Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
4 - Em direção a uma teoria crítica da tecnologia
4 – Em direção a uma teoria crítica da
tecnologia
Introdução
A motivação deste capítulo é a constatação da fragilidade analítico-conceitual com que se tem abordado a questão do desenvolvimento de tecnologias alternativas à tecnologia convencional (produzida pela e para a empresa privada) e adequadas ao que se tem denominado, em nosso meio, empreendimentos solidários. Este capítulo trata de uma das dificuldades que isso representa para aqueles que se colocam numa perspectiva acadêmica, ao lado dos movimentos sociais que buscam a inclusão social. Uma dificuldade que não tem permitido a concepção de um conjunto de indicações de caráter sociotécnico alternativo ao atualmente hegemônico capaz de viabilizar o objetivo da inclusão social. E que, em consequência, não se disponha de uma “planilha de cálculo” capaz de orientar as ações de desenvolvimento tecnocientífico dos atores envolvidos com esses empreendimentos: gestores das políticas sociais e de Ciência e Tecnologia (C&T), professores e alunos que atuam nas incubadoras de cooperativas, técnicos de institutos de pesquisa, trabalhadores etc.
Seu objetivo, entretanto, não é tentar conceber esse conjunto de proposições, coisa que tem preocupado um número crescente de pesquisadores do tema e que temos tentado realizar em outros trabalhos. Isso porque não nos parece possível avançar muito mais
do que aquilo que tem sido sugerido17 caso não se altere a estratégia (ou procedimento metodológico) que tem sido utilizada para construir o marco analítico-conceitual necessário para a concepção daquele conjunto de proposições capaz de orientar o desenvolvimento de tecnologias. Isto é, a estratégia que procura construir esse marco e conceber esse conjunto, partindo de uma consideração do que se entende como implicações (ou efeitos) sociais, econômicas, políticas, ambientais etc. negativas da tecnologia convencional (TC) e colocando como meta a ser perseguida uma tecnologia que não determine estas implicações. Ou seja, buscando o desenvolvimento de algo-que-não é o que não
queremos: a Tecnologia Alternativa (TA)18.
Estamos conscientes de quão longo é o caminho que é necessário percorrer do ponto em que estamos até aquele em que seremos capazes de construir esse marco e conceber esse conjunto. Se buscamos desbravá-lo é porque ele nos parece essencial para atingir o objetivo colocado pelo viés policy oriented que caracteriza nosso trabalho.
Nosso propósito, neste trabalho, é, então, a partir da estratégia que
passamos a adotar 19, dar um primeiro passo na análise sobre os elementos que deveriam abarcar uma teoria crítica da tecnologia para dar conta desse desafio. Para isso, ele busca se afastar o mais possível da trajetória que aquela estratégia privilegia. E é, por isso, que ele busca identificar, no âmbito de um contexto socioeconômico genérico, as características do processo de trabalho em que se envolvem os seres humanos. Dentre elas, considera-se como central e ao mesmo tempo variável, em função de aspectos daquele
contexto, o controle 20.
A partir dessa abordagem genérica, buscamos entender as especificidades da tecnologia capitalista. O resultado mais importante desse esforço, tendo em vista nosso objetivo de proporcionar um referencial para o desenvolvimento de TA, é a proposição de que aquilo que caracteriza a tecnologia capitalista ou a tecnologia convencional não é a propriedade privada dos meios de produção e sim o tipo de controle que ela determina.
A ideia de que o controle é uma característica das mais importantes da tecnologia capitalista não é nova. Além dos autores já citados, podemos indicar, entre outros, Edwards (1990), Hirschorn (1984), Ramalho (1991). O que nos parece original no que propomos é a ideia de que o controle seja um atributo inerente a qualquer forma de produzir; e não uma particularidade da forma de produzir capitalista. Ideia a qual chegamos ao longo de nossa tentativa de explicar porque não basta para construir formas solidárias de produção a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Na verdade, o fato de que o tipo de controle que o acordo social que a propriedade privada impõe fica impregnado na forma de produzir (tecnologia) capitalista é um obstáculo central que não tem merecido a importância devida. Uma das “inovações” de nossa proposta é que a propriedade privada dos meios de produção deve ser considerada para fins de análise como um elemento exógeno ao ambiente produtivo. Por ser um elemento que condiciona o tipo de acordo social necessário para que exista a cooperação para a produção que qualquer configuração do processo de trabalho demanda, a propriedade privada dos meios de produção possibilita o estabelecimento do controle que irá presidir a concepção e utilização da tecnologia capitalista.Tecnologia que – e esta é para nós uma questão central – pode guardar consigo esse tipo de controle mesmo quando deixe de existir esse elemento exógeno.