Origem

Dan Brown · Capítulo 10 de 107

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Origem

Capítulo 10

– Desculpe, é para dar isto a um chofer de táxi?

– É, ele vai saber aonde ir. Vou dizer à segurança de lá para esperar você, e vou chegar o mais rápido possível.

Segurança? Langdon franziu a testa, imaginando se BIO-EC346 seria o codinome de algum clube de ciência secreto.

– É um código dolorosamente simples, Robert. – Ele piscou. – Você, mais do que qualquer pessoa, deveria ser capaz de decifrá-lo. E, por sinal, só para não ser apanhado desprevenido: você vai representar um papel no meu anúncio desta noite.

Langdon ficou surpreso.

– Que tipo de papel?

– Não se preocupe. Você não terá que fazer nada.

Com isso, Edmond Kirsch começou a sair da espiral.

– Preciso ir correndo para os bastidores, mas Winston vai guiar você. – Ele parou na passagem e se virou. – Vejo você depois do evento. E espero que esteja certo com relação a Valdespino.

– Relaxe, Edmond. Concentre-se na apresentação. Você não corre perigo por parte desses clérigos.

Kirsch não pareceu convencido.

– Você pode mudar de ideia, Robert, quando ouvir o que vou dizer.

C A P Í T U L O 1 0

A sede da Arquidiocese de Madri – a Catedral de la Almudena – é uma robusta construção neoclássica situada junto ao Palácio Real. Erguida no lugar onde houvera uma antiga mesquita, seu nome deriva da palavra árabe al-mudayna, que significa “cidadela”.

Segundo a lenda, quando Afonso VI tomou Madri de volta dos muçulmanos em 1083, ficou obcecado em reencontrar um precioso ícone perdido da Virgem Maria que, por segurança, fora emparedado nos muros da cidadela. Incapaz de localizar a Virgem escondida, Afonso rezou até que um trecho da muralha explodiu, desmoronando, e revelou o ícone dentro, ainda iluminado pelas velas acesas com que tinha sido emparedado séculos antes.

Hoje a Virgem de Almudena é a padroeira de Madri, e peregrinos e turistas vão em bandos à catedral para ter o privilégio de rezar diante dela. A localização dramática da igreja – compartilhando a praça do Palácio Real – proporciona uma atração a mais para os frequentadores: a possibilidade de vislumbrar alguém da realeza entrando ou saindo do palácio.

Esta noite, no interior da catedral, um jovem acólito ia rapidamente pelo corredor, em pânico.

Onde está o bispo Valdespino?!

A missa está para começar!

Durante décadas, o arcebispo Antonio Valdespino tinha sido o principal sacerdote e supervisor dessa catedral. Antigo amigo e conselheiro espiritual do rei, Valdespino era um tradicionalista explícito e devoto, praticamente sem qualquer tolerância em relação à modernização. Por incrível que pareça, o bispo de 83 anos ainda usava algemas de tornozelo durante a Semana Santa e se juntava aos fiéis que carregavam ícones pelas ruas da cidade.

Valdespino, mais do que ninguém, jamais se atrasa para a missa.

O acólito estivera com o bispo 20 minutos antes, na sacristia, ajudando-o como sempre com as vestes. Assim que terminaram, o bispo recebeu uma mensagem de texto e, sem dizer uma palavra, saiu rapidamente.

Aonde será que ele foi?

Depois de procurar na nave, na sacristia e até na sala de descanso particular do bispo, agora o acólito ia a toda a velocidade pelo corredor até a área administrativa da catedral, procurar no escritório do bispo.

 

Ouviu um órgão de tubos trovejar a distância.

O hino processional está começando!

O acólito parou derrapando do lado de fora do escritório particular do bispo, espantado ao ver uma luz saindo por baixo da porta fechada. Ele está aqui?

O acólito bateu baixinho.

– ¿Excelencia Reverendísima?

Não houve resposta.

Bateu mais alto e gritou:

– ¿Su Excelencia?

Nada, ainda.

Temendo pela saúde do velho, virou a maçaneta e abriu a porta.

¡Cielos! O acólito ofegou ao olhar dentro da sala privativa.

O bispo Valdespino estava sentado à sua mesa de mogno, olhando para a luz de um laptop. A mitra estava na cabeça, a casula embolada embaixo do corpo e o bastão episcopal encostado na parede de modo pouco cerimonioso.

O acólito pigarreou.

– La santa misa está…

– Preparada – interrompeu o bispo, o olhar jamais se afastando da tela. – Padre Derida me sustituye.

O rapaz ficou olhando-o perplexo. O padre Derida vai substituí-lo? Um sacerdote iniciante supervisionando a missa da noite de sábado era algo tremendamente irregular.

– ¡Vete ya! – ordenou Valdespino rispidamente, sem levantar a cabeça. – Y

cierra la puerta.

Com medo, o jovem obedeceu, saindo rápido e fechando a porta.

Enquanto corria de volta em direção ao som do órgão, o acólito se perguntou o que o bispo estaria vendo em seu computador que afastava tanto sua mente dos deveres para com Deus.

Nesse momento o almirante Ávila estava serpenteando em meio à multidão cada vez maior no átrio do Guggenheim, intrigado ao ver os convidados batendo papo com seus fones. Aparentemente a visita guiada por áudio era uma conversa de mão dupla.

Ficou feliz por ter se livrado do aparelho.

Nada de distrações esta noite.

Verificou o relógio e olhou os elevadores. Já estavam apinhados de pessoas que iam para o evento principal lá em cima, por isso optou pela escada. Enquanto subia,

sentiu o mesmo tremor de incredulidade da noite anterior. Será que me tornei mesmo um homem capaz de matar? As almas hereges que tinham arrebatado sua esposa e seu filho o haviam transformado. Meus atos são sancionados por uma autoridade mais elevada, lembrou-se. Existe retidão no que faço.

Enquanto Ávila chegava ao primeiro patamar, seu olhar foi atraído para uma mulher numa passarela suspensa ali perto. A mais nova celebridade da Espanha, pensou, olhando a famosa beldade.

Ela usava um vestido branco colante com uma faixa preta que atravessava o torso com elegância. A figura esguia, o cabelo preto e luxuriante e o traseiro gracioso eram fáceis de admirar, e Ávila notou que não era o único que a observava.

Além dos olhares de aprovação dos outros convidados, a mulher de branco tinha toda a atenção de dois seguranças que a seguiam de perto. Os homens se moviam com a confiança cautelosa de panteras e usavam paletós azuis iguais, com brasões bordados e as grandes iniciais GR.

Ávila não ficou surpreso com a presença deles, mas essa visão fez seu pulso acelerar. Como ex-membro das Forças Armadas espanholas, sabia muitíssimo bem o que significava GR. Aqueles dois acompanhantes estavam mais bem armados e eram mais bem treinados do que a maioria dos guarda-costas.

Se eles estão presentes, devo tomar todas as precauções, disse a si mesmo.

– Ei! – gritou uma voz masculina logo atrás dele.

Ávila girou.

Um sujeito pançudo usando smoking e chapéu de caubói preto estava dando um sorriso largo para ele.

– Linda fantasia! – disse o homem, apontando para o seu uniforme militar. –

Onde a gente consegue uma assim?

Ávila ficou olhando, com os pulsos fechados num reflexo. Depois de toda uma vida de serviço e sacrifícios, pensou.

– No hablo inglés – respondeu dando de ombros, e continuou subindo a escada.

No segundo andar, encontrou um corredor comprido e seguiu as placas até um toalete distante, na outra ponta. Já ia entrar quando as luzes de todo o museu diminuíram e aumentaram de intensidade: o primeiro empurrãozinho instigando os convidados a subir para a apresentação.

Entrou no banheiro deserto, escolheu o último cubículo e se trancou lá dentro.

Sozinho, sentiu os demônios familiares tentando chegar à superfície, ameaçando arrastá-lo de volta para o abismo.

Cinco anos, e as lembranças ainda me assombram.

Com raiva, afastou os horrores da mente e tirou o rosário de contas de dentro do bolso. Gentilmente pendurou-o no gancho de casacos preso à porta. Enquanto as contas e o crucifixo balançavam pacificamente diante dele, admirou seu trabalho manual. Os devotos poderiam se horrorizar ao ver que alguém seria capaz de conspurcar o rosário criando um objeto como aquele. Mesmo assim, o Regente havia

 

garantido a Ávila que tempos desesperados permitiam uma certa flexibilidade nas regras da absolvição.

Quando a causa é tão santa, prometera o Regente, o perdão de Deus é certo.