Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Direções de pesquisa

Num outro sentido, cabe ressaltar que alguns dos atores pesquisados aceitam a ideia de que a Universidade, sobretudo em função do novo compromisso colocado pelas ITCPs, que implica assumir sua parceria com empreendimentos autogestionários, enfrente o desafio da AST dispondo-se a produzir conhecimento que os tornem autossustentáveis. Tanto a universidade, em seu necessário processo de adequação às mudanças em curso no país, quanto os empreendimentos autogestionários, para se afirmarem como vetor competitivo de um rearranjo com características social e economicamente favoráveis para o país, sem esquecer as diversas instâncias de governo envolvidas com eles, poderiam beneficiar-se da reflexão que aqui se inicia.

Mas transcendendo o ambiente em que se situam esses atores e relações e incluindo o campo mais amplo da crescentemente aceita como inadiável transformação de nosso tecido econômico-produtivo, dados os constrangimentos que se avolumam nos âmbitos interno e externo, podem-se divisar outras justificativas para essa reflexão. Isso porque ela pretende incorporar aspectos que, além de indispensáveis para tratar seu tema central, podem interessar os envolvidos com as políticas, industrial, de C&T etc, que dizem respeito a esse campo. A seção que segue apresenta alguns desses aspectos.

 

Direções de pesquisa

Para conferir viabilidade aos ambiciosos impactos gerais que pretende e para alcançar seus objetivos, considera-se necessário explorar três direções de pesquisa. Definidas por critérios acadêmicos que levam em conta adicionalmente a oportunidade de aplicação de seus resultados e as demandas cognitivas identificadas no seu âmbito de intervenção, elas exploram aspectos teóricos, metodológicos e práticos da adequação da tecnologia convencional – nas suas dimensões hardware, software e orgware – aos empreendimentos autogestionários e à demanda das Redes de Economia Solidária.

As seções que seguem apresentam as três direções de pesquisa que se consideram necessárias trilhar e, de certa maneira, conformam a agenda formulada pelo autor.

A relação tecnologia, emprego e desenvolvimento

A situação até aqui comentada aponta a necessidade de que, de forma análoga ao que se identificou em relação às abordagens à questão da exclusão social, tratada anteriormente, se tente sugerir um conjunto de elementos que possam vir a servir para a formulação do diagnóstico da situação problema enfrentada pela Estratégia.

Para tanto, inicia-se por uma tentativa de entender a conjuntura atual a partir de aspectos relacionados à produção industrial, ao emprego e à tecnologia.

O que parece estar ocorrendo no país é uma diminuição do tamanho do setor produtivo (especialmente o industrial), tanto no que tange ao emprego como no que respeita ao volume do capital imobilizado e circulante, como consequência da rápida introdução de novas tecnologias no processo de produção e circulação de mercadorias (incluída aí a nova forma de organização do processo de trabalho).Tal processo possui uma intensidade variável, em função do grau em que o segmento econômico nacional se assemelha ao seu homólogo nas sociedades avançadas. Isto é, segmentos onde a difusão no novo paradigma ocorre lá com maior intensidade e rapidez tendem a transformar-se aqui de forma análoga (ou mais parecida). Especialmente, e não por acaso, aqueles em que empresas multinacionais são claramente dominantes e que, através do fluxo de tecnologia intramuros, aceleram essa difusão.

Alguns indicadores podem ser apresentados para ilustrar o processo em curso.

Entre 1991 e 2000, no país:

do ponto de vista quantitativo, o crescimento econômico

médio anual foi inferior a 2% e, dado que empregar os que

chegam ao mercado de trabalho (1,5 milhão por ano) exige

uma taxa anual superior a 5,5%, deixaram de ser criados

3,2 milhões de postos de trabalho formal (empregos com

carteira assinada);

do ponto de vista qualitativo, o coeficiente

importação/consumo de bens industriais passou de 6 a

15% (o de material de transporte de 5 a 23% e o de eletro-

eletrônicos de 10 a 66%) indicando que em segmentos

como esses houve uma substituição dos empregos

brasileiros com um certo nível de salário (e “qualificação”)

pelos gerados no estrangeiro;

No país, hoje:

entre as 500 maiores empresas, as de propriedade

estrangeira são responsáveis por 46% da produção

(quando, em 1985, eram 29%), o que mostra um quadro de

quase irreversibilidade do desemprego, mesmo caso em

que venha ocorrer uma retomada do crescimento

econômico;

também entre as 500 maiores empresas, as de

propriedade estrangeira são responsáveis por 92% dos

segmentos de eletro-eletrônicos, 85% dos de automóveis,

78% dos de computação e 74% dos de telecomunicações,

o que mostra que ao serem pressionados por um esperado

aumento de demanda, esses segmentos, já intensivos em

tecnologia, irão modernizar-se ainda mais sem que se

verifique um aumento substantivo no emprego.

Mas, de 1980 a 2001, os bens de consumo duráveis tiveram seu consumo ampliado (as famílias que possuem televisores e geladeiras passaram de 55 e 50% para 87 e 84%) graças a uma redução de preço real de 50%. Parecem ser a causa dessa evolução positiva para essas famílias, a redução das alíquotas de importação e o crescimento da empresa estrangeira.

De fato, a atual maior velocidade com que esses segmentos (e o de bens duráveis de consumo é o seu arquétipo) aumentam sua eficiência técnica lhe permite uma enorme redução dos custos de produção. Em nosso país, ao contrário do que ocorria no passado, ela hoje tende a ser repassada ao preço que praticam. A concorrência dos produtos importados passou a ter importância significativa nesse sentido.

Há aqui efeitos que tendem a se contrabalançar numa proporção variável no tempo e em cada segmento. Diminui o emprego e a massa de salários (ainda que em menor proporção) e diminui o preço real desse tipo de bens (duráveis de consumo), o que tende a levar a uma maior demanda dos mesmos. Potencializa esse processo a queda do preço relativo de alguns bens (de consumo não durável).

O fato de que a diminuição do preço relativo dos duráveis de consumo tem causado um efeito renda agregado maior do que aquele, negativo, que o desemprego tem provocado explicaria a convivência do desemprego massivo com o aumento da proporção de domicílios que possuem televisão e geladeira...

Há que se somar a esse quadro o impacto das atividades informais que por menos renda que gerem, contribuem para amenizar o efeito renda negativo recém-apontado. Iniciativas distributivas atuam no mesmo sentido e podem provocar um dinamismo econômico mesmo num quadro geral recessivo.

A potencialidade de efeitos desse tipo evidencia a necessidade de mapear, com objetivo de conformá-las de maneira apropriada (adequar e desenvolver tecnologia, promover capacitação etc) as cadeias de produção de bens e serviços a eles mais sensíveis promovendo o seu adensamento e ocupação pelas redes de economia solidária. Dessa forma, estar-se-ia evitando o “vazamento” desses efeitos promovidos pelo poder público, e com o objetivo integrado e integrador que caracteriza a Estratégia para outras regiões. E, também, coerentemente com a visão da Economia Solidária, para os circuitos dominados pela empresa convencional e pelo grande capital.

A probabilidade de viabilizar processos como esses depende, de maneira crucial, da capacidade em promover uma adequação sociotécnica que evite os inconvenientes da dependência tecnológica em relação ao exterior e, mais do que isso, a inadequação que essa tecnologia apresenta em relação aos objetivos da Estratégia.

Quanto ao primeiro ponto, cabe destacar que:

entre 1992 a 1997, quando o PIB aumentou 23%, a

importação de tecnologia (licenciamento, patentes etc)

cresceu 1000%; mas que, ao contrário do que ocorre nos

países emergentes da Ásia, onde importação de tecnologia

alavanca P&D local e promove o aumento da produção e

exportação de bens intensivos em tecnologia, isso não

correu aqui;

entre 1990 a 2000, o déficit de nossa balança desse tipo de

bens com os países avançados aumentou nove vezes;

o que indica que, tal como se tem observado em outros

países latino-americanos, uma sensível “especialização” da

região em produtos com pouca tecnologia incorporada.

Finalmente, voltando ao campo da relação pesquisa – produção ou universidade – setor produtivo, é conveniente adicionar alguns outros fatos estilizados e indicadores acerca de nossa realidade que contribuem para justificar a reflexão que aqui se faz no âmbito da universidade. Juntamente com os antes apresentados, eles parecem apontar para uma diferença entre as características que possuem em nosso país os arranjos institucionais e os comportamentos dos atores presentes no campo da relação pesquisa – produção vis-à-vis o panorama internacional. Diferença esta que parece sugerir a existência de um potencial de impacto econômico-social (em especial no que respeita à geração de trabalho e renda) maior, em nosso caso, dos empreendimentos autogestionários vis-à-vis à empresa privada convencional. O que levaria a estimar como de alto retorno a promoção de atividades de AST no sentido de proporcionar aos empreendimentos autogestionários, através do estreitamento de sua relação com a pesquisa pública e em particular a universitária, a eficácia técnico-econômica e a eficiência social que prometem.

Os indicadores que vale a pena destacar, e que como os anteriormente apresentados, possuem marcada atipicidade quando comparados com os dos países avançados e emergentes asiáticos, e clara relação com nossa situação periférica, são os seguintes:

notoriamente reduzidos indicadores relativos (ao PIB, ao dispêndio nacional em C&T, ao faturamento) de dispêndio em PD&E da empresa privada (a nacional devido à nossa situação economicamente periférica e culturalmente mimética e as transnacionais por razões também conhecidas);

relativamente baixa capacidade de absorção do pessoal pós-graduado (de 1980 a 2000, o número de doutores formados anualmente aumentou de 500 para 6000) na empresa privada (que é onde são empregados quase 70% desse tipo de pessoal nos EUA);

consequente maior dificuldade em potencializar a capacitação científica do complexo público das universidades e institutos de pesquisa em produção tecnológica na empresa privada quando comparada, inclusive com países de industrialização recente (os indicadores respectivos usuais, de artigos publicados e patentes registradas nos EUA anualmente, mostram que entre 1980 e 2000, enquanto no plano científico, tivemos evolução semelhante à da Coréia – passamos de 1900 para 9500 artigos, e ela de 230 para 12200 – no A situação caracterizada por esses indicadores fortalece a linha de argumentação anteriormente apontada, sobre a conveniência de que a universidade, no planejamento de suas atividades de pesquisa e extensão, passe a conferir às demandas por AST colocadas pelos empreendimentos autogestionários uma importância correspondente à posição cada vez mais destacada que eles tenderão a assumir e ao seu papel de aliado potencial capaz de viabilizar a estratégia da universidade de ampliação e adaptação ao cenário futuro.

tecnológico nosso desempenho foi sofrível: fomos de 23

para 98 patentes, e ela de 17 para 3300);

potencial de mobilização da capacidade de pesquisa

universitária pela empresa privada provavelmente ainda

menor do que o observado em países como os EUA onde

apenas 1,7% do que esta gasta em P&D é contratado com

a universidade;

potencial de captação de recursos para a universidade via

contratação de projetos de pesquisa com a empresa

privada provavelmente ainda menor do que o observado

em países como os EUA, onde apenas 3% do orçamento

da universidade provêm desta modalidade de pesquisa;

pouco comum e crescente hipertrofia do ensino superior

privado (sua participação no total de vagas, entre meados

dos anos 1960 e hoje, passou de menos de 40 para mais

de 60%, o que coloca o país em 8º lugar no ranking de

privatização do ensino superior);

aguda diferença de qualidade existente entre o ensino

superior público e privado;

extrema concentração das atividades de pesquisa e pós-

graduação na universidade pública;

provável ampliação do ensino superior com mudança

significativa de suas características e do modelo até agora

adotado, a julgar pela extremamente reduzida, mesmo em

comparação com outros países periféricos, parcela dos

jovens entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior

(ela é de 8% em nosso país e chega a 80% no Canadá) e

ao grande contingente de egressos do ensino médio de

baixa renda que passarão a pressionar a universidade

pública;

considerável perda de legitimidade social da universidade

pública, devido à limitada chance de mobilidade social que

oferece à classe baixa, escassa relevância da pesquisa

que desenvolve, tanto para esta como para o

empresariado; o que reduz sua capacidade de negociação

na alocação de recursos no nível federal;

A perspectiva sociotécnica

Esta direção de pesquisa está orientada por uma indagação sobre a adequação da tecnologia, em suas dimensões de hardware, software e orgware, concebida para empresas convencionais aos empreendimentos autogestionários. Isto é, se essa tecnologia de elevada escala e gestão hierarquizada, que torna cada vez mais produtivas e competitivas essas empresas, pode ser aplicada em contextos produtivos com características significativamente distintas.

O exame da questão da adequação deverá ser realizado através de uma incursão na literatura adstrita a diferentes matrizes disciplinares que, de modo significativamente diverso, abordam a relação entre as características do conhecimento científico e tecnológico e o contexto econômico-social em que se dá a sua produção.

Essa incursão na literatura deverá ser realizada explorando três grandes vertentes analíticas. São elas:

a sociologia da ciência e da inovação: desde o enfoque mertoniano – da interpretação do contexto social como um elemento perturbador da vigência do método, a ser mantido afastado do ambiente científico para garantir seu caráter verdadeiro – até as visões da “ciência negociada” de Latour e Callon e do construtivismo de Pinch e Bijker que a vê como uma construção que carrega consigo os determinantes intrínsecos ao contexto sócio-histórico que a originou;

a economia da tecnologia: desde a vertente neoclássica –

da tecnologia como uma simples combinação entre

quantidades variáveis de capital e trabalho determinadas

em função de parâmetros claramente sociais, a taxa de

juros e de salário – até a neoschumpeteriana e

evolucionista que pretendem ter aberto a “caixa preta” da

tecnologia, mas que, paradoxalmente, combinam a riqueza

de seu instrumental analítico com a visão determinista que

entende o avanço tecnológico como sendo inexorável e

determinante das transformações socioeconômicas;

teoria política do progresso técnico: desde a interpretação

marxista tradicional – das forças produtivas como motor da

história e determinante das relações de produção e da

irrupção de sucessivos modos de produção – até a visão

crítica da neutralidade, de Gorz, Coriat e Feenberg, que

também a partir do marxismo, entende a C&T produzida

sobre a égide de um dado regime social de acumulação

como sendo, não apenas por ele determinada, mas

inibidora de sua transformação e dificilmente utilizável na

construção de arranjos socioeconômicos alternativos.

Para que se possa avaliar as características do resultado a que se pretende chegar à exploração desta direção de pesquisa, vale a pena incluir, nas páginas que seguem, uma breve apresentação de alguns elementos dessas visões. Ela serve, também, para mostrar como a análise que se pretende realizar poderá levar a um tema ainda mais politizado do que aquele que começava a ser tratado por alguns autores que formularam a visão da dependência tecnológica nos anos 1960, quando entendiam a impossibilidade política de uma revolução democrático-burguesa na América Latina como um obstáculo ao desenvolvimento científico e tecnológico. (Varsavsky, 1969).

Trata-se de um tema radical, no sentido etimologicamente estrito do termo – ir à raiz – dado que se relaciona a uma indagação cada vez mais inevitável e radical: a pergunta sobre a possibilidade de o conhecimento científico e tecnológico desenvolvido num determinado contexto econômico e social ser utilizado para atender demandas materiais e necessidades humanas significativamente distintas.

A resposta positiva a essa pergunta, embora seja ainda dominante no ambiente da C&T e da opinião pública em geral, sobretudo no que tange ao conhecimento científico, vem sendo crescentemente questionada nos países avançados por pesquisadores ligados à tradição marxista. Eles entendem que a C&T produzida em nossa sociedade está relacionada às formas de produção e consumo que legitimam os interesses do grupo social dominante e por isto reforçaria os modelos hierárquicos e as formas autoritárias de controle capitalista, que ficam nela impregnados. O desenvolvimento da C&T se manifestaria, de forma material, mantendo e promovendo os interesses da classe social dominante e, de forma ideológica, por apoiar e propagar a ideologia legitimadora dessa sociedade.A C&T exerceria, assim, um papel político determinado pela distribuição do poder e o contrato social observado numa dada sociedade.

A natureza da C&T seria determinada pelo ambiente em que foi gerada e acabaria determinando a forma de organização social mais adequada à sua utilização. De um lado, as condições de valorização do capital e, de outro, o que não seria senão outro aspecto da mesma questão, a necessidade de reproduzir a base material, técnica, requerida pela reprodução das relações de produção.

A C&T que temos não seria funcional em relação à sociedade e à dominação capitalistas apenas pela divisão do trabalho refletida na linguagem, na definição, e na repartição das suas disciplinas. Ela seria também funcional pela sua forma de pôr certas questões, e não outras e de não levantar problemas que o sistema não possa resolver.

Levando mais adiante essa crítica, outra corrente marxista que defende a tese da não neutralidade da C&T e se origina no debate acadêmico da esquerda anti-stalinista dos países capitalistas avançados, tem como pano de fundo o debate da experiência soviética. Segundo ela, a inconclusividade da reflexão marxista tradicional sobre a neutralidade e a burocratização, que a adoção de formas capitalistas de produção e organização do trabalho teria provocado, seria uma causa determinante da degeneração do socialismo burocrático soviético.

Para essa corrente, a questão não seria criticar a forma como se dá a utilização das possibilidades que contém o conhecimento científico e tecnológico existente, buscando uma melhor aplicação deste conhecimento através de sua apropriação pelos atores interessados na mudança social. A questão seria compreender que o capital promove um tipo determinado de desenvolvimento e de socialização das forças produtivas nos quais supõe a função do dirigente ou do chefe e, por isso, o conjunto das forças produtivas – tanto sua configuração geral como seus aspectos particulares – revestem formas peculiares, capitalistas.

Assim, países formalmente socialistas, ao se haverem apropriado e subsequentemente desenvolvido uma maneira de produzir concebida num marco capitalista, tiveram que introduzir, para serem eficazes, formas de organização e controle social de caráter capitalista. Da mesma forma que o capitalista, para reproduzir sua dominação no processo de trabalho parcelado, deve reproduzir os meios de produção que são a base da divisão e parcelamento do trabalho, a adoção destes meios de produção tenderia a reproduzir o trabalho hierarquizado. Em outras palavras, se a condição de manutenção das relações capitalistas de produção é a reprodução de determinado tipo de meios de produção, que asseguram a vigência de determinado tipo de divisão do trabalho, um modelo alternativo de desenvolvimento social parece implicar inevitavelmente numa C&T alternativa.

Portanto, segundo essa corrente, toda tentativa de transformar significativamente as relações de produção capitalistas exigiria uma mudança radical, simultânea ou até mesmo prévia, dos meios técnicos de produção. O problema, portanto, não seria apenas a apropriação do conhecimento existente pelo ator político interessado na transformação da sociedade e sua utilização para esta nova finalidade: a manutenção da tecnologia existente faria ressurgir as relações de produção anteriores através da divisão capitalista do trabalho. Dessa maneira, aquele que aspire a uma sociedade diferente teria que estar disposto a imaginar uma maneira de fazer ciência distinta da atual; mais ainda, não teria mais remédio que desenvolvê-la, pois a existente não lhe alcançaria como instrumento para a mudança e a construção desta sociedade diferente.

Essa breve apresentação acerca de algumas das visões sobre a relação Ciência, Tecnologia e Sociedade que se pretende analisar é suficiente para melhor caracterizar o seu resultado esperado. Trata-se de formular uma interpretação crítica acerca da relação entre as características do conhecimento científico e tecnológico e o contexto econômico-social em que se dá a sua produção. Ao mostrar a pertinência do questionamento genérico realizado pela última dessas vertentes à apropriação do conhecimento pelo trabalhador direto como condição suficiente para a adequação da tecnologia convencional – em suas três dimensões – às novas relações técnicas e sociais de produção, pretende-se situar teoricamente o tratamento da AST. Um resultado preliminar dessa tentativa de referenciar a AST a essa problemática tendo como pano de fundo o contexto periférico específico brasileiro é a classificação das Modalidades de AST apresentada no final do capítulo seguinte.

Aspectos metodológicos

A segunda direção de pesquisa pretende conceber metodologias para a identificação e tratamento de oportunidades de AST junto aos atores ligados a empreendimentos autogestionários e a suas redes de assessoria, acompanhamento, financiamento e apoio – as Redes de Economia Solidária – e para o levantamento e acesso a alternativas tecnológicas passíveis de serem utilizadas.

A experiência adquirida com o desenvolvimento de instrumentos metodológicos para a Gestão Estratégica da Inovação, sintetizada em Dagnino... et al (2002), parece suficiente para conceber metodologias especialmente voltadas para a abordagem da questão da Adequação no âmbito das Redes de Economia Solidária. Por isso, esta direção de pesquisa terá como um de seus desenvolvimentos a avaliação da aplicabilidade desses instrumentos – especialmente as Metodologias de Mapas Cognitivos, de Análise Estrutural e de Identificação de Oportunidades de Inovação – e de outros a serem selecionados.

Um segundo desenvolvimento é o desenho de uma metodologia para avaliar a compreensão dos atores situados em Redes de Economia Solidária acerca da necessidade de AST das tecnologias envolvidas com suas atividades. Embora se apoie, também, em trabalhos já realizados (Higa; Dagnino, 2002), por partir de um nível de acumulação teórica bastante menor que o desenvolvimento anterior, ele merece uma breve referência.

O referencial de análise para avaliar a compreensão sobre a AST é constituído por duas variáveis: Modalidades de AST e Posturas dos Atores.

A AST, para fins operacionais, deve ser entendida como um processo que ocorrerá sempre que algum tipo de transformação venha a ocorrer na tecnologia empregada numa unidade produtiva. Sendo a tecnologia formada por um vasto conjunto de aspectos sociotécnicos que abarca, inclusive, a propriedade dos meios de produção, pode-se postular que, por exemplo, uma empresa privada que abre falência e é adquirida pelos trabalhadores que nela trabalham será palco de uma AST, mesmo que nenhum novo equipamento seja incorporado ou retirado da produção ou que se tenha alterado a organização do processo de trabalho. Isto porque o modo como se divide o excedente gerado é, como tantos outros tradicionalmente considerados como tais, um elemento integrante da tecnologia empregada na empresa privada.

A variável Modalidades de AST pode assumir seis valores associados ao nível, de cada vez maior complexidade e intensidade, em que um ator percebe a necessidade de AST. Nível este que parece derivar de sua experiência de vida e de trabalho, de sua visão de classe e da maneira como entende a relação entre o contexto socioeconômico e a produção de tecnologia.

São as seguintes as Modalidades de AST:

Uso: o simples uso da tecnologia (máquinas, equipamentos, formas de organização do processo de trabalho etc) já empregada antes (no caso de cooperativas que sucederam a empresas falidas), ou a adoção de tecnologia convencional, com a condição de que se altere a forma como se reparte o excedente gerado, é percebida como suficiente. Isto é, a AST não é percebida como necessária.

Apropriação: entendida como um processo que tem como condição a propriedade coletiva dos meios de produção (máquinas, equipamentos), ela implica em uma ampliação do conhecimento, por parte do trabalhador, dos aspectos produtivos (fases de produção, cadeia produtiva etc), gerenciais e de concepção dos produtos e processos, sem que exista qualquer modificação no uso concreto que deles se faz.

Ajuste do processo de trabalho: implica a adaptação da organização do processo trabalho à forma de propriedade coletiva dos meios de produção (pré-existentes ou convencionais) e à adoção da autogestão e consequente necessidade de adequação ao ambiente de trabalho e de produção democráticos ou a questionamentos sobre a divisão técnica do trabalho. Esta modalidade, que supõe um nível de AST superior ao uso e à apropriação, demanda atividades que podem ser assimiladas ao que tem ocorrido com a substituição do modelo organizacional fordista-taylorista pelo toyotista, embora neste caso em função de uma mudança na base técnica.

Alternativas tecnológicas: implica a percepção de que as modalidades anteriores, inclusive a do Ajuste do processo de trabalho, não são suficientes para dar conta das demandas por AST dos empreendimentos autogestionários, sendo necessário o emprego de tecnologias alternativas à convencional. A atividade decorrente desta modalidade é a busca e seleção de tecnologias existentes.

Incorporação de conhecimento científico-tecnológico existente: resulta do esgotamento do processo sistemático de busca de tecnologias alternativas e na percepção de que é necessária a incorporação à produção de conhecimento científico-tecnológico existente (intangível, não embutido nos meios de produção), ou o desenvolvimento, a partir dele, de novos processos produtivos ou meios de produção, para satisfazer as demandas por AST. Atividades associadas a esta modalidade são processos de inovação de tipo incremental, isolados ou em conjunto com centros de P&D ou universidades.

Incorporação de conhecimento científico-tecnológico novo: resulta do esgotamento do processo de inovação incremental em função da inexistência de conhecimento suscetível de ser incorporado a processos ou meios de produção para atender às demandas por AST. Atividades associadas a esta modalidade são processos de inovação de tipo radical que tendem a demandar o concurso de centros de P&D ou universidades e que implicam na exploração da fronteira do conhecimento.

A variável Posturas dos Atores pode assumir três valores associados a como eles se posicionam com o objetivo de materializar sua compreensão acerca da necessidade de AST das tecnologias envolvidas com suas atividades.

São as seguintes as Posturas dos Atores:

Discurso: corresponde à maneira como os atores se referem às modalidades de AST em artigos, declarações na mídia e entrevistas.

Proposição: idem através da apresentação de propostas, desenvolvidas a partir do discurso, projetos visando à obtenção de recursos para os empreendimentos (aquisição de máquinas e equipamentos, insumos etc).

Ação: corresponde à maneira como os atores atuam para materializar atividades relativas às modalidades de AST.

A consideração conjunta dessas duas variáveis – Modalidades de AST e Posturas dos Atores – leva à organização de uma matriz como a que segue para cada um dos atores pesquisados: