Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Histerese e o trânsito da Tecnologia Convencional para a Tecnologia Social

Histerese e o trânsito da Tecnologia

Convencional para a Tecnologia Social

Para abordar a questão que nos interessa mais de perto, relacionada às possíveis alternativas à tecnologia capitalista e ao desenvolvimento de TS, é necessário investigar a possibilidade de um trânsito no sentido inverso, da TC para a TS.

A interpretação marxista convencional sobre a neutralidade da ciência e o determinismo tecnológico tem sido sistematicamente criticada por autores como Lacey (1999) e Feenberg (2002). Empregando o conceito de tecnociência e baseado nesses e outros autores, percorremos caminho semelhante em Dagnino (2008). E é a partir dessas vertentes de crítica, que exploramos essa questão.

Adotando a interpretação marxista convencional, seria possível supor que a ruptura das formas de propriedade privada típicas do capitalismo e o trânsito em direção à propriedade coletiva dos meios de produção, por inviabilizar o “controle” sobre o processo de trabalho, levariam a mudanças radicais na tecnologia. Ou seja, um trânsito em direção à Tecnologia Social.

Isso, entretanto, não é o que temos observado (Dagnino; Brandão; Novaes, 2004) em particular no caso das fábricas recuperadas (Novaes, 2007) que seriam o espaço mais propício para a instauração de um trânsito da TC para a TS em função da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva dos meios de produção.

Com uma figura semelhante à apresentada anteriormente e apoiando-nos na teoria de sistemas, é possível entender porque isso ocorre e indicar um caminho para fazer com que o resultado seja um processo sociotécnico de construção da TS.

O gráfico ilustra o fenômeno da histerese. O emprego desse conceito nos ajuda a explicar o trânsito da TC para a TS.A figura mostra no eixo horizontal a intensidade de um campo magnético que atua sobre uma barra de ferro submetida e, no vertical, a capacidade que ela adquire de atrair objetos metálicos (imantação).A curva de imantação é a inferior (OP). Se depois da barra de ferro ter sido imantada, o campo magnético diminuir até anular-se (curva PR), ela manterá um nível de imantação residual.

Gráfico 2 – Fenômeno da histerese

 

Fonte: Elaboração própria

Esse fenômeno ocorre em muitos sistemas complexos e remete à diferença relativa entre a trajetória que levou um sistema a um determinado estado em função de uma perturbação e a trajetória de recuperação, que conduziu o sistema a um novo estado estável. A uma tendência de um sistema de conservar as propriedades decorrentes de um estímulo externo faz com que, cessada a perturbação, ela não retorne à situação anterior. O conceito de histerese permite entender porque um sistema, para adquirir uma configuração distinta daquela causada por um estímulo externo tende a demandar não apenas a sua cessação, mas a atuação de um outro estímulo.

Como muitos sistemas complexos, a tecnologia parece estar sujeita ao fenômeno da histerese. É isso que procuramos mostrar com a figura que segue, concebida combinando as duas anteriores.

Nela, adiciona-se à primeira figura um hipotético “caminho de volta” (curva superior) de uma TC em direção a uma TS, causado por uma mudança na estrutura de propriedade, mostrando que esse caminho seria distinto daquele que levou à TC.

A figura mostra que, mesmo que tenda a ocorrer um trânsito da TC para a TS em função da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva dos meios de produção, a curva “de volta” intercepta o eixo vertical num ponto tal que se mantém uma “imantação” residual. Ou seja, ainda que se chegasse a uma situação de propriedade coletiva, o resultado seria uma tecnologia que manteria como resíduo algumas de suas características prévias à mudança. Elas estão representadas na figura como sendo originadas da existência de um controle capitalista que ficaria “entranhado” na tecnologia ainda que se chegasse àquela situação.

Gráfico 3 – Característica da tecnologia e privatização da

propriedade

 

O conceito de Adequação Sociotécnica (AST) que desenvolvemos em outros trabalhos (Dagnino, 2002; Dagnino; Brandão; Novaes, 2004) aparece na figura como um prolongamento da “curva de desimantação”, ou seja, do processo que decorre da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva dos meios de produção. Como se a histerese do sistema tecnologia necessitasse de um estímulo externo adicional (a AST) a essa passagem para adquirir as características compatíveis com a TS. Como se a TS, que não coincidiria no gráfico com o ponto em que os dois eixos se cruzam, mas estaria situada à sua esquerda, precisasse de um processo de desconstrução e reconstrução sociotécnica (que é como conceituamos a proposta de AST) para ser obtida. O segmento que se situa à direita da TS e vai até a interseção dos eixos representaria as características suplementares àquelas que decorreriam da passagem da propriedade privada para a propriedade coletiva, que teriam que ser adicionadas à tecnologia através do processo de AST.