Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Iniciando a construção
por meio do desenvolvimento e emprego de TS, os empreendimentos solidários deverão ser apoiados para expandir sua atuação na direção de bens e serviços que permitam o completamento e entrelaçamento de suas cadeias produtivas, que satisfaçam a demanda dos que neles trabalham e que, viabilizados por uma crescente utilização do poder de compra do Estado, possam substituir os que, atualmente produzidos pelas empresas com baixa eficácia socioeconômica, são necessários para a implementação das políticas públicas.
Iniciando a construção
Construir a ponte, no sentido de elaborar políticas públicas, é essencial para produzir o suporte cognitivo – a Tecnologia Social – necessário para tornar sustentável no plano econômico, social, cultural e ambiental, a Economia Solidária. Usando uma analogia que, embora equivocada, é útil, vamos entender o pilar Tecnologia Social como aquele que “oferece” o conhecimento tecnocientífico necessário para consolidar um outro – o da Economia Solidária. E, este, como o que “demanda” desse conhecimento.
Coerentemente com seus propósitos, o texto possui como objetivo mais ambicioso contribuir para a elaboração de políticas relativas às áreas de Educação e de C&T para fortalecer esses dois pilares. Isto é, para fomentar atividades de ensino e pesquisa em TS em instituições públicas e no âmbito dos empreendimentos solidários (pilar da Economia Solidária) que realizam atividades de produção de bens e serviços que a demandam.
Como ficará claro, ao longo do texto, os conceitos de TS e de Economia Solidária que utilizamos e que sugerem a metáfora da ponte são também responsáveis por uma outra; a que entende, como já indicado, a TS como a plataforma cognitiva de lançamento da Economia Solidária.
A reflexão que desenvolvo privilegia dois focos locacionais. O primeiro são as instituições públicas a serem mobilizados para fomentar a “oferta” de Tecnologia Social.Aqui, a questão normativa orientadora é a de como formar profissionais, nos planos do ensino, da pesquisa e da extensão, para desenvolver Tecnologia Social. Um aspecto descritivo que a resposta supõe é a análise dos arranjos institucionais (novas disciplinas e cursos de graduação e pós-graduação, incubadoras) que vêm sendo experimentados. O segundo foco locacional é o governo como responsável pela elaboração de políticas públicas capazes de alavancar ou induzir a “demanda” de Tecnologia Social por parte dos empreendimentos solidários. Neste caso, a questão normativa orientadora é como utilizar os arranjos institucionais existentes (que abarcam desde a capacitação de pessoas até a utilização do poder de compra do Estado, passando pela alocação de pesquisadores nesses empreendimentos), e conceber novos para fomentar a produção de bens e serviços pela Economia Solidária intensivos em TS mediante o entrelaçamento de completamento de cadeias produtivas etc.
Avançando no terreno normativo, o texto se propõe a contribuir para desenhar estratégias para enfrentar os obstáculos e neutralizar os oponentes ao fortalecimento dos dois pilares e à construção da ponte pela qual irá transitar a sociedade “para além do capital” que queremos. No plano teórico, o desafio é o de como conceber novos conceitos, abordagens, metodologias, práticas, sociabilidades e lógicas que orientem essa construção a partir da crítica à crescente mercantilização de todos os âmbitos da vida. Como subverter os mecanismos que constituem o capitalismo contemporâneo, e a sua racionalidade tecnocientífica subjacente, tendo como guia propostas como as do “bem viver” e lógicas desmercantilizadas, autogestionárias, enfim, solidárias? Num plano operacional, como mapear oportunidades para a implantação de empreendimentos solidários (inclusão produtiva) e prospectar potenciais de desenvolvimento de TS? Como conceber formas de atrair e cooptar os integrantes da comunidade de pesquisa e dos fazedores de política, em particular o seu segmento de esquerda ainda preso na armadilha do dogma da Neutralidade e do Determinismo da tecnociência? Como identificar linhas de menor resistência para a mudança de marcos legais?