Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Economia Solidária e as duas partes do iceberg

A noção de adensamento remete a um encadeamento de tipo “transversal” ao invés de “vertical”, como é o caso do completamento. Ocorrerá um adensamento quando, ao longo de uma dada cadeia produtiva já relativamente complexa, existem insumos (bens e serviços) que são fornecidos por outras cadeias situadas no setor formal, mas que podem ser substituídos mediante a produção dos mesmos em empreendimentos solidários.

Como já disse, essas operações, além do já aludido, serviriam para impedir a fuga do excedente econômico produzido no âmbito das cadeias produtivas dos empreendimentos solidários e nas redes de produção, circulação, consumo e investimento da Economia Solidária

 

Economia Solidária e as duas partes do iceberg

Ainda sobre o assunto tratado nas seções anteriores, passo a especificar um pouco melhor como poderia ocorrer a relação entre a ES e o Estado no sentido de garantir a crescente aquisição dos bens e serviços por ela produzidos. E, por esta via, um processo sustentado de completamento, entrelaçamento e adensamento de suas cadeias produtivas.

A pontinha de cima do iceberg que aparece na figura que segue é o que hoje aparece como ‘Economia Solidária’ quando se trata deste assunto. Essa parte é o que eu vou chamar agora de ES1. O que está abaixo da linha d’água é a ES2. Lá, bem abaixo, está o avião da Embraer. É muito difícil pensar que um empreendimento solidário brasileiro possa hoje produzir um avião como o da Embraer. Talvez em Mondragón isso possa em breve ocorrer...

Figura 6 – Economia Solidária

 

É na ES1, onde se situam hoje os empreendimentos solidários. Produz, essencialmente, os bens e serviços em arranjos econômico-produtivos baseados na propriedade coletiva dos meios de produção (Agricultura Familiar, no meio rural, e coleta e reciclagem, na cidade).

É na grande porção submersa, a ES2 que deve ocorrer, entre outras coisas, a produção de bens e serviços públicos que o Estado deve proporcionar a todos os cidadãos. E que, mediante o seu poder de compra, pode alavancar a sua produção, promovendo o completamento e adensamento de cadeias produtivas dos empreendimentos solidários. A produção desses bens e serviços, assim como aquela daqueles que fazem da cesta de consumo dos próprios integrantes da ES, e da qual tendencialmente apenas o excedente se irá orientar para o mercado formal, será realizada em sucessivas camadas de dificuldade (profundidade) crescente. É de se esperar que a “intensidade tecnológica” ou o grau de dificuldade para realizar a Adequação Sociotécnica seja crescente, da superfície para base do iceberg.

Mais um exemplo. A maioria de nós, brasileiros, fazemos as nossas próprias casas. 54% delas são construídas pelos seus próprios moradores. Apesar disso, o programa Minha Casa Minha Vida reservou apenas 3% de seu orçamento para autoconstrução. Noventa e sete por cento foi para as construtoras.

É difícil atribuir esse fato a uma questão tecnológica? Não é por falta de “tecnologia” que existe essa divisão tão desproporcional àquela relação 54:3 e tão pouco coerente com outras políticas públicas elaboradas pelo governo.

Aliás, como venho dizendo, há mais de vinte anos,“quem disser que o Brasil é miserável por falta de ciência e tecnologia, vai estar dizendo mentira; se falta uma coisa por aqui é vergonha na cara das nossas elites gananciosas e até agora indomadas”.

Não obstante, parece-me evidente que coisas como essa vão ser menos frequentes quando pudermos contar com tecnologias que estejam adequadas sociotecnicamente para suportar e alavancar o processo de democratização em curso. Quando ele começar a obrigar a elite a construir o andar de cima, a duplicar o tamanho do Brasil irá ocorrer uma demanda cognitiva de ciência básica, não básica, pura, impura, aplicada e de tecnologia alta, baixa, de ponta, rombuda, sofisticada, popular... Só não vai ser servir aquela tão impregnada pelos valores e interesses do capital que não possa ser descontaminada.Aquelas sobre as quais não seja factível a aplicação de um processo de Adequação Sociotécnica.