Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Completamento, adensamento e entrelaçamento de cadeias produtivas
Moda da agricultura familiar é vendida em Mônaco. Vestidos e
blusas de artesãs do projeto Talentos do Brasil serão
comercializados em uma loja de produtos ecológicos e da
economia solidária em Mônaco, microestado situado ao Sul da
França, a partir da próxima semana. São peças dos grupos
Florestas, do Amazonas, e Lã Pura, do Rio Grande do Sul. A
venda é fruto da negociação feita pelo Talentos durante a feira
de moda Prêtà-Porter, que aconteceu na cidade de Paris, em
setembro de 2010. (Talentos, 2011).
Como outras iniciativas que têm sido aludidas como êxitos que mostram a capacidade que possuiriam os empreendimentos solidários para produzir bens e serviços de “qualidade”, com eficiência etc., ela denota uma visão que me parece equivocada. A qual, lamentavelmente, há que reconhecer, não é rara. Talvez seja até majoritária, a julgar pelas 1450 citações, algumas com um claro tom ufanista, que recebeu na internet o conjunto de palavras “Moda da agricultura familiar é vendida em Mônaco”.
Completamento, adensamento e entrelaçamento
de cadeias produtivas
Nesta seção, depois de ter esclarecido que a relação que a Economia Solidária deveria manter com o setor formal, que não seria nem de fechamento nem de rompimento, procuro explicar com algum detalhe o tipo de relação de encadeamento que deveria ser buscado entre os empreendimentos solidários.
Gostaria de retomar o que falei, no início, sobre o fato de que entre os empreendimentos solidários praticamente não existem relações de compra e venda, que não há complementaridade, colocando a pergunta acerca de como fazer para que a ES venha a produzir insumos, serviços e bens finais, para ela mesma ou para serem consumidos pelo restante da população sem passar pelo mercado.
Se o nosso problema não é incluir os hoje excluídos no setor formal, mas sim na ES, promover o encadeamento dos empreendimentos solidários passa a ser essencial. Fala-se, há muito tempo, em completar as cadeias produtivas da ES; isto não é novidade para ninguém. Talvez a coisa nova que vou abordar seja a de complementar essa ideia com as operações que implicam fazê-lo à jusante e à montante, e as noções de entrelaçar e adensar.
O que proponho tem a ver com a necessidade de ir um pouco além, de “tecer” com mais finura, para alcançar um maior nível de sofisticação, no momento de elaborar políticas para a ES. Isso porque, entre outras coisas, os mecanismos de indução ao movimento à montante e à jusante são diferentes. Questões relativas aos graus de liberdade, a flexibilidade tecnológica que se tem à montante e à jusante da cadeia podem ser razoavelmente diferentes: substituir bens de consumo pode ser mais fácil do que substituir os insumos que são incorporados a estes bens de consumo etc.
Para explicar a noção de completamento de cadeias produtivas, podem-se pensar dois exemplos muito simples. Para a cadeia da coleta e reciclagem de alumínio, um completamento à jusante, na direção do aproveitamento da sucata, seria a produção de panelas. Para a cadeia de processamento de alimentos, um completamento à montante seria, por exemplo, aquele na direção da obtenção dos insumos necessários para a cocção: a produção de panelas.
Mantendo os exemplos e pensando que seria pouco provável que um grupo de senhoras que processa alimentos possa vir a avançar na sua cadeia fundindo as panelas de alumínio, que precisa para cozinhar, surge a noção de entrelaçamento de cadeias: a comida produzida por elas poderia ser trocada pelas panelas produzidas na cadeia que se inicia na coleta e reciclagem de alumínio para alimentar as pessoas com ela envolvidas.
Tomando ainda como exemplo da cadeia da coleta e reciclagem de alumínio, é fácil imaginar que a mesma atividade de fundição que daria início à produção de panelas poderia originar processos de produção de laminados ou trefilados para fabricar esquadrias de alumínio e outros produtos como fogões, móveis etc. O resultado seria o completamento da “cadeia do alumínio” que, anteriormente, terminava com a operação de venda da sucata coletada aos atravessadores. Os quais iriam – eles, e não os trabalhadores envolvidos com a coleta – fornecer matéria-prima para cadeias situadas no setor formal.Vale ressaltar, ainda a título de exemplo, que esse completamento poderia, por sua vez, gerar um entrelaçamento com a cadeia de construção de moradias e prédios públicos situada na própria Economia Solidária.