Origem

Dan Brown · Capítulo 17 de 107

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Origem

Capítulo 17

– Mesmo quando isso for a público – disse Valdespino –, não estaremos em segurança. Suspeito que Kirsch terá um enorme prazer em dizer ao mundo que consultou líderes religiosos há três dias. Agora estou imaginando se a transparência ética teria sido seu verdadeiro motivo para pedir o encontro. E se ele mencionar nosso nome, bom, você e eu iremos nos tornar foco de um escrutínio intenso e talvez até de críticas por parte dos nossos rebanhos, que podem acreditar que deveríamos ter tomado alguma atitude. Desculpe, eu só…

O bispo hesitou como se quisesse dizer mais alguma coisa.

– O que é? – pressionou Köves.

– Podemos discutir isso mais tarde. Telefono de novo para você depois de assistirmos a como Kirsch aborda a apresentação. Até lá, por favor, fique dentro de

casa. Tranque as portas. Não fale com ninguém. E permaneça em segurança.

– Você está me deixando preocupado, Antonio.

– Não é minha intenção. Tudo o que podemos fazer é esperar para ver como o mundo reage. Agora isso está nas mãos de Deus.

C A P Í T U L O 1 7

A campina dentro do Museu Guggenheim tinha ficado silenciosa assim que a voz de Edmond Kirsch trovejou vinda do céu. Centenas de convidados estavam reclinados em cobertores, olhando um céu ofuscante de estrelas. Robert Langdon estava perto do centro do campo, tomado pela expectativa crescente.

– Esta noite sejamos crianças de novo – continuou a voz de Kirsch. – Vamos nos deitar sob as estrelas com a mente aberta para todas as possibilidades.

Langdon podia sentir uma onda de empolgação se espalhando pela plateia.

– Esta noite sejamos como os primeiros exploradores – declarou Kirsch –, os que deixaram tudo para trás e partiram por vastos oceanos… os que vislumbraram pela primeira vez uma terra que jamais tinha sido vista… os que caíram de joelhos ao perceber, admirados, que o mundo era muito maior do que suas filosofias tinham ousado imaginar. Suas antigas crenças sobre o mundo se desintegraram diante das novas descobertas. Este será nosso estado de espírito nesta noite.

Impressionante, pensou Langdon, curioso para saber se a narração de Edmond era pré-gravada ou se o próprio Kirsch estava em algum lugar nos bastidores lendo um roteiro.

– Amigos – a voz de Kirsch ressoou acima deles –, nós nos reunimos aqui para ouvir a notícia de uma descoberta importante. Peço sua indulgência em permitir que eu prepare o cenário. Como acontece com todas as mudanças na filosofia humana, é fundamental compreendermos o contexto histórico em que nasce um momento como este.

Um trovão soou a distância, na hora exata. Langdon sentiu o grave profundo das caixas de som ribombando na barriga.

– Para ajudar a nos aclimatarmos – continuou Edmond –, é uma grande sorte termos entre nós um célebre erudito, uma lenda no mundo dos símbolos, dos códigos, da história, da religião e da arte, que, além disso, é um amigo querido.

Senhoras e senhores, por favor, recebam o professor Robert Langdon, da Universidade de Harvard.

Langdon se apoiou bruscamente nos cotovelos enquanto a multidão aplaudia, entusiasmada, e as estrelas no alto se dissolviam numa imagem em grande angular de um auditório apinhado de pessoas.

No palco, ele andava de um lado para outro vestido com seu paletó Harris Tweed em frente a uma plateia fascinada.

Então esse é o papel que Edmond mencionou, pensou ele, deitando-se de volta

na grama, inquieto.

– Os primeiros seres humanos – dizia Langdon na tela – se sentiam assombrados com seu universo, especialmente com relação aos fenômenos que não conseguiam entender racionalmente. Para resolver esses mistérios, eles criaram um vasto panteão de deuses e deusas com o objetivo de explicar qualquer coisa que estivesse além de sua capacidade de compreensão: o trovão, as marés, os terremotos, os vulcões, a infertilidade, as doenças e até o amor.

Isso é surreal, pensou Langdon, deitado de costas e olhando para si mesmo.

– Para os gregos antigos, o fluxo e o refluxo do oceano eram atribuídos aos humores mutáveis de Poseidon.

No teto a figura de Langdon se dissolveu, mas sua voz continuou a narrar.

Imagens de ondas do mar batendo se materializaram, sacudindo todo o salão.

Langdon ficou observando maravilhado as ondas violentas se transformarem numa desolada tundra castigada pelo vento e por rajadas de neve. Vinda de algum lugar, uma brisa fria soprou na campina.

– A mudança sazonal para o inverno – continuou a narração em off de Langdon

– era causada pela tristeza do planeta pelo sequestro anual de Perséfone para o mundo subterrâneo.

O ar voltou a ficar quente e, na paisagem gelada, se ergueu uma montanha, cada vez mais alta, com o pico explodindo em fagulhas, fumaça e lava.

– Para os romanos – narrou Langdon –, os vulcões eram o lar de Vulcano, o ferreiro dos deuses, que trabalhava numa forja gigantesca embaixo da montanha, fazendo com que as chamas brotassem pela chaminé.

Langdon sentiu um cheiro fraco de enxofre e ficou admirado com a engenhosidade com que Edmond havia transformado sua palestra numa experiência multissensorial.

O trovejar do vulcão parou abruptamente. No silêncio, grilos começaram a cantar de novo e uma brisa quente e com cheiro de grama soprou na campina.

– Os antigos inventaram deuses incontáveis – prosseguiu Langdon – para explicar não somente os mistérios de seu planeta, mas também os de seus corpos.

No alto, as constelações piscando retornaram, agora superpostas aos desenhos dos vários deuses que elas representavam.

– A infertilidade era causada pela perda de favores da deusa Juno. O amor era resultado de uma flechada de Eros. As epidemias eram explicadas como castigos mandados por Apolo.

Agora novas constelações se iluminavam junto com imagens de novos deuses.

– Se vocês leram meus livros – continuou a voz de Langdon –, devem ter visto a expressão “Deus das Lacunas”. Isto é: quando os antigos experimentavam lacunas em sua compreensão do mundo, preenchiam-nas com Deus.

Agora o céu se encheu com uma enorme colagem de pinturas e estátuas representando dezenas de divindades antigas.

– Deuses incontáveis preencheram lacunas incontáveis – disse Langdon. – No entanto, no decorrer dos séculos, o conhecimento científico aumentou. – Uma colagem de símbolos matemáticos e técnicos inundou o céu. – À medida que as lacunas na nossa compreensão do mundo natural foram desaparecendo, nosso panteão de deuses começou a encolher.

No teto, a imagem de Poseidon veio para a frente.

– Por exemplo, quando aprendemos que as marés eram causadas pelos ciclos lunares, Poseidon deixou de ser necessário e nós o banimos como um mito bobo de um tempo sem esclarecimentos.

A imagem de Poseidon se evaporou num sopro de fumaça.

– Como vocês sabem, todos os deuses sofreram o mesmo destino, morrendo um por um enquanto perdiam a relevância para nossos intelectos em evolução.

No alto, as imagens dos deuses começaram a se apagar uma a uma – deus do trovão, dos terremotos, das doenças e assim por diante.

Enquanto o número de imagens diminuía, Langdon disse:

– Mas não se enganem. Esses deuses não “vão tão gentilmente para aquela boa noite”. Em qualquer cultura, abandonar divindades é um processo complicado. As crenças espirituais são gravadas profundamente na nossa psique durante a infância por aqueles que amamos e em quem mais confiamos: nossos pais, professores e líderes religiosos. Portanto qualquer mudança religiosa acontece no decorrer de gerações, não sem grande angústia e frequentemente com derramamento de sangue.

O som de espadas se chocando e de gritos acompanhou o desaparecimento gradual dos deuses. Por fim, permaneceu a imagem de um único deus: um icônico rosto idoso com barba branca e farta.

– Zeus… – declarou Langdon com voz poderosa. – O deus de todos os deuses.

A mais temida e reverenciada de todas as divindades pagãs. Zeus, mais do que qualquer outro deus, resistiu à própria extinção, travando uma batalha violenta contra a morte de sua própria luz, exatamente como tinham feito os deuses anteriores que ele havia substituído.

No teto relampejaram imagens de Stonehenge, de tabuletas cuneiformes sumérias e das grandes pirâmides do Egito. Então o busto de Zeus retornou.

– Os seguidores de Zeus resistiram tanto a abrir mão de seu deus que a fé conquistadora do cristianismo não teve escolha a não ser adotar a face dele como a de seu novo Deus.

O busto barbudo de Zeus transformou-se no afresco de um rosto igualmente barbudo: o do Deus cristão representado na Criação de Adão, de Michelangelo, no teto da Capela Sistina.

– Hoje não acreditamos mais em histórias como as que se referem a Zeus, um garoto criado por uma cabra e que recebeu o poder de criaturas de um olho só chamadas de Ciclopes. Para nós, com o advento do pensamento moderno, todas essas histórias foram classificadas como mitologia: narrativas ficcionais antiquadas

que nos dão um vislumbre divertido do nosso passado supersticioso.

O teto mostrava a foto de uma empoeirada prateleira de biblioteca onde volumes sobre mitologias antigas, encadernados em couro, emboloravam no escuro ao lado de livros sobre culto à natureza, Baal, Inana, Osíris e incontáveis teologias antigas.

– Agora as coisas são diferentes! – declarou a voz profunda de Langdon. – Nós somos os Modernos.

No céu surgiram novas imagens: fotos nítidas e brilhantes mostrando a exploração espacial… chips de computador… um laboratório médico… um acelerador de partículas… jatos voando.

– Somos um povo evoluído intelectualmente e tecnologicamente hábil. Não acreditamos em ferreiros gigantes trabalhando embaixo de vulcões nem em deuses que controlam as marés ou as estações. Não somos nem um pouco parecidos com nossos ancestrais antigos.

Será mesmo? , sussurrou Langdon para si próprio, acompanhando com os lábios a gravação.

– Será mesmo? – entoou Langdon lá em cima. – Nós nos consideramos indivíduos racionais e modernos, no entanto a religião mais disseminada de nossa espécie inclui toda uma quantidade de afirmações mágicas, seres humanos ressuscitando inexplicavelmente, virgens dando à luz por milagre, deuses vingativos que mandam pestes e inundações, promessas místicas de uma outra vida num céu sobre as nuvens ou de infernos em chamas.

Enquanto Langdon falava, surgiram no teto conhecidas imagens cristãs da Ressurreição, da Virgem Maria, da Arca de Noé, da abertura do Mar Vermelho, do céu e do inferno.

– Então, somente por um momento – disse Langdon –, imaginemos a reação dos futuros historiadores e antropólogos. Com o benefício da perspectiva, será que eles olharão nossas crenças religiosas e irão categorizá-las como as mitologias de uma época pouco esclarecida? Será que vão enxergar nossos deuses como vemos Zeus? Será que vão recolher nossas Escrituras Sagradas e bani-las para aquela prateleira empoeirada da história?

A pergunta pairou no escuro por um longo instante.

E então, abruptamente, a voz de Edmond Kirsch rompeu o silêncio.

– SIM, professor – trovejou o futurólogo lá de cima. – Acredito que tudo isso vai acontecer. Acredito que as gerações futuras irão se perguntar como uma espécie tecnologicamente avançada como a nossa podia acreditar na maior parte do que nossas religiões modernas ensinam.

A voz de Kirsch ficou mais forte à medida que uma nova série de imagens foi projetada: Adão e Eva, uma mulher coberta por uma burca, um hindu caminhando sobre brasas.

– Acredito que, ao se debruçar sobre nossas tradições atuais, as gerações futuras

concluirão que vivemos num período pouco esclarecido. Como prova, apontarão para as crenças de que fomos criados divinamente num jardim mágico, ou que nosso criador onipotente exige que as mulheres cubram a cabeça, ou que nos arriscamos a queimar o próprio corpo para homenagear os deuses.

Mais imagens apareceram, uma montagem rápida de fotos mostrando cerimônias religiosas em todo o mundo: desde exorcismos e batismos até perfurações no corpo e sacrifícios de animais. Para fechar a sequência, um vídeo profundamente inquietante de um clérigo indiano balançando um bebê minúsculo do alto de uma torre de 15 metros de altura. De repente ele soltou o bebê, que mergulhou no vazio, caindo em um cobertor esticado que os aldeões seguravam alegremente como se fosse uma rede de bombeiros.

O mergulho do Templo de Grishneshwar, pensou Langdon, lembrando que algumas pessoas acreditavam que isso traria o favor de Deus para a criança.

Felizmente o vídeo perturbador chegou ao fim.

Agora na escuridão total, a voz de Kirsch ressoou lá em cima.

– Por que a mente humana moderna é capaz de análise lógica exata e ao mesmo tempo nos permite aceitar crenças religiosas que deveriam sucumbir ao menor exame racional?

No alto, o céu estrelado retornou.

– Por acaso – concluiu Edmond –, a resposta é bem simples.

As estrelas ficaram subitamente mais brilhantes e mais substanciais. Fiapos apareceram correndo entre elas para formar uma teia aparentemente infinita de nódulos interconectados.

Neurônios, percebeu Langdon no mesmo instante em que Edmond começava a falar.

– O cérebro humano – disse Edmond. – Por que ele acredita no que acredita?

Lá em cima, vários nódulos se iluminaram, lançando pulsos de eletricidade que saltavam pelas fibras até outros neurônios.

– Como um computador orgânico – continuou o futurólogo –, nosso cérebro tem um sistema operacional, uma série de regras que organizam e definem todos os dados caóticos que fluem durante o dia inteiro: linguagem, uma música que gruda na cabeça, o som de uma sirene, o gosto de chocolate. O fluxo de informações que chegam é freneticamente diversificado e implacável, e nosso cérebro precisa entender tudo isso. Na verdade, é a própria programação do sistema operacional do cérebro que define nossa percepção da realidade. Infelizmente nós somos a vítima da pegadinha, porque quem escreveu o programa do cérebro humano tinha um senso de humor deturpado. Em outras palavras, não é nossa culpa acreditarmos nas coisas malucas em que acreditamos.

As sinapses projetadas chiaram e imagens familiares borbulharam saltando do cérebro: mapas astrológicos, Jesus andando sobre a água, o fundador da cientologia, L. Ron Hubbard, o deus egípcio Osíris, Ganesha – o deus elefante hindu de quatro

braços – e uma estátua de mármore da Virgem Maria chorando lágrimas de verdade.

– E assim, como programador, preciso me perguntar: que tipo de sistema operacional bizarro cria um resultado tão ilógico? Se pudéssemos olhar a mente humana e ler seu sistema operacional, encontraríamos algo assim: Cinco palavras apareceram em letras gigantescas no alto.

DESPREZAR O CAOS.

CRIAR ORDEM.

– Este é o programa raiz do nosso cérebro – declarou Edmond. – Portanto é exatamente essa a inclinação humana. Contra o caos. E a favor da ordem.

A sala tremeu de súbito com uma cacofonia de notas de piano dissonantes, como se uma criança estivesse batucando no teclado. Langdon e as pessoas em volta se retesaram involuntariamente.

Edmond gritou acima do barulho:

– O som de alguém batendo aleatoriamente nas teclas de um piano é insuportável! E, no entanto, se pegarmos essas mesmas notas e as organizarmos numa ordem melhor…

O barulho aleatório parou imediatamente, suplantado pela melodia suave de

“Clair de Lune”, de Debussy.

Langdon sentiu os músculos relaxarem, e a tensão no ambiente pareceu evaporar.

– Nosso cérebro se regozija – disse Edmond. – As mesmas notas. O mesmo instrumento. Mas Debussy cria ordem. E é esse mesmo regozijo com a criação da ordem que instiga os seres humanos a montar quebra-cabeças ou a ajeitar quadros numa parede. Nossa predisposição à organização está inscrita no DNA, portanto não deveria ser surpresa que a maior invenção que a mente humana já criou seja o computador, uma máquina destinada especificamente a nos ajudar a criar ordem. Na verdade, a palavra em espanhol para computador é ordenador: literalmente “aquilo que cria ordem”. Surgiu a imagem de um enorme supercomputador com um rapaz sentado diante de um terminal.

– Imagine que você tem um computador poderoso com acesso a todas as informações do mundo. Você tem permissão de lhe fazer qualquer pergunta que queira. Há uma grande probabilidade que você acabe fazendo uma das duas perguntas fundamentais que cativaram os seres humanos desde que passamos a ter consciência de nós mesmos.

O rapaz digitou no terminal e surgiu um texto.

DE ONDE VIEMOS?

PARA ONDE VAMOS?

– Em outras palavras – disse Edmond –, você perguntaria sobre nossa origem e nosso destino. E quando fizesse essa pergunta, veja qual seria a resposta do computador.

O terminal piscou:

DADOS INSUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA EXATA.

– Não ajuda muito – disse Kirsch –, mas ao menos é uma resposta honesta.

Em seguida surgiu a imagem de um cérebro humano.

– No entanto, se você perguntar a esse pequeno computador biológico: “De onde viemos?” Outra coisa acontece.

Do cérebro saiu uma série de imagens religiosas: Deus esticando a mão para dar vida a Adão, Prometeu criando um homem primordial a partir do barro, Brama criando seres humanos a partir de diferentes partes de seu corpo, um deus africano abrindo as nuvens e baixando dois humanos à terra, um deus nórdico fazendo um homem e uma mulher a partir de madeira trazida pela maré.

– E agora você pergunta: “Para onde vamos?”

Mais imagens fluíram do cérebro: céus puríssimos, infernos em chamas, hieróglifos do Livro dos Mortos egípcio, relevos em pedra mostrando viagens astrais, representações gregas dos Campos Elísios, descrições cabalísticas do Gilgul neshamot, diagramas de reencarnação a partir do budismo e do hinduísmo, os círculos teosóficos da Terra do Verão.

– Para o cérebro humano – explicou Edmond –, qualquer resposta é melhor do que resposta nenhuma. Sentimos um desconforto enorme diante de “dados insuficientes”, e assim nosso cérebro inventa os dados, oferecendo-nos, no mínimo, a ilusão de ordem, criando miríades de filosofias, mitologias e religiões para nos garantir que de fato há uma ordem e uma estrutura no mundo invisível.

À medida que as imagens religiosas continuavam a fluir, Edmond falava com intensidade crescente:

– De onde viemos? Para onde vamos? Essas perguntas fundamentais da existência humana sempre me obcecaram, e durante anos sonhei em encontrar as respostas. – Edmond fez uma pausa, com o tom de voz ficando sombrio. –

Tragicamente, por conta dos dogmas religiosos, milhões de pessoas acreditam que já sabem as respostas para essas grandes perguntas. E como nem todas as religiões oferecem as mesmas respostas, culturas inteiras terminam em guerra para decidir quais são as respostas corretas e que versão da história de Deus é a História

Verdadeira.

A tela acima explodiu com imagens de tiros e morteiros – uma montagem violenta mostrando cenas de guerras religiosas seguidas por refugiados soluçando, famílias em fuga e cadáveres de civis.

– Desde o início da história religiosa, nossa espécie foi apanhada num fogo cruzado interminável: ateus, cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, os crentes de todas as religiões. E a única coisa que une todos nós é nosso profundo desejo de paz.

As imagens trovejantes da guerra sumiram, substituídas pelo céu silencioso com estrelas brilhando.

– Imaginem só o que aconteceria se descobríssemos milagrosamente as respostas para as grandes perguntas da vida… se de repente vislumbrássemos a mesma prova inconfundível e percebêssemos que não tínhamos opção, a não ser abrir os braços e aceitá-la… juntos, como uma espécie.

Um sacerdote apareceu na tela, com os olhos fechados em oração.

– A busca espiritual sempre foi domínio da religião, que nos encoraja a ter fé cega nos seus ensinamentos, mesmo quando eles fazem pouco sentido lógico.

Uma colagem de imagens de crentes fervorosos surgiu, todos de olhos fechados, cantando, fazendo reverências, entoando, rezando.

– Mas a fé – declarou Edmond –, por sua própria definição, exige colocarmos nossa confiança em algo que é invisível e indefinível, aceitando como fato uma coisa para a qual não existe prova empírica. E assim, compreensivelmente, todos acabamos depositando nossa fé em coisas diferentes porque não existe uma verdade universal. – Ele parou. – No entanto…

As imagens no teto se dissolveram numa única fotografia mostrando uma estudante, os olhos abertos e intensos, espiando através de um microscópio.

– A ciência é a antítese da fé – prosseguiu Kirsch. – Por definição, a ciência é a tentativa de encontrar prova física de algo que é desconhecido ou que ainda não foi definido, e rejeitar a superstição e a percepção equivocada em favor de fatos observáveis. Quando a ciência oferece uma resposta, ela é universal. Os seres humanos não guerreiam por causa dela; eles se juntam ao redor dela.