Origem

Dan Brown · Capítulo 32 de 107

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Origem

Capítulo 32

– Rabino Köves, sei que o senhor participou de uma reunião particular com Edmond Kirsch, o bispo Valdespino e o allamah Syed al-Fadl há alguns dias na Abadia de Montserrat.

Como ela sabe disso?

– Além do mais, sei que Edmond Kirsch forneceu aos três informações amplas sobre sua recente descoberta científica… e que agora o senhor está envolvido numa conspiração para escondê-la.

– O quê?!

– Se não me ouvir com atenção, prevejo que o senhor estará morto de manhã, eliminado pelo braço longo do bispo Valdespino. – A mulher fez uma pausa. –

Assim como Edmond Kirsch e seu amigo Syed al-Fadl.

C A P Í T U L O 3 2

A Ponte La Salve, em Bilbao, atravessa o Rio Nervión tão próximo do Museu Guggenheim que as duas estruturas costumam parecer fundidas. Reconhecível imediatamente por seu suporte central único – uma altíssima estrutura de um vermelho vivo na forma de uma gigantesca letra H –, a ponte foi batizada de “La Salve” por conta de histórias folclóricas de marinheiros que, ao voltarem do mar, por esse rio, faziam orações de agradecimento pela chegada ao lar em segurança.

Depois de sair pelos fundos do prédio, Langdon e Ambra tinham atravessado a distância curta entre o museu e a margem do rio e agora esperavam, como Winston havia pedido, num caminho nas sombras, diretamente abaixo da ponte.

Estamos esperando o quê? , pensou Langdon, em dúvida.

Enquanto ficavam ali, no escuro, ele pôde ver a forma esguia de Ambra tremendo de frio sob o fino vestido de noite. Tirou a casaca e colocou nos ombros dela, alisando o tecido sobre os braços.

Sem aviso, ela se virou subitamente e o encarou.

Por um instante Langdon temeu que tivesse ultrapassado uma fronteira, mas a expressão de Ambra não era de desprazer, e sim de gratidão.

– Obrigada – sussurrou ela, olhando-o. – Obrigada por me ajudar.

Com os olhos fixos nos de Langdon, Ambra Vidal pegou as mãos dele e as apertou, como se tentasse absorver qualquer calor ou conforto que ele pudesse oferecer.

Então, com a mesma rapidez, soltou-as.

– Desculpe – sussurrou –, conducta impropia, como diria minha mãe.

Langdon sorriu para tranquilizá-la.

– Circunstâncias atenuantes, como diria minha mãe.

Ela conseguiu dar um sorriso, que teve vida curta.

– Estou me sentindo péssima – disse, desviando o olhar. – O que aconteceu esta noite com Edmond…

– É espantoso… pavoroso – completou Langdon, sabendo que continuava num choque muito grande para expressar totalmente as emoções.

Ambra estava olhando para a água.

– E pensar que meu noivo, Don Julián, está envolvido…

Langdon pôde perceber o sentimento de traição na voz dela e não soube direito como responder.

– Sei o que isso parece – disse, pisando leve nesse terreno delicado –, mas realmente não temos certeza. É possível que o príncipe Julián não soubesse dos planos de assassinato desta noite. O assassino podia estar agindo sozinho ou trabalhando para outra pessoa que não ele. Faz pouco sentido que o futuro rei da Espanha orquestrasse o assassinato público de um civil, ainda mais se esse crime pudesse ser rastreado diretamente até ele.

– Só é rastreável porque Winston descobriu que Ávila foi um acréscimo de última hora na lista de convidados. Talvez Julián achasse que ninguém descobriria quem puxou o gatilho.

Langdon precisou admitir que o argumento era válido.

– Eu jamais deveria ter falado com Julián sobre a apresentação de Edmond –

disse Ambra, virando-se de novo para ele. – Ele estava insistindo para que eu não participasse, por isso tentei tranquilizá-lo dizendo que meu envolvimento seria mínimo, que tudo não passava de uma projeção de vídeo. Acho que até falei a Julián que Edmond ia lançar sua descoberta a partir de um smartphone. – Ela fez uma pausa. – O que quer dizer que, se perceberem que pegamos o telefone de Edmond, vão se dar conta de que a descoberta ainda pode ser transmitida. E realmente não sei até que ponto Julián iria para interferir.

Langdon observou aquela mulher linda por um longo momento.

– Você não confia mesmo no seu noivo, não é?

Ambra respirou fundo.

– A verdade é que não o conheço tão bem quanto você poderia presumir.

– Então por que aceitou se casar com ele?

– Julián me colocou numa situação em que não tive escolha.

Antes que Langdon pudesse responder, um ribombar grave começou a sacudir o cimento embaixo dos pés deles, reverberando pelo espaço parecido com uma gruta embaixo da ponte. O som ficou cada vez mais alto. Parecia vir do rio, à direita deles.

Langdon se virou e viu uma forma escura vindo na direção dos dois – uma lancha se aproximando com as luzes apagadas. À medida que se aproximava da alta margem de cimento, ela diminuiu a velocidade e começou a deslizar, chegando perfeitamente ao lado deles.

Langdon olhou a embarcação e balançou a cabeça. Até aquele momento não sabia direito quanta fé poderia colocar no guia computadorizado de Edmond, mas, agora, vendo um táxi aquático amarelo se aproximar da margem, percebeu que Winston era o melhor aliado que poderiam ter.

O piloto desgrenhado acenou para eles embarcarem.

– O seu amigo inglês… ele ligou para mim – disse o homem. – Disse: cliente VIP paga triplo por… como se diz… ¿velocidad y discreción? Eu fiz isso… viu?

Sem luzes!

– Sim, obrigado – respondeu Langdon.

Muito bem, Winston. Velocidade e discrição.

 

O piloto estendeu a mão para ajudar Ambra a embarcar e, quando ela desapareceu na pequena cabine coberta para se aquecer, ele deu um sorriso de olhos arregalados para Langdon.

– Esta é minha VIP? A Señorita Ambra Vidal?

– ¿Velocidad e discreción? – lembrou Langdon.

– ¡Sí, sí! Ok!

O homem foi rapidamente para o leme e acelerou o motor. Instantes depois a lancha ia para o oeste em meio à escuridão do Rio Nervión.

À esquerda do barco, Langdon podia ver a gigantesca viúva-negra do Guggenheim, iluminada de modo fantasmagórico pelas luzes giratórias dos carros da polícia. Acima, um helicóptero da imprensa atravessava o céu em direção ao museu.

O primeiro de muitos, suspeitou Langdon.

Em seguida pegou no bolso o cartão com a anotação cifrada de Edmond. BIO-EC346. Edmond tinha dito para entregá-lo a um motorista de táxi, mas ele provavelmente jamais imaginaria que o veículo seria um táxi aquático.

– Nosso amigo inglês… – gritou Langdon para o piloto acima do som dos motores. – Presumo que ele tenha dito aonde vamos, não é?

– Sim, sim! Eu avisei ele meu barco leva vocês só quase até lá, mas ele disse sem problema, vocês anda 300 metros, não? – respondeu o homem, tentando falar com Langdon em inglês.

– Tudo bem. E é muito longe daqui?

O homem apontou para uma estrada que corria ao longo do rio à direita.

– Placa estrada diz sete quilômetros, mas barco, um pouco mais.

Langdon olhou a placa iluminada.

AEROPUERTO BILBAO (BIO)

7 KM

Deu um sorriso pesaroso, lembrando-se da voz de Edmond. É um código dolorosamente simples, Robert. Edmond estava certo e, quando Langdon finalmente o deduzira, mais cedo, tinha ficado sem graça por demorar tanto.