Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
À guisa de conclusão
Os termos que estou tratando – inovação e empreendedorismo – não podem ser dissociados da empresa privada e do seu contexto. Da mesma forma que a teorização que defende que se a empresa for inovadora e competitiva, gerará crescimento, empregos bem pagos, produtos bons e baratos e, enfim, o desenvolvimento que absorverá a economia informal.
Apenas aqueles que por estarem conformes com uma sociedade desigual e antagônica não percebem a possibilidade da solidariedade, podem aceitar a ideia de que competição possa ser vista como promotora do desenvolvimento econômico e social. Os que não acreditam nessa construção ideológica, não podem aceitar que deslizamentos semânticos dessa natureza contaminem o seu espaço de reflexão e ação.
À guisa de conclusão
Retomando a ideia de que seria por meio da “lógica solidária” que se poderia lograr maior eficácia nas ações a serem implementadas visando ao desenvolvimento da ES a partir da dinâmica estilizada acerca da relação entre os setores formal e informal, menciono outras duas ações que ela deveria apoiar fornecendo a capacidade de escrutinar oportunidades para materializar sua emergência a partir do setor informal.
O primeiro se relaciona à necessidade de tensionar a institucionalidade existente e, se necessário, o marco legal (tal como já se fez para conseguir que uma parcela importante da merenda escolar possa ser adquirida, pelas prefeituras, de empreendimentos da Agricultura Familiar) para lograr que os bens e serviços produzidos pela ES possam ser adquiridos pelo Estado mediante escambo. Isto é, que o Estado, inclusive lançando mão de economias de escala relativas à compra dos bens e serviços hoje produzidos pelo setor formal proporcione à ES (e a seus integrantes) aqueles necessários ao seu consumo final ou produtivo. O segundo objetivo tem a ver com a formação ou capacitação de pessoas para a ES. O que não supõe apenas uma capacidade de atuar profissionalmente nos empreendimentos solidários, como de empreender a tarefa em vários sentidos revolucionária de desenvolver, em paralelo e em conjunto com seus trabalhadores, o “pacote cognitivo” necessário a sua sustentabilidade econômica, social, cultural e ambiental.
Balizada, por um lado, pelos princípios da ES e, por outro, pelas oportunidades de mudança nas agendas de docência e pesquisa (linhas de menor resistência ou de clivagens oriundas de insatisfações da própria comunidade de docentes e pesquisadores, e de fazedores de política), essa ação seria uma das contribuições essenciais e urgentes da “lógica solidária”. De novo, aqui, as incubadoras universitárias de cooperativas seriam, tal como venho destacando, um espaço insubstituível de mobilização e experimentação.
A concepção da “lógica solidária” supõe que ocorra no seio do movimento da (ou pela) ES, o fortalecimento de um vetor (de mobilização e conscientização) que vá mais além dos que hoje aparecem ali como dominantes: os que decorrem da tradição religiosa e sindical. Já existe o embrião desse vetor que poderia abraçar a ideia aqui exposta de concepção dessa lógica e de experimentação associada às ações a que fiz referência.
Ele tem seu núcleo numa das iniciativas mais importantes – e inovadoras em nível mundial – que vêm sendo implementadas na América Latina no campo da extensão universitária: a das incubadoras (tecnológicas) de cooperativas (populares) em universidades (na sua maioria, públicas) brasileiras. Os estudantes e, em menor medida, os professores, que por privilegiarem o potencial de contribuição da universidade à justiça social estão dispostos a colocar, em xeque, a sua ordem institucional (e este é o melhor conceito de esquerda que conheço) e, por isso, estão engajados nos movimentos da ES e da TS, são “candidatos” a ocupar um papel central nesse processo.
Uma última palavra relativa ao campo da ES e da TS merece ser escrita. Trata-se do caráter essencialmente “reformista”, no sentido que o movimento de esquerda tradicionalmente emprestou ao termo as das ações relacionadas a esse campo. Estou longe de pensar que essas ações possam vir a desencadear a “revolução” que historicamente animou os ideais da esquerda. Muito menos aquela que passava pela luta armada, que galvanizou os militantes de esquerda da minha geração e foi ao longo das últimas décadas por ela abandonada. Mas estou convencido de que são insubstituíveis se pensamos o conjunto de ações que podem levar o Brasil (e a América Latina) a uma transição na direção daquilo que chamávamos de socialismo. Não o “socialismo real”, aquele que por tentar empregar a tecnologia capitalista para construir uma sociedade mais justa teve que “inventar” um capataz para controlá-