Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
A dimensão “Adequação Sociotécnica”
Adequação Sociotécnica (AST) pode ser preliminarmente entendida como um processo concernente a um equipamento associado ou não a uma tecnologia desincorporada, concebido no âmbito de um contexto sociotécnico de uma dada amplitude (desde uma fábrica até um segmento industrial ou o conjunto do tecido socioprodutivo de um país) a outro, submetido a condicionantes distintos (em especial ao da propriedade dos meios de produção).
Simetricamente ao que poderia ter sido denominado adequação técnico-econômica, mas ficou sendo conhecido como engenharia reversa ou, na América Latina, como “tropicalização”, a AST pode, então, ser conceituada como uma adequação de tecnologias pré-existentes a situações distintas daquelas para as quais foram originalmente projetadas, como preço relativo dos “fatores de produção”, condições culturais ou edafoclimáticas, dificuldade de acesso a insumos, tamanho e características dos mercados etc.
A AST é, então, entendida (e proposta), não apenas como uma adequação aos requisitos e finalidades de caráter técnico-econômico típicos de um dado ambiente produtivo submetido à lógica capitalista, como é usual cada vez que nele se concebe o conhecimento para a produção de um bem ou serviço. Ela incorpora aspectos de natureza social e ambiental até agora considerados como “externalidades” em processos (convencionais) de adequação técnico-econômica conduzidos em contextos submetidos à lógica da acumulação do capital. E, por isso, ou “por definição”, ainda estão totalmente ausentes da “planilha de cálculo” (ou código técnico) utilizada pelos desenvolvedores de artefatos tecnológicos (pesquisadores, engenheiros etc.) na sua concepção.
Avançando na conceituação, pode-se dizer que a AST busca promover uma adequação (ou reprojetamento) do conhecimento tecnocientífico, incorporado em equipamentos e insumos (hardware), formas de organização da produção (orgware), ou sob a forma intangível e mesmo tácita de modelos mentais (software) usados para conceber e conduzir as atividades correspondentes aos dois elementos sociotécnicos anteriores.
A AST se refere, então, a um conjunto de processos de desconstrução e reconstrução (reprojetamento) da tecnologia convencional (ou capitalista) ou, mais genericamente da tecnociência que temos. Ou de forma mais radical e coerente com a ideia de não neutralidade da tecnociência, a processos de descontaminação da tecnociência dos valores e interesses do capital, hegemônicos nos ambientes em que ela é concebida, e sua “recontaminação” com os da ES.
Ela se diferencia da Construção Sociotécnica, tal como ela pode ser entendida a partir da contribuição dos pesquisadores do campo, por supor a existência de um contexto sociotécnico caracterizado por condicionantes distintos daqueles a que eles – implícita ou explicitamente – se referem. Em especial, o relativo à propriedade privada dos meios de produção, ao parecer percebido como pouco relevante na indução de características ao artefato resultante de processos de Construção Sociotécnica.
A AST foi concebida como um processo que tem por objetivo o desenvolvimento de TS. Mas ela pode ser entendida, não para fins de intervenção no movimento social concreto que em torno dela se organiza (para desenvolver TS), mas para operar o momento de reflexão teórica e elaboração conceitual, da maneira radical que a ele convém, elaborada em outro documento.
Nesse livro, conceituo a TS como o resultado da ação de um coletivo de produtores sobre um processo de trabalho que, em função de um contexto socioeconômico (que engendra a propriedade coletiva dos meios de produção) e de um acordo social (que legitima o associativismo), os quais ensejam, no ambiente produtivo, um controle (autogestionário) e uma cooperação (de tipo voluntário e participativo), permite (a ação referida) uma modificação no produto gerado passível de ser economicamente apropriada segundo a decisão do coletivo.
A AST visa a adequar a tecnologia convencional (e, inclusive, conceber alternativas como indicadas pelas suas sete modalidades) adotando critérios suplementares aos técnico-econômicos usuais e aplicando-os a processos de produção e circulação de mercadorias em redes de ES visando a otimizar suas implicações sociais, econômicas e ambientais.
Como se pode perceber, mesmo no caso em que se esteja analisando uma TS “nova”, que aparentemente não derive de uma adaptação de uma tecnologia convencional, há que ter em mente que o seu desenvolvimento demandou uma adequação do conhecimento tecnocientífico previamente existente ao novo contexto sociotécnico em que ela se está inserindo.
As sete modalidades de AST, apresentadas a seguir, podem ser entendidas como momentos (o que é diferente de estágios) sucessivos ou não, de um processo contínuo de adequação que tem lugar num dado empreendimento solidário na presença de alguns elementos distintos daqueles que caracterizam o contexto mais abrangente que tem como núcleo a propriedade privada dos meios de produção.
1. Alteração na distribuição da receita gerada
A manutenção das características do processo de trabalho (uso convencional das máquinas, formas de organização do trabalho etc.) em situações em que a propriedade dos meios de produção, já empregados antes no caso de fábricas recuperadas, passe de privada à coletiva, propiciando a alteração na distribuição da receita gerada (de lucro e salários para retiradas), promove uma modificação no contexto sociotécnico e é um embrião de novas ASTs.
2. Apropriação
A propriedade coletiva dos meios de produção (em cooperativas novas ou que sucederam a empresas falidas) supõe a aquisição, pelos trabalhadores, de conhecimento produtivo (encadeamento da produção, possibilidades de adensamento, completamento ou extensão da cadeia etc), de gestão, e de concepção de produtos e processos, sem que alguma modificação seja introduzida nos mesmos. Distingue-se do conceito usual de “apropriação” do conhecimento tecnocientífico na medida em que tem como condição a propriedade coletiva dos meios de produção.
3. Repotenciamento
A postura associada à nova condição de propriedade coletiva tende a levar à modificação das máquinas e equipamentos mediante ajustes, recondicionamento ou revitalização (incorporação de componentes e dispositivos mais recentes), procedimentos de manutenção preventiva etc. visando ao aumento da sua vida útil ou à modificação das características do bem ou serviço produzido.
4. Ajuste do processo de trabalho
Um ambiente de trabalho democrático e participativo, não submetido ao controle capitalista, levará ao questionamento da divisão técnica do trabalho. Semelhantemente ao que ocorre quando da substituição do modelo fordista-taylorista pelo toyotista (em função de uma mudança na base técnica e sem alteração da forma de propriedade dos meios de produção), o processo de trabalho tenderá a assumir formas de organização autogestionárias.
5. Alternativas tecnológicas
Lembrando a ideia de momentos, associada à AST, entende-se esta modalidade como decorrente da percepção de que as anteriores não são suficientes para dar conta das demandas dos EESs. Ela implica a busca e seleção alternativas tecnológicas já existentes, distintas da tecnologia convencional – anteriormente utilizada ou disponível no mercado – mediante consultas a pessoas, instituições, bancos de dados etc.
6. Incorporação de conhecimento tecnocientífico existente
Sociotécnica tal como o entendemos no campo cognitivo que exploramos.
41 Embora prefira o uso do conceito de tecnociência (DAGNINO, 2008) ao de “Ciência e Tecnologia”, utilizo por uma questão de comunicação com a literatura que trata da tecnologia, em especial a que se refere à TS, alternadamente, conforme me parece conveniente, os conceitos de tecnociência e tecnologia.
42 Algo que operasse de forma semelhante a uma Instrumentalização Secundária tendo por base o resultado de uma prévia Instrumentalização Primária.
43 O uso alternativo e sinonímico das expressões “tecnologia convencional”, “tecnologia capitalista”, “tecnociência capitalista” e, agora, “artefato tecnológico capitalista”, não deve ser entendido como a adoção de uma perspectiva filiada ao que se conhece como “Determinismo Social”. Ele apenas reconhece a ideia fundacional do conceito de TS, de que seu desenvolvimento se pauta pela percepção de que suas características devem estar adaptadas a um conjunto de necessidades e interesses coerentes com o que se enfeixa no conceito de Economia Solidária. E de que, simetricamente, como anteriormente indicado, existe uma insatisfação por parte de quem desenvolve TS em relação ao contexto sociotécnico que preside o desenvolvimento de tecnologia convencional e que envolve a sua utilização condicionando as suas características.
44 O conceito de marco tecnológico (deve ser entendido como o marco que diz respeito à tecnologia e não como o marco do tecnólogo) busca analisar a interação entre os atores sociais (indivíduos, organizações), e não os atores sociais propriamente ditos a partir de uma perspectiva sociotécnica.
45 O marco tecnológico de um determinado grupo social está relacionado ao conceito de atribuições de significados que estrutura a sua gramática. Esta gramática é usada na interação de membros de um mesmo grupo social, resultando na atribuição compartilhada de significados. Quando os membros de um grupo social compartilham da mesma gramática, esse grupo é identificado como um grupo social relevante: um conjunto de indivíduos que conferem um mesmo significado a um determinado artefato.
46 A leitura possibilitada pela gramática de cada grupo (ou mesmo de diferentes indivíduos dentro de cada grupo) a respeito de um mesmo artefato pode ser distinta. O que gera artefatos semanticamente distintos ( “flexibilidade interpretativa”). Ocorre, então, um processo de negociação entre os diversos grupos, influenciado pela arquitetura de poder e pelas alianças estabelecidas entre eles. Finalmente tem-se o “fechamento”, momento em que o significado do artefato é outorgado pelo(s) grupo(s) social(ais) que obteve (obtiveram) maior sucesso ao longo do processo de negociação.