Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Considerações finais
Figura 4 – Vantagens Cooperativas
A prospecção e “mineração” de outras “vantagens cooperativas” é uma atividade suplementar necessária para ampliar o leque de capacidades da comunidade passíveis de serem utilizadas. Sua realização se verá facilitada caso já se tenha uma razoável ideia acerca de quais demandas identificadas mereceriam atenção imediata.
Considerações finais
A tipologia das seis situações típicas e os procedimentos de avaliação das “vantagens cooperativas” e das demandas relacionadas a uma dada comunidade situada na economia informal compõem um conjunto a ser utilizado para orientar a escolha de oportunidades de AST. Esse conjunto irá indicar em cada circunstância concreta a melhor forma de promover a expansão da ES e as providências que deverão ser tomadas para que uma atividade (ou cadeia produtiva) pertencente à economia formal seja incorporada à ES ou vice-versa.
A natureza dessas providências dependerá de uma decisão acerca de qual limite ou gradiente deverá concentrar os esforços visando a sua alteração e da consideração das “vantagens cooperativas” e demandas. Em outras palavras, a ação de expandir o espaço da ES “invadindo” a economia formal, ou de impedir a captura de alguma atividade ali realizada pela economia formal, depende da consideração por parte da comunidade acerca do conjunto formado pelos três procedimentos. A decisão acerca das situações típicas (Qual delas é possível atuar? Sobre qual delas temos maior governabilidade? Qual delas é conveniente atacar em primeiro lugar?) deve ocorrer em paralelo ao emprego dos outros dois procedimentos.
Cabe ressaltar que o que acabo de descrever, embora se assemelhe mais a um conjunto de recomendações para a ação concreta dos partidários da ES visando à exploração de oportunidades de AST e ao desenvolvimento de TS (e, na verdade ele poderia ser usado com este objetivo), ele pretende ser um guia para a escolha de processos a observar ou “casos” a estudar. A ideia é, então, conferir prioridade a casos em que uma análise iterativa da tipologia das seis situações típicas e dos procedimentos de avaliação das “vantagens cooperativas” e das demandas de uma dada comunidade, isto é, do conjunto sugerido, indique um balanço favorável.
Em ambos os casos, quer se trate de uma ação concreta ou de uma atividade de pesquisa, um passo importante seria a elaboração de uma matriz de “vantagens cooperativas” (capacidades ou potencialidades) e respectivas quantidades que seriam necessárias para a satisfação das demandas materiais identificadas. Embora essa tentativa de compatibilização ou ajuste entre o “lado da oferta” (“vantagens cooperativas”) e o “lado da demanda” (demandas materiais identificadas) esteja referida como algo a posteriori, como um resultado de dois levantamentos anteriores, é compreensível que os três procedimentos devam ser realizados em paralelo, como um conjunto.
Isso posto é possível avançar um pouco mais na explicitação da metodologia que está sendo construída. Para isso, há que lembrar que a ideia é promover um processo de compatibilização ou ajuste que se assemelhe ao movimento de coorganização (ou auto-organização) que originou o trânsito da economia informal para a formal ao longo da expansão do modo de produção capitalista. Movimento que, evidentemente, não ocorreu como o resultado do que aqui estamos decompondo em três momentos: identificação de demandas e de “vantagens cooperativas”, e compatibilização ou ajuste. O fato de que o processo que se está tratando deva ter um grau de racionalidade e intencionalidade superior, sobretudo porque se trata de um movimento contra-hegemônico, não deve implicar que se entenda os dois momentos como independentes e o terceiro como necessariamente posterior a eles.
O processo de compatibilização ou ajuste se processa a partir das matrizes relacionando as “vantagens cooperativas” da comunidade analisada e as quantidades associadas às demandas materiais identificadas. A consolidação de todas essas informações em projetos a serem financiados pelo Estado é o último e indispensável passo a ser dado.
A esse respeito, convém lembrar que, embora se costume ressaltar que os ESs devem ser sustentáveis (econômica, social e culturalmente) para poderem se liberar de sua sujeição ao Estado, para assim não se subordinar a suas normas discriminatórias, sobreviver sem o aporte de recursos públicos, manter seus valores e práticas, não se deve esquecer de que a empresa privada não sobrevive sem o Estado. É ele que produz a estrutura econômico-produtiva (comunicação, transporte, energia etc.) e regula a legalidade (financiamento, impostos, preços, subsídios, salários etc.) que viabilizam a atuação das empresas e asseguram o lucro. Além do que é o Estado que cria e sustenta os arranjos institucionais que produzem o conhecimento incorporado – no sistema de ensino e pesquisa, em artefatos tecnológicos e em mão de obra qualificada – e desincorporado – a C&T – necessário à operação das empresas. É também o Estado que engendra e mantém a superestrutura político-ideológica que assegura (e naturaliza) as relações sociais de produção assimétricas e antagônicas imprescindíveis para a reprodução do capital e socorre as empresas, injetando recursos quando “necessário”, ou lhes concede favores suplementares quando as outras funções não geram condições suficientemente atrativas.
Por isso, é economicamente justificável e socialmente legítimo que a ES e os ESs que brotam da economia informal contem com um apoio do Estado proporcional à parcela da PEA que neles buscam meios para sobreviver ou, pelo menos, ao volume de recursos que operam.
Voltando à construção da metodologia, é conveniente salientar que as atividades AST devem situar-se na intersecção de dois planos. Um, que se encontra na base física das demandas materiais de comunidades excluídas e dos bens e serviços de natureza coletiva, que não devem passar pelo mercado e que podem por elas ser produzidos. Outro, também dado, em que se situam as potencialidades cognitivas, organizacionais e também físicas que constituem as “vantagens cooperativas” dessas comunidades. Em outras palavras, e sendo mais normativo, as atividades AST devem materializar a vocação “costuradora” de combinar o objetivo de solucionar problemas locais sentidos por comunidades excluídas (ou pela coletividade mais ampla, que cabe ao Estado providenciar utilizando seu poder de compra) com as suas próprias habilidades, saberes, idiossincrasias e visões de mundo. A AST, então, supõe conceber atividades com características específicas, fortemente aderentes a esses dois conjuntos de condicionantes e às oportunidades de compatibilização ou ajuste.
Há que voltar um pouco atrás, agora, para retomar a consideração do primeiro componente tratado,aquele referente às seis situações típicas desencadeadoras do trânsito do capital entre a economia formal e a informal. Ou, melhor dizendo, para incorporá-lo ao conjunto de quatro procedimentos que, finalmente, consubstanciam a metodologia aqui proposta.
A figura 5 proporciona uma imagem dos atributos de interatividade e
iteratividade, que correspondem à ideia de momento 37, dos quatro procedimentos que integram a metodologia.
Figura 5 – Os quatro procedimentos da metodologia
Uma última consideração diz respeito ao princípio de economicidade que deve orientar o trabalho de pesquisa. E que aumenta a efetividade de nossa energia intelectual, física e financeira para situações (casos) em que o balanço entre esses dois conjuntos (ou a intersecção daqueles dois planos) seja o mais possível iluminador de caminhos de AST passíveis de serem aproveitados em outras iniciativas. O que significa, em outras palavras, que nossa atenção deve estar focada prioritariamente na análise de situações em que a combinação – invertendo agora a ordem, uma vez que parece ser esta a metodologicamente mais apropriada – entre as potencialidades da comunidade (que por as possuírem deveriam ser escolhidas) e as demandas materiais a serem satisfeitas.