Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
A ideia de “operador”
partir das condições relativas aos contextos sociotécnicos40 correspondentes às tecnologias convencional e social. Ela decorre do fato de que o desenvolvimento de tecnologias alternativas e a TS, em particular, ainda não possui um referencial abrangente que ajude a apontar um caminho adequado. Falta-nos uma racionalidade crítica, alternativa àquela da tecnologia convencional.
Esse referencial abrangente ou racionalidade crítica alternativa que necessitamos para orientar o desenvolvimento de TS e, no estágio e situação em que nos encontramos para analisar experiências relacionadas à sua concepção, reaplicação etc., e cuja elaboração tem orientado o meu esforço em trabalhos anteriores é o que eu vou denominar adiante de “operador”.
A ideia de “operador”
Com a noção de “operador”, procuro explorar o fato conhecido de que o desenvolvimento de tecnologia convencional é o resultado de uma construção sociotécnica que, por se verificar ao longo de um processo tão complexo e sistêmico de coorganização, teve a ele associado por Hughes (1983) o conceito de “tecido sem costuras”, tal a dificuldade em identificar e separar, no contexto em que ele ocorre, o “social” do “técnico” e do “econômico”.
Mas para formular a noção de “operador”, foi necessário ir ainda mais além desse conceito já em si revolucionário para os que estudavam até então as relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Foi necessário juntar elementos que permitissem perceber que esse modo de desenvolvimento e esse “tecido sem costuras” que se nos afigura hoje de maneira naturalizada e a-histórica é uma “aparência” que, como outras tantas manifestações típicas do capitalismo, encobre uma “essência” que, para enfrentar o desafio de desenvolver e mesmo estudar TS, temos que desvelar.
A materialização dessa percepção se dá mediante a proposição de um “operador”, uma instrumentalização geradora que, idealizada tendo em vista o desenvolvimento de sistemas tecnológicos baseados em TS, seja capaz de auxiliar na concepção de uma metodologia para estudar a TS.
Uso aqui a expressão sistema tecnológico para enfatizar que, tal como proposto por Hughes (1983), no plano descritivo-explicativo para denotar um conjunto complexo que associa conhecimentos científicos, dispositivos técnicos, jurídicos, políticos, econômicos, organizacionais etc., e se define mediante uma reorganização do mundo físico e social de maneira a equacionar problemas visualizados como tais pelos integrantes do sistema, devemos entender a TS, agora no plano normativo que caracteriza o nosso trabalho, como um sistema.
Isto é, que devemos entender o desenvolvimento de TS como um processo de concepção coletiva que reúne e coordena elementos heterogêneos – atores sociais (movidos por valores e interesses, ao mesmo tempo particulares e prenhes de alianças políticas) e recursos (de poder político, cognitivos, econômicos) com características e competências diferentes – e que tende a uma estabilização conjunta do “social” e do “técnico” etc., que conduz a arranjos híbridos, nos quais os elementos tecnológicos e sociais (sociotécnicos) estão indissociavelmente misturados.
Ou ainda, que devemos entender que o “desenvolvimento de uma TS” só ocorrerá de fato quando a imbricação desses diferentes elementos, que de acordo com nossa percepção crítica acerca da
Neutralidade e do Determinismo da tecnociência 41, incorporam interesses e valores do contexto sociotécnico em que ela ocorre, enseje uma estabilização. Uma estabilização semelhante àquela que caracteriza a ideia de sistema tecnológico conforme descrito pela literatura sobre construção sociotécnica para os artefatos tecnológicos que nos chamaríamos de convencionais ou capitalistas. Mas, ao mesmo tempo distinta, ou simétrica, dado que marcada por interesses e valores opostos, no plano do antagonismo intrínseco ao capitalismo, aos do capital.
O “desenvolvimento de uma TS”, que idealmente ocorrerá, ao longo de uma trajetória, que tenho denominado de Adequação Sociotécnica, só estará completado, quando se tornar impossível “recortar”, no âmbito de um tecido uniforme e “sem costuras”, que se irá constituir, os pedaços do “social”, do “técnico” e do “econômico” que se irão co-organizando. Esse tecido se apresentará de uma forma semelhante àquela, naturalizada, que envolve os sistemas tecnológicos capitalistas que conhecemos.
O desenvolvimento de tecnologias alternativas, entendidas como aquelas que apresentam características que as distinguem daquelas (convencionais) que são desenvolvidas para ou pelas empresas, tem sido realizado, seja pelos participantes do movimento de tecnologia apropriada seja pelos que hoje se engajam no de TS, em função de algum tipo de desconforto em relação à tecnologia convencional ou a situações que envolvem ou propiciam a sua concepção.
Como costuma ocorrer em situações em que algum tipo de desconforto suscita a ação de algum ator social, o processo de desenvolvimento de TS é marcado por iniciativas esparsas, de natureza frequentemente individual. Mais importante, elas não se orientam para satisfazer alguma demanda (entendida como uma necessidade apoiada por poder de compra) previamente identificada; o que faz que seu processo de desenvolvimento tenda a ser bem menos direcionado e conscientemente estimulado do que aquele que tem tido como resultado a TS.
Esse fato, que distingue o processo de desenvolvimento de tecnologia convencional daquele da TS, faz com que ele tenda a ser condicionado pelas idiossincrasias de cada ator social que, em geral, de modo individual e fora de seu contexto rotineiro de atuação profissional, se mobiliza baseado em princípios éticos ou morais (e não em busca do lucro) visando a alterar aquela situação.
Dada a importância e urgência que envolve o desenvolvimento de TS, considero que ele não pode estar sujeito a uma lógica dessa natureza. Portanto, e sem desprezar o que é essencial ao movimento de TS – seu engajamento com os princípios da Economia Solidária e da autogestão e o compromisso de muitos de seus integrantes com a construção de uma “outra sociedade” – considero necessário que se procure conferir um caráter sistemático e racional ao processo de desenvolvimento de TS.
É coerentemente com essa opinião, e correndo o risco de ser mal-entendido, mas buscando justamente o contrário, que me atrevo a elucubrar (ou divagar), no plano abstrato das ideias, mas sem perder de vista o objetivo de desenvolver TS, sobre como se poderia chegar a conferir aquele caráter sistemático e racional a esse processo.
Começo minha incursão externando minha opinião de que para tanto é necessário conceber um “mecanismo” que – claro que no plano das idealizações – “opere” o desenvolvimento de TS. Esse “mecanismo” que vou denominar “operador”, quando “aplicado sobre” uma tecnologia convencional e levando em conta os aspectos do contexto (ou ambiente) sociotécnico em que a ela está inserida, seria capaz de apontar um caminho seguro para a sua desconstrução e posterior reconstrução tendo em vista outro contexto sociotécnico, coerente com a Economia Solidária. Em outras palavras, algo que ajudasse a materializar a proposta Adequação Sociotécnica que leva ao desenvolvimento de TS.
Na base da proposição acerca da concepção de um “operador” capaz de – no plano abstrato das ideias – operar com essas características, estão três conjuntos de ideias; todos eles sintetizados mais adiante neste capítulo. O primeiro é o relacionado à proposta Adequação Sociotécnica, que formulei inicialmente em 2002. O segundo se refere aos conceitos de Instrumentalização Primária e Secundária formulados por Feenberg. O terceiro se relaciona à idealização do processo de coorganização que teria dado origem ao contexto sociotécnico capitalista, realizada num trabalho mais recente.
Essa proposição – simples e intuitiva – parte, então, de duas suposições. A primeira é a de que é possível resumir a enorme quantidade e variedade de fatores que condicionam o processo de desenvolvimento de tecnologia convencional assimilando-os a um “operador” que as explicitasse de forma sistemática e
compreensível 42. Ou seja, que “traduzisse” o complexo processo de construção sociotécnica que origina a tecnociência capitalista (ou o enorme conjunto de artefatos tecnológicos que a constituem) em função dos valores e interesses hegemônicos nos ambientes onde é gerada. Ou ainda, que “materializasse” a concepção contrária à da Neutralidade e do Determinismo explicitando, para cada artefato
tecnológico capitalista 43 o “como, quando, aonde e quem” que relaciona os condicionantes dos respectivos contextos às suas características.
A segunda suposição é a de que esse “operador” pudesse agir também no sentido contrário. Isto é, que ao esclarecer o processo de construção sociotécnica da tecnologia convencional, pudesse esclarecer também o processo análogo, mas em certo sentido simétrico, de desenvolvimento de TS. E, por esta via, operar sobre uma dada tecnologia convencional situada num dado contexto sociotécnico indicando como conduzir o processo de Adequação Sociotécnica, entendido como aquele que leva ao desenvolvimento de TS.
Alguém poderia dizer, e estaria quase certo, que tal “operador” já existe. E que já foram realizados muitos estudos a partir de um marco analítico-conceitual relativamente bem formulado e testado a partir de estudos de caso acerca do processo de construção sociotécnica “capitalista”. E, há também outros estudos, ainda que em menor número (como o de Noble acerca do desenvolvimento da máquina-ferramenta de controle numérico), que evidenciam como a adoção pelos engenheiros de critérios “não técnicos” atuaram no sentido de inibir o controle dos operários sobre o processo de trabalho. Existem, finalmente, outros, que politizando o tema até o ponto de argumentar a existência de um caráter de classe na orientação da construção sociotécnica (vale a redundância: “capitalista”) mostram como a mobilização de atores até então excluídos do processo logrou sua radical reorientação (como é o caso dos trabalhos sobre “racionalização subversiva” de Feenberg que analisam os programas de Aids).
Mas, sem tirar a razão daqueles que argumentam nesse sentido, insisto em nosso compromisso de mais longo prazo que não se restringe ao difícil trabalho de documentar e analisar experiências de geração e reaplicação de TS, demanda um passo mais ambicioso. Trata-se de, como indicado acima, conceber um “operador” que indique um caminho mais seguro para o desenvolvimento de TS.
Para exemplificar, tomo a TS bem conhecida, no Brasil, das cisternas concebidas para a coleta da água da chuva em comunidades rurais. Como se sabe, ela pode ser considerada como uma alternativa a um sistema centralizado de distribuição de água obtida mediante a captação em algum manancial de superfície ou da perfuração de um poço, e armazenada em tanques de grande capacidade através de bombeamento.
É possível imaginar uma situação remota no tempo que – hipotética e teoricamente – teria dado origem a cada um desses sistemas tecnológicos como sendo aquela em que um grupo humano, situado numa localidade às margens de um manancial, fizesse o uso da água para satisfazer suas necessidades mediante seu deslocamento até ele ou mediante o transporte da água até as moradias. E, à medida que o adensamento populacional em torno dessa primeira localidade fosse ocorrendo, tornasse-se contraproducente para as famílias recém-chegadas.
Identificar os elementos do contexto sociotécnico que levaram, de forma mais ou menos generalizada, no noroeste do planeta e no âmbito de modos de produção ainda não identificáveis como capitalistas, a adoção do sistema centralizado de distribuição de água é o exercício que se propõe como inicial para a concepção do “operador”.
Fica ao “leitor aplicado”, como se escrevia nos meus textos de escola, a tarefa de prosseguir com essa análise e utilizar a proposta aqui apresentada para tratar outros casos similares.