Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Apresentação
Este livro reúne trabalhos que abordam aspectos conceituais e metodológicos acerca da Tecnologia Social e de assuntos a ela relacionados. Ao contrário de outras coletâneas que tenho organizado, ele contém apenas trabalhos escritos por mim. Não obstante, eles ref letem avanços obtidos nas atividades de ensino, pesquisa e extensão realizados no âmbito do Grupo de Análise de Políticas de Inovação da Unicamp. Muitos deles dados a conhecer em trabalhos escritos em conjunto com colegas do Grupo, aos quais muito agradeço.
Ele decorre de uma demanda que tem sido formulada por pesquisadores interessados nas ideias que venho apresentando nos lugares por onde tenho passado. Seu objetivo é contribuir para construir o que venho chamando de plataforma cognitiva de lançamento – a Tecnologia Social – da proposta societária que hoje mobiliza minha energia intelectual, a Economia Solidária.
Os trabalhos aqui apresentados como capítulos foram escritos independentemente, para diferentes públicos e com distintos propósitos. Contêm, por isso, algumas repetições e muitas reiterações; pelas quais peço desculpas aos leitores.
É possível classificá-los em dois blocos. O primeiro bloco, que engloba os três textos iniciais, pode ser entendido como correspondendo basicamente à primeira parte do título deste documento: as contribuições de natureza conceitual para análise e desenvolvimento de Tecnologia Social. O segundo bloco reúne textos mais focados em contribuições com viés metodológico.
O primeiro texto – A tecnologia social e seus desafios – foi escrito em 2002. Ele corresponde a um momento de retomada de um tema que só esporadicamente eu havia tocado desde o final da década de 1970, quando escrevi minha dissertação de mestrado, intitulada “Tecnologia Apropriada: uma alternativa?”. Embora contenha algumas ideias novas acerca da forma como eu entendia a questão quando a escrevi, ele retrata um movimento apenas incremental. De fato, como o leitor poderá observar, contém muitas coisas que fui depois reformulando.
O segundo texto – Em direção a uma Estratégia para a redução da pobreza: a Economia Solidária e a Adequação Sociotécnica – escrito na mesma época, foi originalmente preparado como um relatório de pesquisa que analisava as atividades desenvolvidas no âmbito do governo da cidade de São Paulo. Ele serviu de base para outro trabalho publicado com mais dois colegas um pouco depois – Sobre o marco analítico-conceitual da tecnologia social – em que se mostra a trajetória “teórica” que nos leva do conceito de Tecnologia Apropriada formulado nos anos de 1970 para o que estamos desenvolvendo de Tecnologia Social.
O terceiro – “Ciência e tecnologia para a cidadania” ou Adequação Sociotécnica com o Povo? – é o mais “politizado” de todos. Resultado de uma incursão na Ciência Política, ele tem como ponto alto a noção, que retomo no último texto da coletânea, de que “os empreendimentos autogestionários de produção de bens e serviços parecem ser a ‘ponta de lança’ mais radical, consequente e prometedora do conjunto das formas de politização alternativas que se organizam em torno de uma solidariedade coletiva Povo”.
O quarto – Em direção a uma teoria crítica da tecnologia – foi escrito em 2009. Embora trate, também, de aspectos conceituais, ele é o primeiro do segundo bloco que engloba as contribuições de natureza metodológica. Seu título, bastante pretensioso, devo reconhecer, mas escolhido para fazer referência à abordagem marxista que o caracteriza, se deve a um objetivo que veio amadurecendo ao longo de vários anos. Isto é, o de iniciar um caminho de crítica ao conceito de tecnologia que correntemente usamos. Criado no âmbito de um sistema caracterizado pela existência de relações de produção capitalistas, ele não é adequado para apoiar a ref lexão que queremos fazer para aportar a uma tecnologia (e permitir o seu desenvolvimento) que potencialize outro sistema, baseado em relações de produção solidárias: a Economia Solidária.
A ele se seguem dois textos – Mais insumos metodológicos para a análise, a pesquisa e o desenvolvimento de Tecnologia Social e Dimensões para a análise e desenvolvimento de Tecnologia Social – de natureza francamente metodológica e prescritiva. Foram escritos, em 2010, com a intenção de contribuir para orientar os estudos de caso e os trabalhos de campo realizados no âmbito do Projeto Tecnologias para Inclusão Social e Políticas Públicas na América Latina apoiado pelo IDRC do Canadá, e por instituições de fomento a pesquisas brasileiras e argentinas.
O sétimo texto – Economia Solidária e Tecnologia Social: construindo pontes – mantém o foco no campo metodológico, mas avança normativamente na busca de preencher uma lacuna na elaboração teórica latino-americana sobre questões relacionadas à Economia Solidária. Como explicita seu título, seu propósito é construir pontes entre os conceitos de Economia Solidária e Tecnologia Social. Ou mais precisamente, evidenciar as razões que me levam a dizer que a Tecnologia Social deve ser considerada como uma plataforma cognitiva de lançamento da proposta da Economia Solidária. A derivação do que ali se denomina “lógica solidária” a partir da consideração da “lógica do capital” e da “lógica do desespero” é o núcleo argumentativo que o texto convida o leitor a aprofundar.
O texto que segue – Elementos para uma avaliação das Incubadoras Universitárias de Cooperativas – leva a preocupação metodológica para o campo organizacional. Ele trata de uma das iniciativas mais importantes – e inovadoras em nível mundial – que vem sendo implementada na América Latina no campo da extensão universitária; a das incubadoras (tecnológicas) de cooperativas (populares) em universidades (na sua maioria, públicas) brasileiras. Ao proporcionar esses elementos de crítica construtiva e evidenciar alguns aspectos que poderiam permitir uma maior eficácia das incubadoras, espero estar contribuído para aumentar o impacto do esforço despendido pelos colegas que as integram.
O último texto, também de orientação normativa – Por que Capacitação em C&T para o Desenvolvimento Social? –, reflete uma preocupação central desta coletânea. Isto é, a de contribuir com o movimento que vem tomando corpo no âmbito da comunidade dos Estudos Sociais a C&T orientado à formação de profissionais capazes de atuar no campo da Tecnologia Social promovendo os processos de reprojetamento e de Adequação Sociotécnica que nos levarão à transformação do setor informal de nossa economia no tecido de cadeias produtivas formadas pelos empreendimentos que são o germe da Economia Solidária. O texto adicionado ao final – À guisa de Posfácio – de conteúdo francamente normativo, provém de um artigo de divulgação escrito com o objetivo recorrente que tem caracterizado minha atuação no âmbito da Política de C&T latino-americano, de promover sua orientação num sentido coerente com o processo de mudança política e social em curso.
Desejo a todos uma boa leitura.