Origem
Capítulo 39
– Aqui é o controle de tráfego aéreo – disse uma voz em seus fones. – EC346, você está autorizado a decolar na pista número um. Repito, você está autorizado.
Siegel só queria decolar, mas ainda esperava uma palavra do secretário de Edmond.
– Obrigado, controle – disse. – Precisamos ficar aqui só mais um minuto.
Estamos verificando uma luz de alerta.
– Entendido. Por favor, avise quando estiver pronto.
C A P Í T U L O 3 9
– Aqui? – O piloto do táxi aquático pareceu confuso. – Vocês quer parar aqui? O
aeroporto é mais longe. Eu leva vocês lá.
– Obrigado, vamos sair aqui – disse Langdon, seguindo o conselho de Winston.
O piloto deu de ombros e parou a lancha ao lado de uma pequena ponte onde estava escrito Puerto Bidea. A margem do rio era coberta com capim alto e parecia mais ou menos acessível. Ambra já estava saindo do barco e subindo a encosta.
– Quanto devemos? – perguntou Langdon ao capitão.
– Não precisa – respondeu o homem. – Seu inglês paga antes. Cartão de crédito. Dinheiro triplo.
Winston já pagou. Langdon ainda não estava totalmente acostumado a trabalhar com o secretário computadorizado de Kirsch. É como ter a Siri cheia de esteroides.
Langdon percebeu que as capacidades de Winston não deveriam ser surpresa, considerando os relatos diários de inteligências artificiais que realizavam todo tipo de tarefas complexas, até mesmo escrever romances – um livro desses tinha quase ganhado um prêmio literário no Japão.
Agradeceu ao capitão e pulou do barco para a margem. Antes de subir a encosta, virou-se de novo para o piloto perplexo, levou o indicador aos lábios e disse:
– Discreción, por favor.
– Sí, sí – garantiu o homem, cobrindo os olhos. – ¡No he visto nada!
Com isso Langdon subiu rapidamente pela margem, atravessou um par de trilhos de trem e se juntou a Ambra na borda de um povoado adormecido com uma fileira de lojas de aparência antiquada.
– Segundo o mapa – disse Winston no viva voz do telefone de Edmond –, vocês devem estar na interseção de Puerto Bidea com a via aquática de Río Asúa. Estão vendo uma pequena rotatória no centro do povoado?
– Estou – respondeu Ambra.
– Bom. Logo depois da rotatória vocês vão encontrar uma estradinha chamada Beike Bidea. Sigam por ela, para longe do centro do povoado.
Dois minutos depois, Langdon e Ambra tinham saído da aldeia e seguiam rapidamente por uma estrada rural deserta, onde casas de pedra se acomodavam em hectares de pastagens. À medida que penetravam mais fundo na área rural, Langdon sentiu que alguma coisa estava errada. À direita, longe, por cima do topo de um
morro pequeno, o céu tinha uma cúpula nevoenta de poluição luminosa.
– Se aquelas são as luzes do terminal – disse Langdon –, nós estamos muito longe.
– O terminal está a três quilômetros de vocês – explicou Winston.
Ambra e Langdon trocaram olhares espantados. Winston tinha dito que a caminhada só duraria oito minutos.
– Segundo as imagens de satélite do Google – continuou Winston –, deve haver um campo grande à direita. Parece possível de ser atravessado?
Langdon olhou para a plantação de feno à direita, que subia suavemente na direção das luzes do terminal.
– Podemos subir, sem dúvida – respondeu Langdon –, mas três quilômetros vão demorar…
– Apenas suba a colina, professor, e siga à risca minhas orientações.
O tom de Winston era educado e sem emoção como sempre, no entanto Langdon percebeu que tinha acabado de levar uma bronca.
– Belo trabalho – disse Ambra, divertida, subindo a colina. – Esse é o tom mais próximo de irritação que já ouvi Winston usar.
– EC346, aqui é o controle de tráfego aéreo. – A voz retumbou nos fones de Siegel. – Você deve liberar a rampa e decolar ou voltar ao hangar para reparos. Qual é sua situação?
– Ainda estamos trabalhando na luz de alerta – mentiu Siegel, olhando para a câmera de ré. Nenhum avião, só as luzes fracas da torre distante. – Só preciso de mais um minuto.
– Entendido. Mantenha-nos informados.
O copiloto deu um tapinha no ombro de Siegel e apontou pelo para-brisa.
Siegel acompanhou o olhar do colega, mas só viu a cerca alta na frente do avião. De repente, do outro lado da tela de arame, distinguiu algo fantasmagórico.
Que negócio é esse?
No campo escuro, atrás da cerca, duas silhuetas espectrais estavam se materializando, saindo do negrume, passando pelo topo de uma colina e vindo diretamente para o jato. À medida que as figuras chegavam mais perto, Siegel notou a nítida faixa diagonal num vestido branco, que tinha visto antes pela televisão.
Aquela é Ambra Vidal?
Ambra tinha voado algumas vezes com Kirsch, e Siegel sempre sentia o coração bater um pouco mais forte quando a impressionante beldade espanhola estava a bordo. Nem conseguia começar a pensar no que ela estaria fazendo num
pasto do lado de fora do Aeroporto de Bilbao.
O homem alto que acompanhava Ambra também vestia uma roupa formal, em preto e branco, e Siegel se lembrou de que ele tinha participado do programa da noite.
O professor americano Robert Langdon.
A voz de Winston retornou subitamente.
– Sr. Siegel, agora o senhor deve estar vendo dois indivíduos do outro lado da cerca e, sem dúvida, deve reconhecê-los. – Siegel achou o inglês estranhamente contido. – Por favor, saiba que esta noite há circunstâncias que não posso explicar totalmente, mas vou pedir que atenda aos meus desejos em nome do Sr. Kirsch.
Tudo o que o senhor precisa saber neste momento é o seguinte. – Winston parou por um instante brevíssimo. – As mesmas pessoas que assassinaram Edmond Kirsch estão tentando matar Ambra Vidal e Robert Langdon. Para mantê-los em segurança, precisamos da sua ajuda.
– Mas… claro – gaguejou Siegel, tentando assimilar essa informação.
– A Srta. Vidal e o professor Langdon precisam embarcar em seu avião imediatamente.
– Aqui fora?!
– Sei que, em termos técnicos, seria complicado revisar o manifesto de passageiros, mas…
– Você sabe, em termos técnicos, o que significa uma cerca de três metros de altura em volta do aeroporto?
– Na verdade, sei – respondeu Winston com muita calma. – E, Sr. Siegel, mesmo sabendo que o senhor e eu só trabalhamos juntos há alguns meses, preciso que confie em mim. O que vou sugerir é exatamente o que Edmond desejaria que o senhor fizesse nessa situação.
Siegel escutou incrédulo enquanto Winston delineava seu plano.
– O que você está sugerindo é impossível! – argumentou.
– Pelo contrário. É bem factível. O empuxo de cada motor é de mais de seis mil quilos e o cone do seu nariz é projetado para suportar mais de 1.000 quilômetros…
– Não estou preocupado com a física – reagiu Siegel com rispidez. – Estou preocupado com a legalidade. E com a hipótese de minha licença de piloto ser revogada.
– Entendo, Sr. Siegel – retrucou Winston calmamente. – Mas a futura rainha consorte da Espanha está correndo um sério perigo agora mesmo. Seus atos aqui vão ajudar a salvar a vida dela. Acredite, quando a verdade vier à tona, o senhor não receberá uma censura, receberá uma medalha do rei.
Parados no meio do capim alto, Langdon e Ambra olhavam a cerca alta iluminada pelos faróis do jato.
A pedido de Winston, os dois se afastaram da cerca justo quando a rotação dos motores aumentou e o jato começou a avançar. Mas, em vez de seguir a curva da rampa de acesso, o avião continuou na direção deles, atravessando as linhas de segurança pintadas e saindo para o acostamento de asfalto. Bem devagar, ele foi chegando perto da cerca.
Langdon viu que o nariz do jato estava perfeitamente alinhado com um dos pesados postes de aço da cerca. Quando o nariz enorme encostou no poste vertical, os motores aceleraram ligeiramente.
Ele esperava uma dificuldade maior, mas pelo jeito dois motores Rolls-Royce e uma aeronave de 40 toneladas eram mais do que a cerca poderia aguentar. Com um gemido metálico, o poste se inclinou para eles, levando junto um enorme bloco de asfalto preso à base, como o emaranhado de raízes de uma árvore tombada.
Langdon correu e agarrou a cerca, puxando-a para baixo o suficiente para que ele e Ambra pudessem passar por cima. Quando chegaram cambaleando ao asfalto, a escada de acesso do jato tinha sido baixada e um piloto uniformizado acenava para que entrassem.
Ambra olhou para Langdon com um sorriso tenso.
– Ainda duvida do Winston?
Ele não sabia o que dizer.
Enquanto subiam correndo a escada e entravam na cabine luxuosa, Langdon ouviu o segundo piloto falando com a torre.
– Sim, controle, escutei. Mas seu radar de terra deve estar descalibrado. Nós não saímos da rampa de acesso. Repito, ainda estamos na rampa de acesso. Nossa luz de alerta já se apagou e estamos prontos para decolar.