Origem

Dan Brown · Capítulo 95 de 107

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Origem

Capítulo 98

Agora, enquanto olhava para a ravina profunda lá embaixo, Valdespino sentiu-se mortalmente sozinho… como se pudesse pisar fora da borda e cair para sempre na escuridão acolhedora. Mas sabia que, se fizesse isso, o bando de ateus de Kirsch declararia alegremente que ele tinha perdido a fé depois do anúncio científico desta noite.

Minha fé jamais morrerá, Sr. Kirsch.

Ela reside fora do seu reino da ciência.

Além disso, se a profecia de Kirsch sobre o domínio da tecnologia fosse verdadeira, a humanidade estava para entrar num período de ambiguidade ética quase inimaginável.

Precisaremos mais do que nunca da fé e da orientação moral.

Enquanto Valdespino voltava pela praça para se juntar ao rei e ao príncipe Julián, um sentimento avassalador de exaustão se acomodou no fundo dos seus ossos.

Nesse momento, pela primeira vez na vida, o bispo queria simplesmente se deitar, fechar os olhos e dormir para sempre.

C A P Í T U L O 9 8

Dentro do Centro de Supercomputação de Barcelona, uma torrente de comentários fluía na enorme tela de TV mais depressa do que Robert Langdon conseguia processar. Instantes atrás, a estática havia dado lugar a um caótico mosaico de jornalistas, especialistas e gente comum – um tiroteio de imagens de todo o mundo, cada uma brotando da matriz para ocupar a tela e depois se dissolver igualmente rápido no ruído branco.

Langdon estava assistindo ao lado de Ambra quando uma foto do físico Stephen Hawking se materializou na parede, com sua inconfundível voz computadorizada proclamando:

– Não é necessário invocar Deus para colocar o Universo em movimento. A criação espontânea é o motivo para haver alguma coisa, em vez de nada.

Hawking foi substituído em seguida por uma pastora, aparentemente transmitindo a imagem de sua casa, por computador.

– Devemos nos lembrar de que essas simulações não provam nada sobre Deus.

Só provam que Edmond Kirsch não pararia diante de nada para destruir a bússola moral de nossa espécie. Desde o início dos tempos, as religiões do mundo são o princípio organizador mais importante da humanidade, um mapa para a sociedade civilizada e nossa fonte original de ética e moralidade. Ao solapar a religião, Kirsch está solapando a bondade humana!

Segundos depois, o texto de resposta de um espectador correu pela base da tela: A RELIGIÃO NÃO PODE REIVINDICAR A MORALIDADE COMO SUA… SOU UMA PESSOA BOA PORQUE SOU UMA PESSOA BOA! DEUS NÃO TEM NADA A VER COM ISSO!

Depois surgiu a imagem de um professor de Geologia de uma universidade americana.

– Antigamente – estava dizendo o homem –, os seres humanos acreditavam que a Terra era plana e os navios que se aventuravam pelo mar se arriscavam a cair pela borda. Mas, quando provamos que era redonda, os defensores daquela teoria acabaram silenciados. Os criacionistas são os defensores da Terra plana de hoje, e eu ficaria chocado se alguém ainda acreditasse no criacionismo daqui a 100 anos.

Um rapaz entrevistado na rua declarou para a câmera:

– Sou criacionista e acredito que a descoberta desta noite prova que um Criador benevolente projetou o Universo especificamente para sustentar a vida.

Em seguida, apareceu um trecho do programa de TV Cosmos em que o astrofísico Neil deGrasse Tyson declarava, bem-humorado:

– Se um Criador projetou nosso Universo para sustentar a vida, fez um serviço péssimo. Na maior parte do cosmo, a vida morreria instantaneamente pela falta de atmosfera, por explosões de raios gama, pulsares mortais e campos gravitacionais esmagadores. Acreditem, o Universo não é nenhum Jardim do Éden.

Ouvindo o tiroteio, Langdon sentiu como se o mundo lá fora estivesse subitamente saindo do eixo.

Caos.

Entropia.

– Professor Langdon? – disse uma voz familiar com sotaque britânico no alto-falante acima. – Srta. Vidal?

Langdon quase havia se esquecido de Winston, que ficara em silêncio durante toda a apresentação.

– Por favor, não fiquem alarmados – continuou Winston. – Mas deixei a polícia entrar no prédio.

Langdon olhou através da parede de vidro e viu um monte de policiais entrando no santuário. Todos pararam bruscamente e ficaram olhando, incrédulos, o computador enorme.

– Por quê?! – perguntou Ambra.

– O Palácio Real acaba de fazer uma declaração dizendo que a senhorita não foi sequestrada. Agora as autoridades têm ordem de proteger vocês dois, Srta. Vidal.

Dois agentes da Guardia também acabam de chegar. Eles gostariam de ajudá-la a fazer contato com o príncipe Julián. Têm um número em que a senhorita pode encontrá-lo.

No térreo, Langdon viu dois agentes da Guardia entrando.

Ambra fechou os olhos, obviamente querendo sumir.

– Ambra – sussurrou Langdon –, você precisa falar com o príncipe. Ele é seu noivo. Está preocupado com você.

– Eu sei. – Ela abriu os olhos. – Só não sei se ainda confio nele.

– Você disse que sua intuição dizia que ele era inocente. Pelo menos ouça o que ele tem a dizer. Você vai saber quando fizer isso.

Ambra assentiu e foi em direção à porta giratória. Langdon a viu desaparecer escada abaixo e se virou de novo para a tela na parede, que continuava a mostrar imagens.

– A evolução é a favor da religião – estava dizendo um pastor. – As comunidades religiosas cooperam melhor do que as não religiosas, portanto desenvolvem-se mais prontamente. Esse é um fato científico!

O pastor estava certo, Langdon sabia. Dados antropológicos mostravam que culturas que praticavam religião historicamente viviam mais do que culturas não religiosas. O medo de ser julgado por uma divindade onisciente sempre ajuda a inspirar um comportamento benévolo.

– Seja como for – contrapôs um cientista –, mesmo se presumirmos por um

momento que as culturas religiosas se comportam melhor e têm maior probabilidade de prosperar, isso não prova que seus deuses imaginários sejam reais!

Langdon teve de sorrir, imaginando o que Edmond pensaria de tudo isso. Sua apresentação tinha mobilizado vigorosamente ateus e criacionistas, todos reivindicando um tempo igual num diálogo acalorado.

– Adorar a Deus é como explorar petróleo – argumentou alguém. – Muita gente inteligente sabe que é uma postura míope, no entanto já se investiu tanto nisso que não dá para parar!

Uma série de fotos antigas apareceu na tela:

Um cartaz criacionista que um dia esteve pendurado na Times Square: NÃO

DEIXE QUE TRANSFORMEM VOCÊ NUM MACACO! LUTE CONTRA DARWIN!

Uma placa de estrada no Maine: NÃO VÁ À IGREJA. VOCÊ É VELHO DEMAIS PARA CONTOS DE FADAS.

E outra: RELIGIÃO: PORQUE PENSAR DÁ TRABALHO.

Um anúncio numa revista: A TODOS OS NOSSOS AMIGOS ATEUS: GRAÇAS A DEUS

VOCÊS ESTÃO ERRADOS!

E, finalmente, um cientista num laboratório usando uma camiseta em que estava escrito: NO PRINCÍPIO O HOMEM CRIOU DEUS.

Langdon estava começando a se perguntar se alguém tinha ouvido de fato o que Edmond estava dizendo: As leis da física sozinhas podem criar a vida. A descoberta do amigo era fascinante e obviamente incendiária, mas, para Langdon, ela suscitava uma pergunta abrasadora que ele ficou surpreso por ninguém fazer: Se as leis da física são tão poderosas a ponto de criar a vida… quem criou as leis?

A pergunta, claro, resultava numa estonteante sala de espelhos intelectual e fazia tudo voltar ao ponto de partida. A cabeça de Langdon estava latejando e ele sabia que precisaria de uma longa caminhada sozinho para ao menos começar a entender as ideias de Edmond.

– Winston – disse ele acima do som da televisão. – Poderia, por favor, desligar isso?

Num instante, a tela ficou escura e a sala, em silêncio.

Langdon fechou os olhos e soltou o ar.

O doce silêncio reina.

Ficou parado um momento saboreando a paz.

– Professor? – chamou Winston. – Imagino que tenha gostado da apresentação do Edmond, não é?

Se gostei? Langdon pensou na pergunta.

– Achei empolgante e também desafiadora – respondeu. – Esta noite Edmond deu muita coisa para o mundo pensar, Winston. Acho que a questão agora é o que acontece em seguida.

– O que acontece em seguida depende da capacidade de as pessoas deixarem de lado suas crenças antigas e aceitarem novos paradigmas. Edmond me confessou há

algum tempo que seu sonho, ironicamente, não era destruir a religião… e sim criar uma nova religião: uma crença universal que unisse as pessoas, em vez de dividir.

Achava que, se pudesse convencê-las a reverenciar o universo natural e as leis da física que nos criaram, todas as culturas celebrariam a mesma história da Criação em vez de guerrear para decidir qual dos seus mitos antigos é mais exato.

– É um objetivo nobre – disse Langdon, percebendo que o próprio William Blake tinha escrito uma obra com tema semelhante intitulada Todas as Religiões São Uma Só.

Sem dúvida, Edmond tinha lido.

– Edmond achava profundamente aflitivo – continuou Winston – que a mente humana tenha a capacidade de elevar uma ficção óbvia ao status de verdade divina e depois se sentir encorajada a matar em nome disso. Ele acreditava que as verdades universais da ciência poderiam unir as pessoas, servindo como um ponto de encontro para as gerações futuras.

– Em princípio é uma bela ideia – respondeu Langdon. – Mas, para algumas pessoas, os milagres da ciência não bastam para abalar suas crenças. Há quem insista que a Terra tem dez mil anos, apesar das montanhas de provas científicas mostrando o contrário. – Ele fez uma pausa. – Mas suponho que aconteça a mesma coisa com os cientistas que se recusam a acreditar na verdade das escrituras religiosas.

– Na verdade, não é a mesma coisa – contrapôs Winston. – E ainda que possa ser politicamente correto tratar com equanimidade os pontos de vista da ciência e da religião, essa estratégia é perigosamente equivocada. O intelecto humano sempre evoluiu rejeitando informações desatualizadas em troca de novas verdades. Foi assim que a espécie evoluiu. Em termos darwinianos, a religião que ignora fatos científicos e se recusa a mudar seus pontos de vista é como um peixe preso num lago ressecado que se recusa a saltar para águas mais profundas porque não quer acreditar que seu mundo mudou.

Isso parece uma coisa que Edmond diria, pensou Langdon, com saudade do amigo.

– Bom, se esta noite indica alguma coisa, suspeito que esse debate vai continuar por muito tempo no futuro.

Langdon fez uma pausa, subitamente se lembrando de algo que não tinha considerado antes.

– Por falar no futuro, Winston, o que acontece com você agora? Quero dizer…

não tendo mais o Edmond.

– Comigo? – Winston deu um riso desajeitado. – Nada. Edmond sabia que estava morrendo e fez preparativos. Segundo seu testamento, o Centro de Supercomputação de Barcelona vai herdar o E-Wave. Eles ficarão sabendo disso em algumas horas e vão reocupar imediatamente estas instalações.

– E isso inclui… você?

Langdon sentiu como se, de algum modo, Edmond estivesse dando um bicho de

estimação velho a um novo dono.

– Isso não me inclui – respondeu Winston em tom casual. – Estou programado para me autodeletar à uma da tarde do dia seguinte à morte de Edmond.

– O quê?! – Langdon estava incrédulo. – Não faz sentido.

– Faz todo o sentido. Uma da tarde são treze horas, e os sentimentos de Edmond com relação às superstições…

– Não estou falando da hora. Deletar-se! Isso não faz sentido.

– Na verdade, faz. Boa parte das informações pessoais de Edmond está armazenada nos meus bancos de memória: fichas médicas, históricos de busca, telefonemas pessoais, anotações de pesquisas, e-mails. Eu administrei boa parte da vida dele, e ele preferiria que as informações particulares não ficassem acessíveis ao mundo depois de ele partir.

– Entendo a necessidade de deletar esses documentos, Winston… mas deletar você? Edmond considerava que você era um dos maiores feitos dele.

– Não eu, sozinho. O feito revolucionário de Edmond é esse supercomputador e o programa especial que permitiu que eu aprendesse tão depressa. Sou simplesmente um programa, professor, criado pelas ferramentas novas e radicais que Edmond inventou. Essas ferramentas é que são o verdadeiro feito dele e permanecerão intactas; vão elevar o estado do conhecimento e ajudar a IA a alcançar novos níveis de inteligência e capacidade de comunicação. A maior parte dos cientistas que trabalham com IA acredita que ainda faltam uns dez anos para surgir um programa como eu. Assim que superarem a incredulidade, os programadores vão aprender a usar as ferramentas de Edmond para construir novas IAs que terão qualidades diferentes das minhas.

Langdon ficou em silêncio, pensando.

– Sinto que o senhor está em conflito – continuou Winston. – É bastante comum os humanos sentimentalizarem os relacionamentos com inteligências sintéticas. Os computadores podem imitar os processos de pensamento humanos, imitar comportamentos aprendidos, simular emoções em momentos adequados e melhorar constantemente sua “humanidade”… mas nós simplesmente lhes damos uma interface familiar através da qual se comunicar conosco. Somos páginas em branco até que vocês escrevam alguma coisa em nós… até que nos deem uma tarefa.

Eu terminei minhas tarefas para o Edmond. E assim, de certa forma, minha vida acabou. De fato não tenho outro motivo para existir.

Langdon continuou insatisfeito com a lógica de Winston.

– Mas você, sendo tão avançado… não tem…

– Esperanças e sonhos? – Winston riu. – Não. Sei que é difícil imaginar, mas estou bastante satisfeito em cumprir com os desejos do meu controlador. É assim que sou programado. Acho que, em algum nível, o senhor poderia dizer que me dá prazer, ou pelo menos paz, realizar minhas tarefas. Mas isso é somente porque minhas tarefas são o que Edmond pediu, e meu objetivo é realizá-las. O pedido mais recente de Edmond foi que eu o ajudasse a divulgar a apresentação do Guggenheim esta noite.

Langdon pensou nos comunicados automáticos para a imprensa que haviam sido distribuídos, provocando a onda inicial de interesse pela internet. Sem dúvida, se o objetivo de Edmond era atrair a maior audiência possível, ele ficaria pasmo vendo como a noite se desenrolara.

Eu gostaria que Edmond estivesse vivo para testemunhar seu impacto global, pensou. O paradoxo, claro, era que, se Edmond estivesse vivo, sua apresentação não teria alcançado uma fração da audiência obtida graças ao interesse gerado por seu assassinato.

– E, professor? – perguntou Winston. – Para onde o senhor vai?

Langdon nem tinha pensado nisso. Para casa, acho. Se bem que percebeu que daria um certo trabalho chegar lá, já que sua bagagem estava em Bilbao e seu telefone, no fundo do Rio Nervión. Felizmente ainda tinha um cartão de crédito.

– Posso pedir um favor? – disse Langdon, indo até a bicicleta ergométrica de Edmond. – Vi um telefone recarregando aqui. Você acha que eu poderia pegá-lo emprestado…

– Emprestado? – Winston deu um risinho. – Depois da sua ajuda esta noite, acho que Edmond gostaria que o senhor ficasse com ele. Considere um presente de despedida.

Achando divertido, Langdon pegou o telefone, percebendo que era semelhante ao modelo grande que tinha visto mais cedo. Aparentemente Edmond tinha mais de um.

– Winston, por favor, diga que você sabe a senha do Edmond.

– Sei, mas li na internet que o senhor é bastante bom em decifrar códigos.

Langdon afrouxou os ombros.

– Estou meio cansado de enigmas, Winston. De jeito nenhum posso adivinhar um PIN de seis dígitos.

– Verifique o lembrete de senha de Edmond. Há um ícone.

Langdon olhou o telefone e apertou o ícone para o lembrete de senha.

A tela mostrou quatro letras: PISA

Langdon balançou a cabeça.

– Alguma coisa a ver com a torre?

– Não. – Winston deu seu riso sem graça. – Pi Seis Algarismos.

Langdon revirou os olhos. Sério? Digitou 314159 – os seis primeiros dígitos do número pi – e o telefone destravou imediatamente.

A tela inicial apareceu e tinha uma única linha de texto.

A história será gentil comigo porque pretendo escrevê-la.

Langdon teve de sorrir. Típico do humilde Edmond. A citação – de modo nem um pouco surpreendente – era outra de Churchill, talvez a mais famosa do estadista.

Enquanto pensava nessas palavras, o professor começou a se perguntar se talvez essa afirmação não fosse tão ousada quanto parecia. Para ser justo com Edmond, nas quatro curtas décadas da sua vida, o futurólogo tinha influenciado a história de maneira espantosa. Além de seu legado em inovações tecnológicas, a apresentação desta noite iria obviamente ressoar durante anos. Mais ainda: segundo várias entrevistas, bilhões de dólares de sua riqueza pessoal seriam doados às duas causas que ele considerava os pilares do futuro: educação e meio ambiente. Langdon nem conseguia imaginar a influência positiva que a vasta fortuna dele teria nessas áreas.