Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Tecnologia Social e Política de C&T: retomando críticas
Tecnologia Social e Política de C&T: retomando
críticas
Esta seção retoma críticas que tenho feito ao longo de vários anos e de diversas formas à Política de C&T brasileira e latino-americana em função da orientação que vem crescentemente sendo adotada em beneficio das empresas.
Um dos obstáculos mais difíceis a vencer para que a Tecnologia Social seja efetivamente apoiada, porque possui um caráter fundacional, é que o senso comum, e também a comunidade de pesquisa que domina a Política de C&T, considera que a empresa é o único ator econômico-produtivo que pode processar (e aproveitar) o conhecimento gerado pela sociedade. E que só ela, gerando inovação e produzindo bens e serviços com qualidade crescente e preços cadentes, é que pode satisfazer o que a sociedade precisa. Se nos países capitalistas avançados isso não é assim, muito menos no Brasil!
Tenho dito que quando falarmos em Economia Solidária ou em Tecnologia Social, temos que “dar uma no cravo e outra na ferradura”. Qual é o cravo e qual é a “ferradura”? Se eu disser “a Economia Solidária precisa de subsídio”, isso é dar uma no “cravo”. Agora, para dar uma na “ferradura”, eu diria:“a empresa privada não vive sem subsídio”.
No âmbito da TS, dar no cravo é dizer “a tecnologia social precisa de mais recursos para pesquisa, formação etc. etc.”. E dar uma na ferradura é dizer:“alocar recursos para o desenvolvimento de tecnologia convencional é, socialmente falando, um desperdício!” (sobretudo quando o Estado está gastando uma quantidade crescente de recursos com programas compensatórios, de inclusão social e de inclusão produtiva).
O esforço e o investimento que o Brasil faz para gerar ciência e tecnologia ou pesquisa e desenvolvimento no âmbito empresarial, têm sido, desde que temos uma Política de C&T, bastante grande.
Para se ter uma ideia de como este esforço tem sido pouco eficaz, vou dar apenas um exemplo dos que tenho repetido em outras oportunidades. De 2006 a 2008, segundo a informação divulgada pelo MEC, nós devemos ter formado no Brasil cerca de 90 mil mestres e doutores em ciência dura (trinta mil por ano). Dos mestres e doutores que se formam nos Estados Unidos, 70% vão para empresa privada fazer pesquisa e é, por isso, que a empresa estadunidense tem a competitividade que tem. Se nós formamos 90 mil e se o coeficiente fosse o mesmo, 63 mil teriam ido para a empresa fazer pesquisa. Entretanto, segundo a Pesquisa de Inovação Tecnológica – PINTEC, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, dos 90 mil que nós formamos, apenas 68 foram absorvidos pelas empresas (brasileiras, estrangeiras e estatais) para realizar pesquisa.
Os fazedores da PCT, em função disso, pretendem maximizar os indicadores de inovação e de P&D mediante medidas de política que coloquem mestres e doutores à disposição das empresas dispostas a recebê-los. Ou seja, financiando a fundo perdido a atuação desses profissionais nas empresas, à semelhança do que já ocorre através de bolsas fornecidas a graduados. O impacto desses profissionais capacitados a pesquisar e com vontade de fazê-lo, apesar dos fatores estruturais derivados de nossa condição periférica bem conhecidos, tenderá a ser a melhoria pretendida naqueles indicadores. De fato, é provável que essas pessoas passem a produzir situações em que os empresários, mesmo que pouco propensos a pesquisar, sejam estimulados a trazer para dentro das empresas os crescentes recursos que vêm sendo disponibilizados para P&D.