Origem
Capítulo 6
– Concordo. Espero que ele esteja bem. Infelizmente as notícias não param por aí. – O bispo fez uma pausa, com a voz ficando ainda mais sombria. – Acabei de saber que Edmond Kirsch está realizando um evento para contar sua descoberta ao mundo… esta noite.
– Esta noite?! Ele disse que seria daqui a um mês!
– É – retrucou Valdespino. – Ele mentiu.
C A P Í T U L O 6
A voz amigável de Winston reverberou no fone de Langdon.
– Bem à sua frente, professor, o senhor verá a maior pintura de nossa coleção, ainda que a maioria dos convidados não a identifique imediatamente.
Langdon olhou ao redor do átrio, mas não viu nada a não ser uma parede de vidro voltada para o lago.
– Sinto muito, acho que faço parte da maioria. Não estou vendo pintura nenhuma.
– Bom, ela é apresentada de modo muito pouco convencional – disse Winston, rindo. – A tela não está na parede, e sim no piso.
Eu deveria ter adivinhado, pensou Langdon, baixando o olhar e avançando até que viu a enorme tela retangular esticada sobre a pedra aos seus pés.
A pintura enorme consistia em apenas uma cor – um campo monocromático de um azul profundo –, e os espectadores ficavam em volta do perímetro, olhando-o como se observassem um pequeno lago.
– Esta pintura tem quase 500 metros quadrados – explicou Winston.
Langdon percebeu que ela era quase dez vezes maior do que o seu primeiro apartamento em Cambridge.
– É de Yves Klein e passou a ser conhecida afetuosamente como A Piscina.
Langdon precisava admitir que a intensidade fascinante daquele tom de azul lhe dava a sensação de que poderia mergulhar direto na tela.
– Klein inventou essa cor – continuou Winston. – Chama-se Azul Internacional Klein, e ele dizia que a profundidade dela evocava a imaterialidade e a ilimitabilidade de sua visão utópica do mundo.
Langdon percebeu que Winston estava lendo um roteiro.
– Klein é mais conhecido por suas pinturas azuis, mas também por uma perturbadora fotografia intitulada Salto no Vazio, que causou um tremendo pânico ao ser exposta em 1960.
Langdon tinha visto o Salto no Vazio no Museu de Arte Moderna de Nova York. A foto era um bocado desconcertante, mostrando um homem bem-vestido mergulhando de peito do alto de uma casa, na direção do pavimento. Na verdade, a imagem era um truque – concebido de modo brilhante e retocado diabolicamente com uma lâmina de barbear, muito antes dos tempos do Photoshop.
– Além disso – continuou Winston –, Klein também compôs a Sinfonia
Monotônica-Silêncio, em que uma orquestra sinfônica toca um único acorde de ré maior durante 20 minutos.
– E as pessoas ouvem?
– Sim, milhares de pessoas. E esse acorde é só o primeiro movimento. No segundo, a orquestra fica sentada imóvel e executa um “puro silêncio” durante 20
minutos.
– Você está brincando, não é?
– Não, é sério. Em defesa da apresentação, ela provavelmente não era tão chata quanto poderia parecer; no palco também havia três mulheres nuas, pintadas de azul, rolando em telas gigantescas.
Apesar de Langdon ter dedicado a maior parte de sua carreira a estudar arte, perturbava-o o fato de que nunca havia aprendido a apreciar as obras mais vanguardistas do mundo. O apelo da arte moderna continuava sendo um mistério para ele.
– Não quero ser desrespeitoso, Winston, mas preciso dizer: frequentemente acho difícil saber quando algo é “arte moderna” ou quando é pura bizarrice.
A resposta de Winston foi imediata:
– Bom, frequentemente essa é a questão, não é? No seu mundo da arte clássica, as obras são reverenciadas pela capacidade de execução do artista. Isto é, com que habilidade ele encosta o pincel na tela ou o cinzel na pedra. Mas na arte moderna as obras-primas têm mais a ver com a ideia do que com a execução. Por exemplo, qualquer um poderia facilmente compor uma sinfonia de 40 minutos consistindo apenas em um acorde e silêncio, mas foi Yves Klein que teve a ideia.
– É justo.
– Claro, A Escultura de Névoa lá fora é um exemplo perfeito de arte conceitual.
A artista teve uma ideia: passar tubos perfurados embaixo da ponte e soprar névoa no lago, mas a criação da obra foi feita por encanadores da cidade. – Winston fez uma pausa. – Mas eu dou uma nota muito alta à artista por usar seu meio como um código.
– A névoa é um código?
– É. Uma homenagem oculta ao arquiteto do museu.
– Frank Gehry?
– Frank O. Gehry – corrigiu Winston.
– Inteligente.
As iniciais do arquiteto formavam a palavra fog, névoa, em inglês.
Enquanto Langdon ia na direção das janelas, Winston disse:
– Daqui dá para ter uma bela visão da aranha. Você viu a Mamãe quando entrou?
Langdon olhou pela janela, por cima do lago, para a enorme escultura da viúva-negra na praça.
– Vi. É bem difícil não ver.
– Pelo seu tom, sinto que o senhor não é fã. É?
– Estou tentando ser. – Langdon fez uma pausa. – Como classicista, me sinto meio um peixe fora d’água.
– Interessante. Eu tinha imaginado que o senhor, principalmente, apreciaria a Mamãe. Ela é um exemplo perfeito da ideia de justaposição. O senhor poderia usá-la em sala de aula quando ensinar o conceito na próxima vez.
Langdon olhou a aranha, sem ver nada do gênero. Quando se tratava de ensinar justaposição, preferia algo um pouquinho mais tradicional.
– Acho que vou continuar com o Davi.
– Sim, Michelangelo é o padrão de ouro – disse Winston com um risinho –, concebendo Davi brilhantemente num contraposto efeminado, o pulso frouxo segurando de maneira casual uma funda flácida, revelando uma vulnerabilidade feminina. No entanto os olhos de Davi irradiam uma determinação letal, os tendões e as veias se avolumando com a expectativa de matar Golias. A obra é ao mesmo tempo delicada e mortífera.
Langdon ficou impressionado com a clareza da descrição e desejou que seus alunos tivessem uma compreensão semelhante da obra-prima de Michelangelo.
– A Mamãe é diferente do Davi – disse Winston. – Uma justaposição igualmente ousada de princípios arquetípicos opostos. Na natureza, a viúva-negra é uma criatura temível: uma predadora que captura as vítimas em sua teia e as mata.
Apesar de ser letal, ela é representada aqui com um enorme saco de ovos, preparando-se para dar a vida, o que a torna ao mesmo tempo predadora e progenitora – um núcleo poderoso empoleirado em cima de pernas paradoxalmente finas, revelando força e fragilidade. A Mamãe pode ser chamada de um Davi dos dias atuais, por assim dizer.
– Não vou dizer – respondeu Langdon, sorrindo. – Mas devo admitir que sua análise me dá o que pensar.
– Bom, então deixe-me mostrar uma última obra. Por acaso é um original de Edmond Kirsch.
– Verdade? Não sabia que Edmond era artista.
Winston gargalhou.
– Deixarei que o senhor seja o juiz.
Langdon permitiu que Winston o guiasse, passando junto às janelas até uma alcova espaçosa onde um grupo de convidados tinha se reunido diante de uma grande placa de barro seco pendurada na parede. À primeira vista a laje de argila endurecida lembrou a Langdon a exposição de um fóssil. Mas aquele barro não continha fósseis. Em vez disso tinha marcas gravadas grosseiramente, semelhantes às que uma criança poderia desenhar com um graveto em cimento fresco.
Os espectadores não pareciam impressionados.
– Edmond fez isso? – resmungou uma mulher vestida com um casaco de marta e Botox nos lábios. – Não entendi.
O professor que havia em Langdon não pôde resistir.
– Na verdade é muito inteligente – interveio. – Até agora é minha obra predileta em todo o museu.
A mulher virou, olhando-o com uma boa sugestão de desdém.
– Ah, é mesmo? Então me esclareça.
Com prazer. Langdon foi até a série de marcas riscadas grosseiramente na superfície de argila.
– Bom, em primeiro lugar – disse –, Edmond gravou esta peça em argila como homenagem à primeira linguagem escrita da humanidade, a cuneiforme.
A mulher piscou, parecendo em dúvida.
– As três marcas fortes no meio – continuou ele – formam a palavra “peixe” em assírio. Isso é chamado de pictograma. Se a senhora olhar com atenção, pode imaginar a boca do peixe virada para a direita, além das escamas triangulares no corpo.
As pessoas do grupo inclinaram a cabeça, examinando de novo a obra.
– E se olharem aqui – Langdon apontou para a série de depressões à esquerda –
podem ver que Edmond fez pegadas na lama atrás do peixe, representando o passo evolucionário do peixe em direção à terra.
Cabeças começaram a confirmar, em apreciação.
– E, finalmente – disse Langdon –, o asterisco assimétrico à direita, que o peixe parece estar abocanhando, é um dos símbolos mais antigos para Deus.
A mulher com Botox se virou e fez uma careta para ele.
– Um peixe comendo Deus?
– Aparentemente, sim. É uma versão brincalhona do peixe de Darwin: a evolução consumindo a religião. – Langdon deu de ombros com ar casual. – Como eu disse, é bem inteligente.
Enquanto se afastava, escutou o grupo murmurando atrás, e Winston soltou uma gargalhada.
– Muito divertido, professor! Edmond apreciaria sua palestra improvisada. Não são muitas as pessoas que decifram essa obra.
– Bom, na verdade esse é o meu trabalho.
– Sim, e agora entendo por que o Sr. Kirsch recomendou que eu o considerasse um convidado superespecial. De fato, ele pediu que eu lhe mostrasse uma coisa que nenhum dos outros convidados vai experimentar esta noite.
– É? E o que será?
– À direita das janelas principais o senhor está vendo um corredor com cordão de isolamento?
Langdon olhou à direita.
– Estou.
– Bom. Por favor, siga minhas orientações.
Em dúvida, Langdon obedeceu às instruções passo a passo de Winston. Foi até a entrada do corredor e, depois de verificar duas vezes se ninguém estava olhando, se espremeu discretamente por trás dos balaústres e foi avançando até sumir de vista.
Agora, tendo deixado para trás a multidão do átrio, caminhou dez metros até uma porta de metal com um teclado numérico.
– Tecle esses seis dígitos – disse Winston, informando os números.
Langdon digitou o código e a porta soltou um estalo.
– Certo, professor. Por favor, entre.
Langdon ficou parado um momento, sem saber o que esperar. Então, preparando-se, empurrou a porta. O espaço do outro lado estava mergulhado na semiescuridão.
– Vou acender as luzes para o senhor – disse Winston. – Por favor, entre e feche a porta.
Langdon entrou devagar, esforçando-se para enxergar. Fechou a porta e a fechadura estalou.
Aos poucos, uma luz suave começou a surgir nas bordas da sala, revelando um espaço impensavelmente enorme – uma câmara gigantesca – como um hangar de avião para uma frota de jumbos.
– Três mil metros quadrados – explicou Winston.
A sala fazia o átrio parecer minúsculo.
Enquanto as luzes continuavam a aumentar, Langdon viu um grupo de formas enormes apoiadas no chão – sete ou oito silhuetas escuras – como dinossauros pastando na noite.
– O que, afinal, estou vendo? – perguntou.