Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
“Conscientização”, “empoderamento” e obstáculos à Economia Solidária
obstáculos à Economia Solidária
Nesta seção, destaco uma outra razão que tenderá a fazer com que as elites econômicas e políticas se oponham à consolidação da ES. E o faço porque, mais do que as anteriores, ela deve servir de alerta para os que estão envolvidos com os movimentos que almejam essa consolidação.
Ela tem a ver com o ganho de consciência, mobilização, capacitação e organização dos seus participantes que caracteriza o processo de implantação dos empreendimentos solidários. E que, por ter como uma de suas consequências mais importantes a adoção de formas de produção de bens e serviços autogestionárias, pode ser usada, como mostra a história do movimento operário, para engendrar um patamar superior de organização e enfrentamento com a classe proprietária. Enfrentamento, esse, que há de reconhecer e tentar evitar, pode se orientar para uma disputa por brechas econômicas com outro ator imprensado pelo grande capital: a pequena burguesia.
Deixar mais claro porque considero que a ES poderá vir a ser obstaculizada pelas elites interessadas na manutenção do status quo me obriga a uma rápida digressão.
Pode-se dizer que os movimentos que lutam pela mudança social no capitalismo, como é o caso do movimento da ES, possuem dois objetivos que costumam ocorrer, quando bem-sucedidos, como processos encadeados sequencialmente.
O primeiro, conhecido por “conscientização” dos explorados, implica na transformação de “conflitos latentes” (aqueles que, apesar de prejudicarem-nos, não são sequer percebidos pelos explorados, dado que obscurecidos ou naturalizados por mecanismos de manipulação ideológica) em “conflitos encobertos”. Isto é, aqueles que, embora percebidos e, por isso, integrantes da agenda particular dos explorados, não chegam a entrar na agenda decisória – aquela sobre a qual os governantes escolhem ou são forçados a decidir – devido a uma correlação de forças desfavorável. A “conscientização”, então, não costuma dar origem imediatamente a enfrentamentos entre os explorados e as elites dominantes; os conflitos latentes não se transformam em “conflitos abertos”. É como se os explorados ficassem esperando uma oportunidade, uma mudança na correlação de forças, ou um aumento de seu poder frente às elites para “abrir” seus “conflitos encobertos”.
O segundo processo, conhecido por “empoderamento” dos explorados, acontece quando “conflitos encobertos” ou, menos frequentemente, “latentes”(quando o processo de “conscientização” ocorre em simultâneo a uma mudança na correlação de forças) se transformam em “conflitos abertos”. Isto é, deixam de pertencer somente à agenda particular dos atores explorados e passam a integrar a agenda decisória. Em consequência, por passarem a ser objeto de disputa pública, podem contribuir, numa conjuntura favorável, para que os explorados acumulem poder e tornem ainda mais legítimas as suas demandas.
O movimento da ES tende a orientar os processos de “conscientização” e “empoderamento” dos trabalhadores dos empreendimentos solidários na direção da autogestão; o que é algo claramente contrário aos interesses, sobretudo os de longo prazo, das elites. É, por isso, bastante plausível que, à medida que a ES deixe de ser simplesmente um “quebra galho” para impedir o aumento da exclusão, ou um mecanismo de extração de excedente baseado na “funcionalidade subordinada”, e se transforme numa alternativa de organização, não apenas para a produção e consumo de bens e serviços, mas de organização da classe trabalhadora, ela venha a ter sua consolidação obstaculizada.
Não é necessária muita imaginação para prefigurar as reações que tenderá a produzir a implementação da proposta da ES, de
(...) projetar-se como paradigma e modelo de desenvolvimento
que tem por fundamento um novo modo de produção,
comercialização, finanças e consumo, que privilegia a