Origem

Dan Brown · Capítulo 15 de 107

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Origem

Capítulo 15

Como se aproveitasse a deixa, a porta se abriu.

Langdon olhou através dela, esperando ver outra galeria. Em vez disso, ficou espantado com o que estava do outro lado. Aparentemente era um túnel profundo e escuro.

O almirante Ávila ficou para trás enquanto os visitantes se acotovelavam empolgados na direção da passagem mal iluminada. Enquanto olhava para dentro do túnel, ficou satisfeito ao ver que o espaço do outro lado estava escuro.

A escuridão facilitaria um bocado sua tarefa.

Tocando as contas do rosário no bolso, organizou os pensamentos, examinando os detalhes que tinha acabado de receber para realizar a missão.

Timing é fundamental.

C A P Í T U L O 1 5

Feito de tecido preto esticado em arcos de apoio, o túnel tinha cerca de seis metros de largura e subia suavemente à esquerda. O piso era coberto com um tapete preto e fofo, e dois fachos de luz na base das paredes forneciam a única iluminação.

– Sapatos, por favor – sussurrava um guia aos recém-chegados. – Todos, por favor, tirem os sapatos e os carreguem.

Langdon tirou os sapatos sociais de couro e seus pés calçados com meias afundaram no tapete incrivelmente fofo. Sentiu o corpo relaxar no mesmo instante.

À sua volta escutou suspiros de satisfação.

Enquanto seguia pela passagem, finalmente viu o fim do túnel: uma cortina preta onde os convidados eram recebidos por guias que entregavam a cada um o que parecia uma grossa toalha de praia, orientando-os a atravessar para o outro lado.

Dentro do túnel, o zumbido de expectativa anterior tinha se dissolvido num silêncio inseguro. Quando Langdon chegou à cortina, um guia lhe deu um tecido dobrado, que ele percebeu que não era uma toalha e sim um pequeno cobertor felpudo com um travesseiro costurado em uma das extremidades. Agradeceu e passou pela cortina.

Pela segunda vez nesta noite foi obrigado a parar bruscamente. Ainda que não pudesse dizer o que imaginara encontrar ali, sem dúvida não era nem de longe algo parecido com a cena diante dos seus olhos.

Nós estamos… ao ar livre?

Langdon estava de pé na borda de um campo vasto. Acima dele se estendia um céu ofuscante de estrelas e, a distância, uma fina lua crescente se elevava acima de uma árvore solitária. Grilos cantavam e uma brisa quente acariciava seu rosto, o ar denso com o cheiro da grama recém-cortada que podia sentir sob os pés calçados apenas com meias.

– Senhor? – sussurrou um monitor, pegando seu braço e o guiando para o campo. – Por favor, encontre um espaço aqui na grama. Abra o cobertor e aproveite.

Langdon foi andando pelo campo junto com outros convidados igualmente perplexos, a maioria escolhendo locais no vasto gramado para abrir os cobertores. A área de grama muito bem cuidada tinha mais ou menos o tamanho de uma quadra de hóquei e era totalmente cercada por árvores, arbustos e juncos que farfalhavam à brisa.

Langdon tinha demorado vários instantes para perceber que tudo era ilusão:

uma tremenda obra de arte.

Estou dentro de um elaborado planetário, pensou, maravilhando-se com a impecável atenção aos detalhes.

O céu estrelado era uma projeção, com lua, nuvens correndo e colinas distantes.

As árvores que farfalhavam e a grama estavam mesmo ali – imitações soberbas ou uma pequena floresta de plantas vivas em vasos escondidos. Esse nebuloso perímetro de vegetação disfarçava de modo inteligente as bordas duras da sala, dando a impressão de um ambiente natural.

Langdon se agachou e tateou a grama, macia e parecendo viva, mas totalmente seca. Tinha lido sobre os novos gramados sintéticos que enganavam até os atletas profissionais. No entanto, Kirsch tinha dado um passo além e criado um terreno ligeiramente irregular, com pequenas reentrâncias e calombos, como uma campina de verdade.

Lembrou-se da primeira vez que tinha sido enganado pelos sentidos. Era criança e estava num barquinho que deslizava por um porto enluarado onde um navio pirata travava uma ensurdecedora batalha com canhões. Sua mente jovem fora incapaz de aceitar que ele não estava num porto, e sim num enorme teatro subterrâneo com canais cheios de água para criar essa ilusão. Era o clássico brinquedo Piratas do Caribe, na Disney.

Esta noite o efeito era espantosamente realista, e enquanto os convidados ao redor iam absorvendo tudo, Langdon podia ver que o espanto e o deleite deles espelhavam os seus. Precisava dar crédito a Edmond: não tanto por criar aquela ilusão espantosa, mas por convencer centenas de adultos a tirar os sapatos chiques, deitar-se no gramado e olhar para o céu.

Nós costumávamos fazer isso na infância, mas em algum ponto do caminho paramos.

Langdon se reclinou e pôs a cabeça no travesseiro, deixando o corpo se fundir à grama macia.

Lá no alto as estrelas brilhavam, e por um instante ele era adolescente de novo, deitado na grama do campo de golfe de Bald Peak à meia-noite com seu melhor amigo, refletindo sobre os mistérios da vida. Com um pouco de sorte, pensou, esta noite Edmond Kirsch vai resolver alguns desses mistérios para nós.

No fundo do teatro o almirante Luis Ávila examinou o ambiente mais uma vez e foi para trás, saindo sem ser visto pela mesma cortina por onde tinha acabado de entrar. Sozinho no túnel, passou uma das mãos pelo tecido até localizar uma emenda. O mais silenciosamente possível, separou as tiras de Velcro, atravessou o

tecido e o fechou outra vez.

Todas as ilusões se evaporaram.

Não estava mais numa campina.

Estava num enorme espaço retangular dominado por uma gigantesca bolha oval. Uma sala dentro de uma sala. A construção diante dele – uma espécie de teatro sob uma cúpula – era cercada por um altíssimo exoesqueleto de andaimes que sustentava um emaranhado de cabos, luzes e alto-falantes. Apontando para dentro, uma variedade de projetores de vídeo reluzia ao mesmo tempo, lançando grandes fachos de luz na superfície translúcida da cúpula e criando a ilusão de um céu estrelado e colinas onduladas.

Ávila admirou o talento de Kirsch para a dramaticidade, se bem que o futurólogo jamais poderia imaginar como aquela noite logo ficaria dramática.

Lembre-se do que está em jogo. Você é um soldado numa guerra nobre. É parte de um todo maior.