Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Uma atividade que não se “formalizou”: o artesanato

A tecnologia brasileira, dadas as condições de exclusão vigentes no país, é competitiva em relação àquelas. É a superexploração do trabalho o que possibilita que o “atravessador” ao comprar o material catado esteja pagando não pelo material (alumínio, por exemplo) que ele contém, mas pelo trabalho vivo informal a ele incorporado pelo catador. Assim, sem que tenha existido propriamente uma intenção de desenvolver uma TS, existe uma tecnologia alternativa e competitiva (!) àquela usada nos países avançados.

A existência dessa tecnologia parece corroborar o expressado por Bosi (2008), quando escreve que

“[...] não se trata apenas de reconhecer a organização

capitalista do trabalho ‘informal’, mas de perceber como esse

tipo de organização também ‘ressignifica’ e condiciona as

experiências e as práticas dos diversos sujeitos implicados

nesse processo.

Depois de explicar o trânsito da atividade de coleta e reciclagem do setor formal para o informal e mostrar como o desenvolvimento de uma tecnologia adaptada ao ambiente socioeconômico vigente tende a consolidar a mudança, poder-se-ia investigar que alterações associadas àquelas seis situações típicas poderiam gerar um movimento no sentido contrário, de desestabilização e eventual reversão.

 

Uma atividade que não se “formalizou”: o

artesanato

Depois de analisar uma atividade que se “informalizou”, vamos analisar uma que permaneceu na economia informal: o artesanato.

É óbvia a ideia de que quanto mais pobre a comunidade em que se pratica o artesanato (e o seu entorno imediato), mais difícil é manter vivas as formas de produção artesanal.A pobreza impede que o não artesão pobre adquira o artesanato. E existem pelo menos dois agravantes que condenam o artesanato a desaparecer: o preço menor das mercadorias similares produzidas pelo setor formal e o efeito demonstração que a posse de produtos modernos da economia formal exerce sobre os consumidores. Sem falar que essas mercadorias, que inicialmente eram similares às que eram produzidos na economia não capitalista, foram incorporando tantas características novas (o que frequentemente não implicava que fossem necessárias ou convenientes) que passaram a ser consideradas novos produtos. Esse processo, cuja abrangência foi do ambiente doméstico até aquele em que se realizavam grandes obras de infraestrutura e, por isso, foi muitas vezes dramático e com consequências penosas para os mais pobres e desastrosas para todos, passa atualmente despercebido em função da naturalização que o acompanhou.

Os artesanatos que sobrevivem, fazem-no porque logram obter sucesso entre os ricos; que, em geral, encontram-se a uma certa distância das comunidades artesanais pobres. Outros permanecem valorizados pelos pobres, porque são insubstituíveis ou muito melhores ou mais bonitos do que seus similares produzidos na economia formal.

Processos no sentido inverso, que vão da economia formal para formas de produção artesanal, ocorrem entre os ricos em situações de escassez muito específicas de algum produto, ou em função de movimentos de defesa contra efeitos negativos associados aos produtos da economia formal (alimentação com vegetais livres de agrotóxicos, medicina tradicional) que levam à sua substituição por bens produzidos, algumas vezes, pelas próprias famílias. Entre os pobres, ao invés de exceção, o uso de materiais que substituem os de maior preço usados pelos ricos é a regra. Provavelmente onde isso é mais evidente é na moradia. Também, possivelmente, parece ser na esfera da alimentação, onde a comida tradicional é substituída, por mães que querem agradar os filhos, pelos salgadinhos, onde é mais notório o processo inverso.

Nos países de capitalismo avançado, houve casos em que o artesanato, fertilizado com outras capacidades e habilidades dominadas por comunidades que se mantiveram na economia informal (claro que de outra natureza), resistiu à expansão dos produtos da economia formal. Em muitos outros casos, as capacidades e habilidades que entranhavam o artesanato foram a origem de cadeias produtivas que resultaram na sua incorporação com vantagens (em geral transitórias, é certo, até que o processo de expropriação do conhecimento tivesse lugar) à economia formal.

De forma geral, é possível observar que foi no setor agrícola, onde a propriedade privada dos meios de produção não se generalizava tão rapidamente, que se mantiveram por mais tempo as formas de produzir baseada na produção familiar, no associativismo e nas tecnologias com elas coerentes. E é pela sobrevivência (ou, pelo menos, a memória) de formas de propriedade não privada dos meios de produção, que seguem sendo no setor rural onde até hoje se concentram, de maneira avassaladora, as propostas de adoção de tecnologias distintas da tecnologia convencional (ou capitalista). E onde o surgimento e sobrevivência de formas de produzir alternativas à forma hegemônica são possíveis. É porque ali ainda existem, senão a propriedade coletiva, os vestígios que ela deixou em termos da possibilidade de trabalho cooperativo. No meio urbano, é só nas fábricas recuperadas, ou nas cooperativas de catadores de materiais recicláveis que adicionam o valor de sua força de trabalho a um capital constante com um valor praticamente nulo, como é o caso do lixo, onde formas de produzir alternativas são possíveis.

É digno de destaque e reflexão o fato de que a colocação acima, que parece uma derivação evidente da abordagem de cunho marxista que se está seguindo, parece ser um “ovo de Colombo” no âmbito dos resultados de pesquisa da área de ES e de TS.