Origem

Dan Brown · Capítulo 94 de 107

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Origem

Capítulo 97

Essas palavras calavam fundo em Langdon, que frequentemente temia que a raça humana não seria responsável o suficiente para usar as ferramentas inebriantes que estava inventando.

– Apesar de ser ateu – disse Edmond –, antes de deixá-los, peço sua indulgência, pois gostaria de ler uma oração que escrevi recentemente.

Edmond escreveu uma oração?

– Eu a chamo de “Oração pelo Futuro”. – Edmond fechou os olhos e falou devagar, com uma segurança espantosa: – Que nossas filosofias sigam no mesmo passo das nossas tecnologias. Que nossa compaixão siga no mesmo passo dos nossos poderes. E que o amor, e não o medo, seja o motor da mudança.

Com isso Edmond Kirsch abriu os olhos.

– Adeus, amigos, muito obrigado. E… boa sorte!

Edmond olhou para a câmera por um momento e então seu rosto desapareceu num borbulhante mar de ruído branco. Langdon olhou para a tela cheia de estática e sentiu um orgulho avassalador do amigo.

Ao lado de Ambra, visualizou os milhões de pessoas em todo o mundo que tinham acabado de testemunhar aquele tour de force comovedor. Estranhamente pegou-se imaginando se a última noite de Edmond não havia acontecido do melhor modo possível.

C A P Í T U L O 9 7

O comandante Diego Garza estava encostado na parede dos fundos do escritório de Mónica Martín, no porão do palácio, olhando inexpressivo para a tela de TV. Suas mãos continuavam algemadas e dois agentes da Guardia o flanqueavam, tendo cedido aos apelos de Mónica para que o deixassem sair da Armaria para ver o anúncio de Kirsch.

Garza havia testemunhado o espetáculo do futurólogo ao lado de Mónica, Suresh, meia dúzia de agentes da Guardia e um grupo improvável de funcionários noturnos do palácio que tinham largado suas tarefas e descido rapidamente para assistir.

Agora, na TV, a estática que havia concluído a apresentação fora substituída por um mosaico de noticiários de todo o mundo, apresentadores e comentaristas recapitulando, ofegantes, as afirmações de Kirsch e partindo para suas análises inevitáveis, todos falando ao mesmo tempo, criando uma cacofonia ininteligível.

Do outro lado da sala, um dos principais agentes de Garza entrou, olhou ao redor, localizou o comandante e foi direto até ele. Sem explicação, tirou suas algemas e estendeu um celular.

– Um telefonema para o senhor. Do bispo Valdespino.

Garza fitou o aparelho. Considerando a forma clandestina como o bispo tinha saído do palácio e a mensagem incriminadora encontrada no telefone dele, Valdespino era a última pessoa de quem Garza esperaria receber uma ligação nesta noite.

– Aqui é o Diego – disse.

– Obrigado por ter atendido. – O bispo parecia cansado. – Sei que o senhor teve uma noite desagradável.

– Onde o senhor está? – perguntou Garza.

– Nas montanhas. Do lado de fora da basílica do Vale dos Caídos. Acabei de ter uma reunião com o príncipe Julián e com Sua Majestade, o rei.

Garza não podia imaginar o que o rei estaria fazendo naquele lugar àquela hora, especialmente em seu estado de saúde.

– Presumo que o senhor saiba que o rei mandou me prender.

– Sim. Foi um erro lamentável, que remediamos.

Garza olhou para os pulsos sem as algemas.

– Sua Majestade pediu que eu ligasse e repassasse um pedido de desculpas.

 

Vou cuidar dele aqui no Hospital El Escorial. Infelizmente, o tempo dele está chegando ao fim.

O seu também, pensou Garza.

– Devo lhe avisar que Suresh encontrou uma mensagem de texto muito incriminadora em seu telefone. Acredito que o site ConspiracyNet planeja divulgá-la em breve. Suspeito que as autoridades irão prendê-lo.

Valdespino deu um longo suspiro.

– É, a mensagem. Eu deveria ter procurado o senhor no instante em que ela chegou, ontem de manhã. Por favor, acredite quando digo que não tive nada a ver com o assassinato de Edmond Kirsch nem com a morte dos meus dois colegas.

– Mas a mensagem claramente implica o senhor…

– Estão tramando contra mim, Diego – interrompeu o bispo. – Alguém se esforçou um bocado para fazer com que eu parecesse cúmplice.

Ainda que Garza jamais tivesse imaginado que Valdespino fosse capaz de um assassinato, a ideia de alguém tramando para culpá-lo fazia pouco sentido.

– Quem tentaria incriminar o senhor?

– Não faço ideia – respondeu o bispo, soando de repente velho e desorientado.

– Não sei se ainda importa. Minha reputação foi destruída. Meu amigo mais querido, o rei, está perto da morte. E não há muito mais que esta noite possa tirar de mim.

Havia um tom definitivo na voz de Valdespino.

– Antonio… você está bem?

Valdespino suspirou.

– Na verdade, não, comandante. Estou cansado. Duvido que sobreviva à investigação que vai acontecer. E, mesmo que consiga, o mundo parece não precisar mais de mim.

Garza podia ouvir a tristeza na voz do velho bispo.

– Um favor pequeno, se é que posso pedir – acrescentou Valdespino. – No momento, estou tentando servir a dois reis: um deixando o trono e outro ascendendo a ele. O príncipe Julián está tentando contatar a noiva durante toda a noite. Se o senhor conseguir um modo de falar com Ambra Vidal, nosso futuro rei ficaria eternamente em dívida com o senhor.

Na enorme praça do lado de fora da igreja, o bispo Valdespino olhou para o escuro Vale dos Caídos. Uma névoa da madrugada já se esgueirava pelas ravinas cheias de pinheiros, e em algum lugar, a distância, o pio agudo de uma ave de rapina rasgou a noite.

O abutre-monge, ou abutre-fusco, pensou Valdespino, estranhamente entretido

com o som. O grito plangente do pássaro era misteriosamente adequado ao momento, e o bispo se perguntou se talvez o mundo estivesse tentando lhe dizer alguma coisa.

Ali perto, os agentes da Guardia empurravam a cadeira de rodas do rei até o veículo em que seria transportado de volta ao Hospital El Escorial.

Irei cuidar de você, meu amigo, pensou o bispo. Isto é, se permitirem.

Os agentes da Guardia levantavam o olhar repetidamente da claridade de seus celulares, observando Valdespino o tempo todo, como se suspeitassem de que logo receberiam a ordem para prendê-lo.

No entanto, sou inocente, pensou o bispo, que desconfiava que a armação contra ele tinha sido feita por um dos ateus tecnológicos seguidores de Kirsch. A comunidade crescente de ateus adora colocar a Igreja no papel de vilã.

Uma notícia que acabara de ouvir a respeito da apresentação de Kirsch aprofundava ainda mais a suspeita do bispo. Diferentemente do vídeo que o cientista mostrara a Valdespino na Biblioteca de Montserrat, parecia que a versão desta noite havia terminado com uma nota de esperança.

Kirsch nos enganou.

Dias atrás, a apresentação que o futurólogo mostrara a Valdespino e seus colegas fora interrompida prematuramente… terminando com um gráfico terrível que previa o extermínio de todos os seres humanos.

Uma aniquilação cataclísmica.

O apocalipse profetizado tanto tempo atrás.

Mesmo acreditando que a previsão era uma mentira, Valdespino sabia que um número incontável de pessoas iria aceitá-la como prova da perdição iminente.

Durante toda a história, crentes fervorosos tinham sido presas de profecias catastróficas, seitas do juízo final cometiam suicídio em massa para evitar os horrores que viriam e devotos fundamentalistas estouravam o saldo do cartão de crédito acreditando que o fim estava próximo.

Não existe nada mais prejudicial para as crianças do que a perda da esperança, pensou Valdespino, lembrando-se de como a combinação do amor de Deus com a promessa do céu tinha sido a força mais animadora em sua infância. Fui criado por Deus, tinha aprendido quando era pequeno, e um dia viverei para sempre no reino de Deus.

Kirsch havia proclamado o oposto: Sou um acidente cósmico e logo estarei morto.

Valdespino ficara profundamente preocupado com os danos que a mensagem de Kirsch causaria às pobres almas que não desfrutavam da riqueza e dos privilégios do futurólogo – pessoas que lutavam diariamente só para comer ou dar de comer aos filhos e que precisavam de um pouquinho da esperança divina para sair da cama todo dia e encarar a vida difícil.

Por que Kirsch teria mostrado um final apocalíptico para ele e os outros

clérigos ainda era um mistério para Valdespino. Talvez só quisesse proteger sua surpresa, pensou. Ou, então, simplesmente queria nos torturar um pouco.

De qualquer modo, o dano estava feito.

O bispo olhou para o outro lado da praça e viu o príncipe Julián ajudando amorosamente o rei a entrar no furgão. O jovem príncipe tinha enfrentado muito bem a confissão do pai.

O segredo de décadas de Sua Majestade.

Valdespino, claro, sabia da verdade perigosa do rei havia anos, e a protegera escrupulosamente. Nesta noite o monarca tinha decidido abrir a alma para o filho único. Ao optar por fazer isso ali – naquele templo à intolerância no interior de uma montanha –, o rei havia realizado um ato de desafio simbólico.