Origem

Dan Brown · Capítulo 48 de 107

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Origem

Capítulo 50

Um texto se materializou acima da montanha.

La Pedrera não foi criada por Gaudí.

Nos próximos 30 segundos, Langdon olhou as ondas começando a esculpir a montanha no característico exterior orgânico da Casa Milà. Em seguida, o oceano correu para dentro, criando reentrâncias e espaços cavernosos onde cachoeiras escavavam escadas e trepadeiras cresciam, retorcendo-se para formar balaustradas de ferro enquanto o musgo brotava por baixo, atapetando o piso.

Por fim, a câmera recuou para o mar e revelou a famosa imagem da Casa Milà

– “a pedreira” – esculpida numa montanha enorme.

– La Pedrera –

uma obra-prima da natureza

Langdon teve que admitir que Edmond tinha jeito para criar drama. Depois de assistir ao vídeo repleto de efeitos de computação gráfica, ele ficou ansioso para revisitar o prédio famoso.

Voltando o olhar para a estrada, estendeu a mão e desligou o piloto automático, retomando o controle.

– Esperemos que o apartamento de Edmond contenha o que estamos procurando. Precisamos achar a tal senha.

 

C A P Í T U L O 5 0

O comandante Diego Garza levou seus quatro agentes armados da Guardia pelo centro da Plaza de la Armería, mantendo o olhar direto em frente e ignorando os repórteres apinhados do lado de fora da cerca, que apontavam câmeras de televisão através das barras e gritavam para que ele fizesse algum comentário.

Pelo menos, eles verão que alguém está tomando alguma atitude.

Quando chegou à catedral com sua equipe, a entrada principal estava trancada –

o que não era surpreendente àquela hora –, e Garza começou a bater na porta com o cabo da pistola.

Não houve resposta.

Continuou batendo.

Por fim as trancas giraram e a porta se abriu. Garza se pegou cara a cara com uma faxineira, compreensivelmente alarmada diante do pequeno exército junto à porta.

– Onde está o bispo Valdespino? – perguntou ele.

– Eu… não sei – respondeu a mulher.

– Sei que o bispo está aqui. E está com o príncipe Julián. Você não viu?

Ela balançou a cabeça.

– Acabei de chegar. Eu faço a limpeza nas noites de sábado depois…

Garza passou por ela, orientando seus homens a se espalhar pela catedral escura.

– Tranque a porta – ordenou à faxineira. – E fique fora do caminho.

Em seguida, engatilhou a arma e foi direto para o escritório de Valdespino.

Do outro lado da praça, na sala de controle que ficava no porão, Mónica Martín parou diante do bebedouro e deu uma tragada comprida num cigarro que vinha desejando havia muito tempo. Graças ao movimento “politicamente correto” que crescia na Espanha, o fumo tinha sido banido das salas do Palácio Real. Mas, com o dilúvio de supostos crimes associados ao palácio esta noite, Mónica achou que um pouco de fumaça era uma infração tolerável.

Todos os cinco canais de notícias na fileira de aparelhos de TV sem som diante

dela continuavam com a cobertura do assassinato de Edmond Kirsch, repassando as imagens do crime brutal. Claro, cada transmissão era precedida pelo aviso de sempre:

ATENÇÃO: As imagens seguintes podem não ser apropriadas para todos os espectadores.

Que falta de vergonha! , pensou ela, sabendo que esses comunicados não eram precauções sensíveis das redes de notícias, e sim provocações inteligentes para que ninguém mudasse de canal.

Mónica deu outro trago no cigarro, examinando os vários canais que, na maioria, misturavam as crescentes teorias da conspiração com manchetes de “última hora” e chamadas sensacionalistas.

Futurólogo morto pela Igreja?

Descoberta científica perdida para sempre?

Assassino contratado pela família real?

Vocês deveriam informar, resmungou ela. E não espalhar boatos sob a forma de perguntas.

Mónica sempre havia acreditado na importância do jornalismo responsável como pedra angular da liberdade e da democracia, por isso costumava ficar desapontada com os repórteres que incitavam a controvérsia divulgando ideias obviamente absurdas – ao mesmo tempo que se valiam do artifício de transformar cada declaração ridícula em pergunta para evitar repercussões jurídicas.

Até mesmo respeitáveis canais científicos estavam usando esse recurso, perguntando aos espectadores: “Será possível que este templo no Peru tenha sido construído por alienígenas do passado?”

Não! , Mónica sentia vontade de gritar para o aparelho de TV. Não é possível!

Parem de fazer perguntas imbecis.

Numa das telas, dava para ver que a CNN estava se esforçando para ser respeitosa.

Lembrando Edmond Kirsch

Profeta. Visionário. Criador.

Mónica pegou o controle remoto e aumentou o volume.

– … um homem que amava a arte, a tecnologia e a inovação – disse com tristeza o apresentador do noticiário. – Um homem que se tornou conhecido pela capacidade quase mística de prever o futuro. Segundo seus colegas, todas as previsões feitas por Edmond Kirsch no campo da informática se tornaram realidade.

– Isso mesmo, David – exclamou a outra apresentadora. – Eu só gostaria que pudéssemos dizer o mesmo com relação às suas previsões pessoais.

Em seguida surgiram imagens de arquivo mostrando um Edmond Kirsch

robusto e bronzeado dando uma entrevista coletiva na calçada em frente ao número 30 do Rockefeller Center, em Nova York.

– Hoje faço 30 anos – disse Edmond – e minha expectativa de vida é de apenas 68. Mas, com os avanços futuros na medicina, na tecnologia da longevidade e na regeneração dos telômeros, prevejo que chegarei aos 110. De fato, tenho tanta confiança nisso que acabo de reservar o Rainbow Room para minha festa de 110

anos. – Kirsch sorriu e olhou para o topo do prédio. – Acabei de pagar a conta, com 80 anos de antecedência, prevendo inclusive a inflação do período.

A apresentadora surgiu de novo, um tanto sombria.

– Como diz o velho ditado: “O homem planeja e Deus ri.”

– Verdade – entoou o apresentador. – E, além da intriga sobre a morte de Kirsch, há uma explosão de especulações sobre a natureza da descoberta dele. – O

homem olhou sério para a câmera. – De onde viemos? Para onde vamos? Duas perguntas fascinantes.

– E para responder a essas perguntas – acrescentou a apresentadora, empolgada

–, temos aqui duas mulheres muito bem-sucedidas: uma pastora episcopal de Vermont e uma bióloga evolucionária da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA. Depois do intervalo, voltaremos com as opiniões delas.

Mónica já conhecia as opiniões das duas – completamente opostas, caso contrário não estariam no programa de vocês. Sem dúvida, a pastora diria algo do tipo: “Nós viemos de Deus e voltaremos para Deus” e a bióloga evolucionária reagiria: “Nós evoluímos a partir dos primatas e vamos nos extinguir.”

Não provarão nada, só que os espectadores assistem a qualquer coisa se forem suficientemente estimulados.

– Mónica! – gritou Suresh ali perto.

A coordenadora se virou e viu o diretor de segurança eletrônica dobrando o corredor, praticamente correndo.

– O que foi? – perguntou ela.

– O bispo Valdespino acaba de me ligar – disse ele, sem fôlego.

Ela tirou o som da TV.

– O bispo ligou… para você? Ele disse que diabo está fazendo?

Suresh balançou a cabeça.

– Eu não perguntei e ele não disse. Ligou para ver se eu poderia verificar uma coisa nos servidores dos telefones.

– Não entendi.

– Você sabe que o ConspiracyNet está dizendo que alguém de dentro do palácio telefonou para o Guggenheim pouco antes do evento desta noite: um pedido para Ambra Vidal acrescentar o nome de Ávila à lista de convidados.

– É. E eu pedi para você dar uma olhada nisso.

– Bom, Valdespino também pediu. Ligou para perguntar se eu poderia me conectar à central telefônica e descobrir o registro do telefonema, para ver se

descobria de onde, no palácio, ele se originou, com esperança de ter uma ideia melhor de quem pode ter ligado.

Mónica ficou confusa, já que imaginara que o próprio Valdespino era o suspeito mais provável.

– Segundo o Guggenheim – continuou Suresh –, a recepção de lá recebeu uma ligação do número principal do Palácio Real de Madri pouco antes do evento. Está no registro deles. Mas há um problema. Eu olhei os registros da nossa central para ver os telefonemas dados no mesmo horário. – Ele balançou a cabeça. – Nada.

Nenhum telefonema. Alguém deletou o registro da ligação do palácio para o Guggenheim.

Mónica examinou o colega por um longo momento.

– Quem tem acesso a isso?

– Foi exatamente o que Valdespino me perguntou. Então, contei a verdade.

Contei que, como chefe da segurança eletrônica, eu poderia ter deletado o registro, mas que não tinha feito isso. E que a única outra pessoa com autorização e acesso aos registros é o comandante Garza.

Mónica ficou olhando para ele.

– Você acha que Garza mexeu nos nossos registros telefônicos?

– Faz sentido. Afinal de contas, o trabalho dele é proteger o palácio. E, agora, se houver alguma investigação, no que concerne ao palácio o telefonema jamais aconteceu. Tecnicamente falando, temos uma possibilidade plausível de negar.

Apagar o registro ajuda muito a tirar o palácio da enrascada.

– Tirar da enrascada? Não há dúvida de que o telefonema foi dado! Ambra colocou Ávila na lista! E o Guggenheim vai verificar…

– Verdade, mas agora é a palavra de uma funcionária jovem da recepção de um museu contra todo o Palácio Real. Segundo nossos registros, o telefonema simplesmente não existiu.

A avaliação curta e direta de Suresh pareceu otimista demais para Mónica.

– E você contou tudo isso ao Valdespino?

– É simplesmente a verdade. Eu disse a ele que, quer Garza tenha dado o telefonema ou não, ele parece tê-lo apagado num esforço para proteger o palácio. –

Suresh fez uma pausa. – Mas depois de falar com o bispo percebi uma coisa.

– O quê?

– Tecnicamente há uma terceira pessoa que tem acesso ao servidor. – Suresh olhou nervoso ao redor e chegou mais perto. – Os códigos de login do príncipe Julián dão acesso completo a todos os sistemas.

Mónica ficou encarando-o.

– Isso é ridículo.

– Sei que parece maluquice, mas na hora do telefonema o príncipe estava no palácio, sozinho no apartamento. Poderia facilmente ter telefonado, depois se conectado ao servidor e deletado o registro. O programa é fácil de usar e o príncipe

sabe muito mais de tecnologia do que as pessoas imaginam.

– Suresh – disse Mónica com rispidez –, você acha mesmo que o príncipe Julián, o futuro rei da Espanha, mandou pessoalmente um assassino ao Museu Guggenheim para matar Edmond Kirsch?

– Não sei. Só estou dizendo que é possível.

– Por que o príncipe Julián faria isso?

– Você, mais do que ninguém, não deveria fazer essa pergunta. Lembra-se de todas as notícias negativas na imprensa com as quais teve de lidar, sobre Ambra e Edmond Kirsch passando tanto tempo juntos? A história de que Kirsch levou Ambra ao apartamento dele em Barcelona, viajando de avião?

– Eles estavam trabalhando! Era uma coisa profissional!

– A política é feita de aparências. Você me ensinou isso. E nós dois sabemos que o pedido de casamento do príncipe não teve a repercussão pública que ele imaginava.

O telefone de Suresh soltou um bipe e ele leu a mensagem que havia chegado.

Seu rosto se turvou com incredulidade.

– O que foi? – perguntou Mónica.

Sem dizer uma palavra, Suresh se virou e correu de volta para o centro de segurança.

– Suresh!

Mónica apagou o cigarro e correu atrás dele, encontrando-o numa das estações de trabalho de sua equipe, onde um técnico estava passando um vídeo de segurança com a imagem granulada.

– O que é isso aí? – perguntou Mónica.

– A saída dos fundos da catedral – disse o técnico. – Há cinco minutos.

Mónica e Suresh se inclinaram olhando o vídeo que mostrava um jovem acólito saindo pelos fundos da catedral, seguindo depressa pela relativamente silenciosa Calle Mayor, destrancando um velho sedã Opel e entrando.

Certo, pensou Mónica, ele está indo para casa depois da missa. E daí?

Na tela, o Opel deu a partida, seguiu por uma curta distância e parou muito perto do portão dos fundos da catedral – o mesmo por onde o acólito tinha acabado de sair. Quase instantaneamente duas figuras sombrias passaram pelo portão, agachadas, e entraram no banco de trás do carro. Os dois passageiros, sem qualquer dúvida, eram o bispo Valdespino e o príncipe Julián.