Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
A construção histórico-social do “inovacionismo” e a naturalização da ideia de incubadora de empresas
Na realidade, o que interessa às empresas dos países avançados, e o que as torna competitivas, não é o conhecimento desincorporado resultante da pesquisa realizada na universidade e sim o incorporado em profissionais que ela forma através da pesquisa que realiza. Prova disso, é que, nos EUA, apesar do pouco interesse das empresas na pesquisa feita na universidade, quase 70% dos mestres e doutores formados, a cada ano, em “ciências duras” vão para a empresa fazer pesquisa.
A construção histórico-social do
“inovacionismo” e a naturalização da ideia de
incubadora de empresas
Nesta seção, de forma precária (e preliminar, uma vez que pretendo desenvolver o assunto em outro trabalho), coloco algumas elucubrações acerca de um aspecto que parece fundamental para entender as direções de avaliação das incubadoras de cooperativas que estou sugerindo.
Há centenas de anos, a universidade forma os filhos da classe dominante capacitando-os profissionalmente para gerir de maneira eficiente os seus negócios. Já há bastante tempo, tanto os proprietários das empresas quanto os seus prepostos (os engenheiros, administradores etc.) vêm recebendo na universidade o conhecimento necessário para tanto. E, a partir do início do século passado, com as mudanças então em curso no capitalismo, algum conhecimento passou a ter que ser absorvido pela empresa através da via da pesquisa. E algumas habilidades até então pouco tratadas na universidade passaram a ter que ser também adquiridas por essa via.
A “história oficial” de que as incubadoras de empresas (e dos parques e polos de tecnologia) teriam surgido como uma emulação de experiências “casuais” que “deram certo” como as do Silicon Valley, da Rota 128 etc., é pouco provável. Muito mais plausível é a interpretação de que a partir da década de 1970, as mudanças em curso na forma capitalista de produzir estivessem a demandar dos egressos das universidades um tipo de capacitação que elas não lhes estavam proporcionando. Assim, aquilo que viria a ser conhecido como “empreendedorismo”, e que exigia algo mais do que aquele procedimento convencional de absorver “pela via da pesquisa” as habilidades para a reprodução do capital no seio das empresas, passou a ser ensinado nas universidades.
Se isso é assim, o arranjo institucional incubadoras de empresas proposto pela política de C&T e de ensino superior dos países de capitalismo avançado seria resultante da percepção de que não bastava, para assegurar a competitividade das suas empresas, que os profissionais graduados e pós-graduados nas universidades, e que ali aprendiam a pesquisar, fixassem-se nos centros de P&D empresariais. Era necessária a formação de uma elite dentro da elite, que fosse portadora de uma habilidade empreendedora até então pouco percebida como importante e passível de ser oferecida pela universidade. Um tipo de profissional que fosse capaz de empreender empresas de novo tipo – as “empresas de base tecnológica” – e, ao mesmo tempo, de contaminar, com a lógica que as caracteriza e diferencia, os tecidos empresariais em processo de anquilosamento como o estadunidense.
Até os anos de 1970, pensava-se que o sucesso das empresas dependia de sua capacidade de incorporar resultados da P&D que realizava aos seus produtos e processos, e o conceito de inovação estava estreitamente ligado a esta capacidade. Em consequência, as políticas públicas tinham como foco o estímulo à P&D empresarial e a formação de profissionais capazes de levar a cabo esta atividade. A partir de então, passou-se a entender o conceito de inovação como dependente, vale a redundância, da “capacidade de inovar”. Isto é, de realizar um conjunto de atividades que, embora seguisse incluindo a P&D, dependia da aquisição de máquinas e equipamentos, da organização da força de trabalho, das técnicas de gestão, do marketing etc. E que todo esse conjunto deveria ser subsidiado mediante políticas públicas orientadas às empresas e, no âmbito da universidade, entendido como um “pacote”, que tinha como eixos o empreendedorismo e o “inovacionismo” a ser oferecido aos professores e ensinado aos estudantes.
O fato de que os partidários das incubadoras de empresas tenham sempre tentado justificar o gasto público que por intermédio da PCT foi (e continua sendo) canalizado para a sua instalação e manutenção, através dos impactos no nível de emprego e de atividade econômica, no desenvolvimento tecnológico etc., das empresas incubadas, nunca chegou a iludir aqueles que conhecem a dinâmica da relação Ciência Tecnologia-Sociedade. Embora eu tenha escrito artigos e orientado trabalhos de mestrado e doutorado mostrando, inclusive, com apoio em evidência empírica e informação quantitativa sobre os recursos públicos dedicados à criação e manutenção das incubadoras de empresas, que eles eram desproporcionais ao resultado obtido em termos do número e do impacto econômico-social ou tecnológico das empresas geradas, este procedimento foi sempre mais de caráter tático do que estratégico. Mais uma crítica interna, que partia de uma aceitação dos argumentos apresentados pelos partidários das incubadoras de empresas do que por uma crítica externa que os questionasse liminarmente.
Lançando mão novamente do arriscado procedimento de adivinhar intenções, diria que é pouco plausível que esses partidários, muito bem familiarizados com essa dinâmica, acreditassem, de fato, que as incubadoras de empresas pudessem vir a produzir tais impactos. Seu discurso, que tenta legitimar a sua ação e manter o aporte de recursos públicos apresentando informação, inclusive quantitativa, sobre os êxitos alcançados, é tão frágil que é difícil acreditar que tenha sido ele o responsável pela manutenção deste aporte.
É muito mais provável que a intenção desses partidários fosse de fato proporcionar aos futuros líderes empresariais, através de sua capacitação nas incubadoras, um tipo de habilidade que a universidade não era capaz de oferecer. Dessa forma, as incubadoras estariam, independentemente do seu êxito ou fracasso no processo de incubação de empresas, contribuindo para a dispersão, no âmbito dos atores presentes no mundo empresarial, daquelas habilidades que este estava passando a lhes demandar. E, ainda mais importante e realista, contribuindo para disseminar a ideologia do “inovacionismo”; um dos componentes mais poderosos do arsenal usado pelos partidários do neoliberalismo para introduzir sua racionalidade produtivista e cientificista na universidade.