Origem
Capítulo 44
O assassino deu dois longos passos até o rabino. E com um aperto de ferro agarrou o pescoço do velho e empurrou seu rosto de volta contra o chão.
– Você conseguiu prender a respiração – rosnou o matador –, mas não fazer seu coração parar. – Ele gargalhou. – Não se preocupe. Posso ajudar com isso.
Um instante depois um ponto de calor penetrou na lateral do pescoço de Köves.
Fogo derretido pareceu descer pela garganta e subir pelo crânio. Dessa vez, quando seu coração sofreu um ataque, ele soube que era de verdade.
Depois de dedicar uma parte tão grande da vida aos mistérios do Shamayim, a moradia de Deus e dos mortos justos, o rabino Yehuda Köves soube que todas as respostas estavam a apenas um batimento cardíaco de distância.
C A P Í T U L O 4 4
Sozinha no espaçoso toalete do jato G550, Ambra Vidal parou diante da pia e deixou a água quente correr suave sobre as mãos enquanto se olhava no espelho, mal se reconhecendo no reflexo.
O que eu fiz?
Tomou outro gole de vinho, ansiando pela vida de apenas alguns meses atrás –
quando estava concentrada no trabalho do museu, solteira e anônima. Mas isso havia mudado. Tudo tinha evaporado no momento em que Julián fez o pedido.
Não. No momento em que você disse sim.
Agora ela havia absorvido o horror do assassinato desta noite, e sua mente lógica estava pesando as implicações, temerosa.
Eu convidei o assassino de Edmond para o museu.
Fui enganada por alguém do palácio.
E agora sei demais.
Não existia prova de que o príncipe Julián estivesse por trás daquele crime sangrento, nem que ao menos soubesse do plano de assassinato. Mesmo assim, Ambra tinha visto o suficiente do funcionamento interno do palácio para suspeitar de que nada disso teria acontecido sem o conhecimento do príncipe, ou mesmo sua bênção.
Contei coisas demais a Julián.
Nas últimas semanas, Ambra tinha sentido uma necessidade crescente de justificar cada segundo que passava longe do noivo ciumento e, assim, havia contado a ele, em particular, boa parte do que sabia sobre a futura apresentação de Edmond.
Agora sentia que sua abertura tinha sido imprudente.
Fechou a torneira e enxugou as mãos, pegando a taça quase vazia e engolindo as últimas gotas. No espelho viu uma mulher estranha: uma profissional que já fora confiante e agora estava cheia de arrependimento e vergonha.
Os erros que eu cometi em poucos meses…
Enquanto sua mente voltava no tempo, imaginou o que poderia ter feito de outro modo. Quatro meses atrás, numa noite chuvosa em Madri, Ambra estava numa festa beneficente no Museu de Arte Moderna Reina Sofía…
A maior parte dos convidados tinha migrado para a sala 206.06 para olhar a obra mais famosa do museu, Guernica: um Picasso de 7,5 metros que evocava o horrível bombardeio de uma pequena cidade basca durante a Guerra Civil Espanhola. Mas Ambra achava a pintura dolorosa demais – uma lembrança vívida da opressão brutal sofrida sob o domínio do ditador fascista, o general Francisco Franco, entre 1939 e 1975.
Em vez disso, optou por ir sozinha a uma galeria silenciosa, desfrutar da obra de uma de suas artistas espanholas prediletas, Maruja Mallo, uma pintora surrealista da Galícia cujo sucesso na década de 1930 ajudara a abrir caminho para a aceitação de artistas mulheres na Espanha.
Estava sozinha admirando La Verbena – uma sátira política cheia de símbolos complexos –, quando uma voz profunda falou atrás dela:
– Es casi tan guapa como tú – declarou o homem. É quase tão linda quanto você.
Ambra continuou olhando para a frente e resistiu à ânsia de revirar os olhos.
Em eventos como esse, às vezes o museu mais parecia um desajeitado bar de encontros do que um centro cultural.
– ¿Qué crees que significa? – insistiu a voz atrás dela. O que você acha que significa?
– Não faço ideia – mentiu ela, esperando que, se falasse em inglês, faria o homem ir embora. – Só gosto.
– Também gosto – respondeu ele num inglês quase sem sotaque. – Mallo estava à frente do seu tempo. Infelizmente, para um olhar menos treinado, a beleza superficial desta pintura pode camuflar a substância mais profunda que ela possui. –
Ele fez uma pausa. – Imagino que uma mulher como você deva enfrentar esse problema o tempo todo.
Ambra gemeu por dentro. Será que as mulheres ainda caem nesse tipo de cantada? Grudando um sorriso educado no rosto, virou para despachar o sujeito.
– Senhor, é muita gentileza dizer isso, mas…
Ambra Vidal parou no meio da frase.
O homem à sua frente era alguém que ela vira na televisão e em revistas durante toda a vida.
– Ah – gaguejou Ambra. – O senhor é…
– Presunçoso? – arriscou o homem. – Desajeitadamente ousado? Desculpe, eu levo uma vida resguardada e não sou muito bom com esse tipo de coisa. – Ele sorriu e estendeu a mão educadamente. – Meu nome é Julián.
– Acho que sei o seu nome – disse Ambra, ficando ruborizada enquanto apertava a mão do príncipe Julián, o futuro rei da Espanha. Ele era muito mais alto do que ela havia imaginado, com olhos suaves e um sorriso confiante. – Não sabia que o senhor estaria aqui esta noite – continuou, recuperando rapidamente a compostura. – Imaginei que fosse mais afeito ao Museu do Prado. O senhor sabe, Goya, Velázquez… os clássicos.
– Quer dizer, conservador e antiquado? – Ele deu um riso caloroso. – Acho que você me confundiu com o meu pai. Mallo e Miró sempre foram meus prediletos.
Ambra e o príncipe conversaram por vários minutos e ela ficou impressionada com o conhecimento de arte que ele possuía. Bom, afinal de contas, o sujeito tinha crescido no Palácio Real de Madri, que abrigava uma das melhores coleções da Espanha; provavelmente tinha um El Greco original pendurado no quarto em que dormia quando era criança.
– Sei que isso vai parecer apressado – disse o príncipe, entregando-lhe um cartão de visita com impressão em relevo dourado –, mas adoraria que você me acompanhasse num jantar amanhã à noite. Meu número particular está no cartão. É
só confirmar.
– Jantar? – brincou Ambra. – O senhor nem sabe o meu nome.
– Ambra Vidal – respondeu ele despreocupadamente. – Você tem 39 anos. É
formada em História pela Universidade de Salamanca. É diretora do nosso Museu Guggenheim em Bilbao. Recentemente falou sobre a controvérsia ao redor de Luis Quiles, cuja obra, concordo, espelha explicitamente os horrores da vida moderna e pode não ser adequada para crianças pequenas, mas não sei se concordo quando você diz que a obra dele lembra a de Bansky. Você nunca se casou. Não tem filhos.
E fica fantástica de preto.
O queixo de Ambra caiu.
– Meu Deus! Essa abordagem costuma funcionar?
– Não faço ideia – disse ele com um sorriso. – Acho que vamos descobrir.
Como se tivessem recebido uma deixa, dois agentes da Guardia Real se materializaram e levaram o príncipe para falar com alguns VIPs.
Ambra apertou o cartão de visita sentindo algo que não experimentava em anos.
Um frio na barriga. Um príncipe acabou de me convidar para sair?
Tinha sido uma adolescente magricela e comprida, e os rapazes que a convidavam para sair sempre se sentiam no mesmo nível que ela. Porém, mais tarde, quando sua beleza aflorou, Ambra de repente descobriu que os homens ficavam intimidados em sua presença, remexendo-se, desajeitados e agindo com deferência demais. Mas nessa noite um homem poderoso a tinha abordado de forma ousada e assumido totalmente o controle. Isso a fez sentir-se feminina. E jovem.
Na noite seguinte um chofer pegou Ambra no hotel e a levou ao Palácio Real, onde ela se viu sentada ao lado do príncipe na companhia de duas dúzias de outros convidados, muitos dos quais reconhecia das colunas sociais ou da política. O
príncipe a apresentou como sua “adorável nova amiga” e iniciou uma conversa sobre arte, da qual Ambra podia participar integralmente. Ela teve a sensação de que estava passando por algum tipo de teste, mas não se incomodou. Sentiu-se lisonjeada.
No final da noite, Julián a puxou de lado e sussurrou:
– Espero que tenha se divertido. Eu adoraria ver você de novo. – E sorriu. –
Que tal na quinta-feira à noite?
– Obrigada, mas infelizmente vou viajar para Bilbao de manhã.
– Então vou para lá também. Você já esteve no restaurante Etxanobe?
Ambra teve que rir. O Etxanobe era uma das experiências culinárias mais desejadas de Bilbao. Predileto dos aficionados de arte de todo o mundo, tinha decoração de vanguarda e uma cozinha colorida que fazia com que as pessoas se sentissem numa paisagem pintada por Marc Chagall.
– Seria maravilhoso – ouviu-se dizendo.
No Etxanobe, diante de requintados pratos de atum tostado com sumagre e aspargos com trufas, Julián começou a falar dos desafios políticos que enfrentava enquanto tentava emergir da sombra do pai doente, e também sobre a pressão que sentia para dar continuidade à linhagem real. Ambra reconheceu nele a inocência de um menino enclausurado, mas também viu o nascimento de um líder que tinha uma paixão fervorosa pelo país. Achou isso uma combinação sedutora.
Naquela noite, quando os seguranças de Julián o levaram para seu avião particular, Ambra soube que estava apaixonada.
Você mal o conhece, lembrou a si mesma. Vá com calma.
Os meses seguintes pareceram passar num instante enquanto Ambra e Julián se encontravam constantemente – jantares no palácio, piqueniques na propriedade dele no campo, até uma matinê de cinema. O entendimento entre os dois não era forçado e Ambra não conseguia se lembrar de já ter se sentido mais feliz. Julián tinha um charme antiquado, sempre segurando sua mão ou roubando um beijo com delicadeza, mas jamais cruzando os limites convencionais. E Ambra gostava de seus modos refinados.
Numa manhã ensolarada, três semanas antes, Ambra estava em Madri para participar de um programa de TV matinal em que seria entrevistada sobre as próximas exposições no Guggenheim. O Telediario da RTVE era assistido por milhões de pessoas em todo o país, e Ambra estava meio apreensiva por aparecer num programa ao vivo, mas sabia que isso seria uma divulgação fantástica para o museu.
Na noite anterior ao programa, ela e Julián se encontraram para um jantar deliciosamente casual na Trattoria Malatesta, depois saíram discretamente para um passeio no Parque del Retiro. Vendo as famílias se divertindo e a quantidade de crianças rindo e correndo, Ambra sentiu-se em paz, entregue ao momento.
– Você gosta de crianças? – perguntou Julián.
– Adoro – respondeu ela com honestidade. – Na verdade, às vezes acho que essa é a única coisa que me falta na vida.
Julián deu um sorriso largo.
– Conheço esse sentimento.
Nesse instante, o modo como ele a encarou parecia diferente e, de repente, Ambra percebeu por que Julián estava fazendo essa pergunta. Um medo súbito a dominou e uma voz gritou em sua cabeça: Diga a ele! DIGA A ELE AGORA!
Tentou falar, mas não conseguiu emitir nenhum som.
– Você está bem? – perguntou ele, parecendo preocupado.
Ambra sorriu.
– É o Telediario. Só estou meio nervosa.
– Respire fundo. Você vai se sair muito bem.
Julián abriu um sorriso largo e depois se inclinou e lhe deu um beijo rápido e suave nos lábios.
Na manhã seguinte, às sete e meia, Ambra se viu num palco de TV, batendo um papo surpreendentemente confortável com os três charmosos apresentadores do Telediario. Estava tão envolvida no entusiasmo pelo Guggenheim que mal notava as câmeras e a plateia ao vivo, nem se lembrava de que havia cinco milhões de pessoas assistindo ao programa em casa.
– Gracias, Ambra, y muy interesante – disse a apresentadora enquanto o segmento chegava ao fim. – Un gran placer conocerte.
Ambra assentiu, agradecendo, e esperou que a entrevista terminasse.
Estranhamente, a apresentadora deu um sorrisinho e virou-se para a câmera, falando direto com os telespectadores.
– Esta manhã – começou ela –, uma pessoa muito especial fez uma visita surpresa ao estúdio do Telediario e nós gostaríamos de apresentá-la.
Os três anfitriões se levantaram batendo palmas enquanto um homem alto e elegante entrava no cenário. Quando a plateia o viu, saltou de pé, aplaudindo loucamente.
Ambra também se levantou, olhando chocada.
¿Julián?
O príncipe acenou educadamente para o público e apertou a mão dos três apresentadores. Depois foi até Ambra e passou o braço em volta dela.
– Meu pai sempre foi um romântico – disse olhando diretamente para a câmera, falando aos telespectadores. – Quando minha mãe faleceu, ele jamais deixou de amá-la. Eu herdei seu romantismo e acredito que, quando um homem encontra o amor, sabe disso num instante. – Julián olhou para Ambra e deu um sorriso caloroso.
– E assim… – Ele deu um passo atrás e a encarou.
Quando Ambra percebeu o que ia acontecer, ficou paralisada de incredulidade.
NÃO! Julián! O que você está fazendo?
Sem aviso, de repente, o príncipe herdeiro da Espanha estava se ajoelhando diante dela.
– Ambra Vidal, estou pedindo não como um príncipe, mas simplesmente como um homem apaixonado. – Ele a encarou com olhos turvos, e as câmeras deram um close em seu rosto. – Eu amo você. Quer se casar comigo?
A plateia e os apresentadores ofegaram, e Ambra sentiu milhões de olhos de todos os cantos do país focalizados nela. O sangue lhe subiu ao rosto e as luzes pareceram subitamente escaldantes. Seu coração começou a bater feito louco enquanto ela encarava Julián, com mil pensamentos correndo pela cabeça.
Como você pôde me colocar nessa situação?! Nós nos conhecemos há pouco tempo! Existem coisas sobre mim que não contei… coisas que poderiam mudar tudo!
Ambra não fazia ideia de quanto tempo ficara parada, num pânico silencioso, mas finalmente um dos apresentadores deu um riso desajeitado e disse:
– Acho que a Srta. Vidal está em transe! Srta. Vidal? Há um príncipe bonito ajoelhado à sua frente e declarando amor diante do mundo inteiro!
Ambra revirou a mente procurando algum modo gentil de sair da situação.
Tudo o que escutou foi silêncio, e soube que estava numa armadilha. Só havia um modo de este momento público terminar.
– Estou hesitando porque mal posso acreditar que este conto de fadas tem um final feliz. – Relaxou os ombros e deu um sorriso caloroso para Julián. – Claro que aceito me casar com você, príncipe Julián.
O estúdio explodiu em aplausos loucos.
Julián se levantou e envolveu Ambra com os braços. Enquanto se abraçavam, ela percebeu que os dois nunca tinham feito isso, até esse momento.
Dez minutos mais tarde, estavam sentados no banco de trás da limusine dele.
– Dá para ver que assustei você – disse Julián. – Desculpe. Eu estava tentando ser romântico. Tenho sentimentos fortes por você e…
– Julián – interrompeu Ambra enfaticamente. – Também tenho sentimentos fortes por você, mas você me colocou numa situação embaraçosa! Jamais imaginei que faria um pedido tão depressa! Nós mal nos conhecemos. Existem muitas coisas que preciso lhe contar… coisas importantes sobre meu passado.
– Nada do seu passado importa.
– Isso pode importar. Muito.
Ele sorriu e balançou a cabeça.
– Eu te amo. Não vai importar. Pode me pôr à prova.
Ambra examinou o homem à sua frente. Certo, então. Sem dúvida, não era assim que desejava ter essa conversa, mas ele não tinha lhe dado escolha.
– Bom, quando eu era pequena, tive uma infecção terrível que quase me matou, Julián.
– Certo.
Enquanto falava, Ambra sentiu um vazio profundo crescendo por dentro.
– E o resultado é que meu sonho de ter filhos… bom, não pode ser mais que um sonho.
– Não entendi.
– Julián – disse ela peremptoriamente. – Eu não posso ter filhos. Meus problemas da infância me deixaram estéril. Eu sempre quis ter filhos, mas não posso.
Sinto muito. Sei como isso é importante, mas você acaba de pedir em casamento uma mulher que não pode lhe dar um herdeiro.
Julián ficou branco.
Ambra o encarou, desejando que ele falasse. Julián, este é o momento em que você me abraça com força e diz que está tudo bem. Este é o momento em que você diz que isso não importa e que me ama mesmo assim.
E então aconteceu.