespino não estavam ali.
Ligou imediatamente para o celular do príncipe e ficou espantado ao ouvir um telefone tocando. O som era fraco, mas audível, e vinha de algum lugar dentro do aposento. Tentou de novo e, desta vez, acompanhou o toque abafado até um pequeno quadro na parede que, ele sabia, ocultava o cofre do apartamento.
Julián trancou o telefone no cofre?