Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Entendendo processos: da economia informal (não capitalista) à economia formal (capitalista)
Outra ideia é a que o conceito de AST, além de ser inclusivo em relação à ação ou intenção de desenvolver TS, denota uma postura distinta daquela que anima o desenvolvimento de TC. Daí o fato de me referir frequentemente à “proposta” da AST querendo com isto marcar que o processo está orientado por valores e interesses distintos (solidariedade, apropriação do excedente não vinculada à posse dos meios de produção etc.) e é conduzido por um ator social também distinto (coletivo de produtores) daquele que preside o desenvolvimento de TC.
A terceira ideia, é que, ao associar-se à noção de “proposta”, a AST enfatiza de modo realista e resignado que a concepção contra-hegêmonica à qual ele se associa e procura viabilizar no plano material, demanda, no plano econômico-produtivo concreto, mais do que uma revolução tecnocientífica (algo associável às modalidades 6 e 7 de Adequação Sociotécnica) uma adequação. Ou seja, a AST busca ressaltar o fato de que, longe de uma postura ou proposta de “reinventar a roda” ou “jogar a criança com a água do banho”, que é aquela que imputa aos partidários da TS os que defendem TC, o que se pretende é aproveitar o máximo possível as soluções tecnocientíficas plasmadas na TC desconstruindo o “sistema tecnológico” as quais materializam e reconstruindo-o a partir da consideração de valores e interesses distintos daqueles que orientaram o desenvolvimento da TC.
Retomando o propósito deste capítulo, e depois de resumir conceitos que tenho desenvolvido, é possível avançar na proposição de outros critérios e balizamentos que sirvam para a seleção dos estudos de caso que se pretende realizar. E, na medida em que se mostrem adequados, para indicar caminhos de Adequação Sociotécnica para as atividades de desenvolvimento de TS.
Entendendo processos: da economia informal
(não capitalista) à economia formal (capitalista) Esta seção e a que segue tratam do contexto socioeconômico dinâmico e, por isto, mutável, em que têm lugar as iniciativas que conduzem à criação de ESs. E, por inclusão, aquelas que são o foco deste trabalho: as iniciativas de AST. Seu objetivo, vale ressaltar, é clarificar as condições a que essas iniciativas estão sujeitas e, desta forma, indicar os critérios e procedimentos que poderiam facilitar a sua viabilização. Para tanto, e por falta de uma opção mais adequada, tomou-se a perspectiva marxista para apoiar a reflexão apresentada.
Os processos que conformam esses contextos são descritos a partir de idealizações sobre como se teriam desenvolvido processos históricos esquematizados segundo essa perspectiva. A apresentação que se faz a seguir, neste caso do processo de transição da economia não capitalista para a capitalista é uma sistematização – nada original, breve, grosseira, e enviesada pelo propósito deste capítulo – de fragmentos daquilo que sobre ele pode ser desenvolvido a partir dessa perspectiva.
Em paralelo à “acumulação originária” que levou à concentração da posse da terra e ao surgimento de uma classe social cuja sobrevivência dependia da venda de sua força de trabalho para a classe proprietária dos meios de produção, ocorreu a concentração do conhecimento produtivo antes difundido na população.
A sociedade capitalista se diferencia dos regimes de produção anteriores no sentido em que se baseia na convivência conflituosa de proprietários dos meios de produção, de um lado, e vendedores de força de trabalho, do outro. É uma sociedade pautada na reprodução – todos os dias, de forma naturalizada – de uma relação social de produção antagônica e desigual entre compradores de força de trabalho e aqueles que a vendem. E que o fazem por terem seu acesso aos meios de produção, que lhes permitiriam auferir a totalidade do valor do trabalho que incorporam às mercadorias que produzem, vedado pelo contrato social – capitalista – vigente. Nessa sociedade que se constitui no noroeste do mundo, o propósito de garantir, naturalizar e “pacificar” essa situação de exploração engendra um terceiro ator, o Estado capitalista, que tem como objetivo primordial a reprodução dessa relação social de produção. O mais das vezes, é evidente, em benefício da classe dominante: os proprietários dos meios de produção que se beneficiam dessa situação.
Essa sociedade se caracteriza, também e cada vez mais, por uma tendência à propriedade privada do conhecimento. Se analisarmos a transição do feudalismo para o capitalismo, é possível observar como neste período da história ocorre uma crescente apropriação privada da terra, dos meios de produção e do excedente econômico e, também, uma cada vez maior apropriação privada do conhecimento.
Esse processo, que se inicia com o capitalismo, implicou a expropriação do conhecimento do trabalhador individual. Daquele Schumacher, cujos avôs ou bisavôs sabiam fazer um sapato desde a concepção do design até a última costura, ou do Smith cuja família de ferreiros desde há muito trabalhava com o metal. Estas pessoas que conheciam estes ofícios, que até então lhes permitia seguir subsistindo em uma economia ainda não monetizada e assalariada, veem-se privadas desse saber.
O desenvolvimento do capitalismo faz com que esse conhecimento que era propriedade do indivíduo, passe, pouco a pouco, a ser codificado, sistematizado e privatizado. O neto do sapateiro, ainda, que possua o sobrenome Schumacher, já não sabe fazer sapatos. Ele foi convertido num operário “especializado” e mais “eficiente” (para o dono dos meios de produção, é claro) que só sabe furar o couro, que alguém cortou, para que outro alguém costure. E que, depois da introdução da maquinaria possibilitada pela segmentação do trabalho, irá operar a furadeira, primeiro a vapor e depois elétrica, que junto com muitas outras máquinas encadeadas dará a impressão de que são elas, e não os trabalhadores, as responsáveis pela geração do valor incorporado às mercadorias.
A expropriação do conhecimento do trabalhador direto, que abrangia sem distinção desde a concepção do produto (o que passou a chamar-se trabalho intelectual) até a produção de todos os seus detalhes (trabalho manual), foi possibilitada pela segmentação e hierarquização do processo de trabalho que permitiu sujeitá-lo ao controle capitalista e incrementar o ritmo do trabalho (extrair mais-valia relativa).
Acredito ser possível argumentar que a separação estrita, generalizada, sacramentada, e “sem retorno” entre trabalho intelectual e manual tem muito a ver com a sucessão, fabricada pelo capitalismo, de territórios, hoje separados ainda que fronteiriços, que vão da arte à ciência, passando pelo artesanato, pelo que se conhece como técnica e tecnologia.
Ao longo desse processo histórico, o capitalista que já era temido por concentrar a propriedade dos meios de produção passa a ser, decorridas várias gerações, respeitado: sem o “seu” saber, a produção e o salário do trabalhador não existiriam. Passa a ocorrer uma crescente naturalização da monopolização do conhecimento.
Também acredito ser possível argumentar que foi quando o sapato produzido como mercadoria – síntese de valor de uso e valor de troca – para um mercado que passava a exigir um couro mais macio, colorido, flexível, que tenha se iniciado a especialização do conhecimento. Estava “inaugurada” a indústria química. Agora, separada da de sapatos, ela iria desenvolver um conhecimento específico: a química dos couros. E, dado que isso deveria ser feito de forma econômica e confiável,“inventou-se” o laboratório.Ali se testava em pequena escala e em condições controladas, o que iria seguir um processo sistemático de scaling up que conduziria, evitando o alto custo associado à tentativa-e-erro, às inovações que se pretendia introduzir na produção. A cada vez maior separação entre conhecimento “científico” e “tecnológico”, e sua segmentação interna, teria então ocorrido devido às demandas cognitivas associadas à produção. Elas contribuíram também para assegurar a hegemonia do capital na medida em que seu custo e porte crescentes.
O fato de os processos de geração de conhecimento estarem sujeitos desde o surgimento do capitalismo ao imperativo da maximização do lucro e da reprodução ampliada do capital, que exige cada vez mais a apropriação privada do conhecimento, faz com que suas características fiquem obscurecidas e naturalizadas.A exploração capitalista não aparece, ela não é visível e identificável, no processo de produção do conhecimento (capitalista); muito menos no conhecimento em si mesmo.
E, por isso, também não se explicita a possibilidade de que um outro conhecimento (não capitalista) possa existir. Assim, o conhecimento, sobretudo o denominado científico, aquele que persegue incessantemente a “verdade”, passa a ser entendido como único e universal. Não importa o quão impregnado pelos interesses capitalistas e pelos valores eurocêntricos (o que, pelo menos no início do processo de expansão do capitalismo, não é muito diferente) esteja esse conhecimento científico.
No que respeita ao âmbito tecnológico, do qual se destaca paulatinamente o científico, ocupa o lugar da “verdade”, o mito da “eficiência”. E no terceiro âmbito, o da produção, que anteriormente formava com os outros dois uma totalidade submetida à vontade (valores e interesses) dos produtores diretos, mas que agora é o que mais explicitamente concentra o interesse econômico do capitalista, surge um outro mito; o da “produtividade”. Associado ao anterior a ponto de poder ser entendido como uma particularização, para o “recurso” força de trabalho, daquilo que genericamente vale para todos, ele se converte no critério e no padrão de eficiência da produção capitalista.
À medida que se expande o modo capitalista também se generaliza (e, mais do que isto, impõe-se) a maneira de produzir capitalista.Aquela que subordina os interesses do produtor direto que antes possuía os meios de produção com que trabalhava (e que constituía a maioria da população) à busca do lucro do capitalista. Essa maneira de produzir transforma a relação que os homens tinham entre si e com a natureza. Certas “coisas” – materiais e imateriais, naturais ou produzidas pelo homem, relações sociais e as instituições que as legitimavam etc. – passam a ser valorizadas enquanto que outras perdem o valor que antes possuíam com respeito à esfera da produção dos bens e serviços, que é a que concentra minha atenção, que satisfaziam as necessidades da sociedade.
O exemplo mais simples e conhecido talvez seja o de um minério que, embora sempre tenha existido na natureza, passa a ter valor econômico quando uma mudança tecnológica, provocada é claro por um interesse econômico, torna viável a sua extração. Outro situado num plano bem distinto é o da docilidade ou lealdade de um empregado quando o patrão adota um sistema de organização da força de trabalho que traz internalizada a coerção. Outro ainda, mas no sentido inverso é o que vem ocorrendo com o lixo doméstico que passa a ter valor econômico ou com os créditos de carbono.
O modo capitalista de produzir, num processo sutil que tende a passar tão despercebido a ponto de parecer natural, inevitável, legítimo e racional, engendra, através de um processo de
coorganização ou auto-organização34, o seu próprio critério de eficiência valorizando algumas “coisas” e desvalorizando outras.
Apesar de muito distinta, como era de se esperar, daquela eficiência que possuía o produtor direto não submetido à lógica do capital que passa a lhe obrigar a vender sua força de trabalho, ela também se torna universal. Não há diferença, nesse sentido, em relação a tantos outros construtos epistemológicos, noções, ideias etc. que vão se alterando à medida em que transcorreu aquele processo de coorganização.
Tem atuado de modo extremamente eficaz para legitimar esse conceito de eficiência que transforma em externalidades os custos associados ao uso da natureza com o propósito de viabilizar a acumulação capitalista à síntese cosmogônica judaico-cristã, que para os efeitos da análise feita aqui, confunde-se com a eurocêntrica, que o capitalismo engendrou. De fato, ao contrário de tantas outras, originadas no velho e no novo mundo, que viam o Homem como um ser integrado na natureza, cujo bem-estar dependia de sua capacidade de com ela viver em comunhão, essa cosmogonia o entendia como um filho privilegiado de um deus que o havia criado a sua imagem e semelhança. E, por isso, era superior a todos os outros seres animados e inanimados também criados por ele. E, finalmente, estava “autorizado” a explorar a natureza para satisfazer suas necessidades e, mais do que isto, seus desejos e caprichos.
Muitos filósofos, desde Platão, têm tentado mostrar que não somos como outros animais, que vivem explorando o mundo com o olfato, meio às cegas. Essa antiga crença que vem do platonismo e do cristianismo foi renovada pelo iluminismo quando sustentou que os humanos não pertencem ao mundo natural e a humanidade poderia se livrar dos limites que cercam todas as outras espécies animais. E desde o seu surgimento como tal, a ciência tem sido usada para respaldar a ideia fantasiosa de que os humanos são diferentes de todos os outros animais e possuem uma habilidade excepcional para entender o mundo (GRAY, 2006, p.72).
Ao contribuir para fortalecer o antropocentrismo, este traço característico da nossa cultura, a ciência nos encoraja a crer que somos diferentes (e superiores) de qualquer outro animal. De que podemos entender o mundo natural e, por isso, conquistar o direito de curvá-lo à nossa vontade.
Essa formulação, profundamente arraigada na cultura judaico-cristã foi integralmente incorporada ao pensamento e à práxis socialista. A ideia de que a natureza era o inimigo do homem porque o condenava à extinção e o único projeto humano de valor era uma luta titânica pela imortalidade apoiada na ciência e na tecnologia era aceita por muitos dos intelectuais que moldaram o socialismo soviético. Consolida-se, ao longo do processo de construção do socialismo soviético, a ideia de que o homem estava destinado a ter domínio sobre a natureza e a tecnologia poderia emancipar a humanidade da própria Terra. E fica impregnado no sentido comum daqueles que defendendo o ideal do socialismo eram levados a aceitar o que se veiculava como correto na experiência do socialismo real, a ideia de que a humanidade era a espécie escolhida, destinada a conquistar a Terra e derrotar a mortalidade (Gray, 2006, p.153).
No plano cognitivo, uma consequência dessa concepção, derivada da não problematização dos custos associados ao uso da natureza, foi a não necessidade de desenvolver conhecimentos científico-tecnológicos (parâmetros, relações, variáveis, modelos, algoritmos) capazes de possibilitar sua consideração no ambiente da produção de bens e serviços. Como é usual em processos de coorganização, causa e efeito se confundem neste caso.A inexistência de conhecimentos é consequência da não problematização e, ao mesmo tempo, causa da impossibilidade de, problematizando a questão dos custos associados ao uso da natureza para viabilizar a acumulação capitalista, evitar a degradação ambiental em curso.
Uma “leitura econômica” dessa concepção conduz à ideia de externalidade. Como para todos os efeitos práticos, os custos associados ao uso da natureza eram inexistentes, irrelevantes ou imensuráveis, associá-los à ideia de externalidades era absolutamente normal e legítimo. Maximizar a produção em função dos recursos “escassos” ou custosos, segundo o critério capitalista, ainda que implicando num uso intensivo e predatório de outros, que para todos os efeitos não implicavam em custos econômicos mensuráveis, era um comportamento tido como racional.
A eficiência capitalista, então, ao converter em externalidades aquilo que as sociedades anteriores entendiam e, por isto, valoravam como custos inerentes à produção, mas que deveriam ser controlados em benefício da manutenção do ecossistema que proporciona os recursos que ela emprega, leva inevitavelmente à degradação ambiental. Pode-se dizer, inclusive, que uma parte considerável da riqueza acumulada pelas classes proprietárias decorre da apropriação e uso intensivo e predatório de recursos naturais que ela realizou em detrimento da oportunidade de vida de outros seres vivos, humanos e não humanos.
No que respeita ao terceiro mito, aquele que incide diretamente no âmbito da produção, o da produtividade, é necessário salientar como ele agrava, particularizando, as consequências do anterior, da eficiência. De fato, se o mito da eficiência atinge o conjunto da população (e das gerações futuras), o da produtividade, por se referir a um “recurso” particular, a força de trabalho, afeta, em particular, a classe trabalhadora. Maximizar a produção em função do custo do trabalho vivo, um recurso de utilização incômoda, por poder reivindicar e reagir, é também um comportamento racional. Novamente, neste caso, não importa à lógica capitalista que o modo como se utiliza a força de trabalho ameace a reprodução do sistema em que esta está inserida e que possa implicar na sua degradação.
Vale aqui ressaltar duas particularidades, dramáticas, diga-se de passagem, do recurso força de trabalho. A primeira, é que sua degradação, por ser a contrapartida de um aumento do lucro capitalista, encontra-se ideologicamente “blindada” e não é percebida como tal; pelo contrário, ela é vista e justificada como uma condição do progresso econômico. Na verdade, usar a força de trabalho dessa maneira abusiva é um modo de, tornando abundante este recurso pela via da manutenção de um “exército industrial de reserva”, diminuir ainda mais o seu preço. Há que observar, nesse sentido, como a classe dominante e seus meios de comunicação têm logrado conscientizar a opinião pública em torno da degradação ambiental enquanto a degradação do recurso força de trabalho passa despercebida.
A segunda particularidade é que ao contrário do que ocorre em relação aos recursos naturais, o “ponto de ruptura” do recurso força de trabalho não é uma característica intrínseca e natural e sim ideológica, social e politicamente determinada. Em consequência, essa degradação pode chegar a níveis que, no caso dos recursos naturais configurariam situações de não retorno ou colapso sistêmico.
Aproximando-se do final desta extensa seção, é interessante fazer um contraponto ao que expressei acima a respeito da trajetória que teria seguido, ao longo do processo de transição do feudalismo para o capitalismo, a conformação da matriz tecnocientífica deste modo de produção mostrando uma perspectiva distinta da que informa os parágrafos anteriores. O conhecido ambientalista indiano, Claude
Alvares 35, assim se expressa a respeito da ciência que chamo capitalista e que ele denomina “o projeto ideológico europeu, (...) conhecido como ciência moderna”.
Todo império é intolerante e gera violência. A arrogância da
ciência com respeito à sua epistemologia levou-a a substituir,
pelo seu próprio conhecimento, qualquer outra forma de saber
alternativo, impondo à natureza processos novos e artificiais.
Como era de se esperar, esse exercício gerou uma violência
endêmica e permanente e muitos sofrimentos, à proporção que
as percepções da ciência moderna se intrometeram abrupta e
inadequadamente nos sistemas naturais.Assim, da mesma
forma que, para abrir espaço para sua própria gente, os
europeus mataram milhões de índios norte e sul-americanos e
outras populações indígenas de outras regiões, e assim como
sua medicina eliminou outros tipos de medicina, e suas
sementes desalojaram outras sementes, também seu projeto
ideológico, conhecido como ciência moderna, tentou
ridicularizar e eliminar todas as outras formas de ver, de fazer e
de possuir (Dagnino, 2010). (grifo meu).
Ainda com o objetivo de ilustrar como, a partir de uma perspectiva também bastante distinta da que defendo, reproduzo, a seguir, o pensamento de John Gray (2006) em Cachorros de Palha – reflexões sobre humanos e outros animais (Rio de Janeiro: Record, 2005) um livro que desde a sua publicação, em 2002, vem sendo considerado como uma síntese brilhante dos argumentos levantados pelas correntes críticas ao cientificismo.
Tentando responder a pergunta: “Por que a humanidade nunca poderá dominar a tecnologia?”. Ele afirma que “Humanidade não existe. Existem apenas homens impulsionados por necessidades e ilusões conflituosas e sujeitos a todo tipo de condições debilitantes da vontade e do julgamento” Gray (2006, p. 28). E segue escrevendo que embora os “fundamentalistas científicos” afirmem que a ciência é a busca desinteressada da verdade, representar a ciência dessa forma é ignorar as necessidades humanas às quais ela serve (Gray, 2006, p. 5). Em outra passagem, vai mais além ao afirmar que
“A ciência nunca será usada prioritariamente para a busca da
verdade ou para aprimorar a vida humana. Os usos do
conhecimento serão sempre instáveis e corrompidos como são
os próprios humanos, esses usam o que sabem para satisfazer
suas necessidades mais urgentes – mesmo que o resultado
seja a ruína (Gray, 2006, p.44).
Buscando explicar o prestígio que alcançou a ciência (e a tecnologia) na atualidade, ele escreve que “Hoje apenas a ciência apóia o mito do progresso e se as pessoas se agarram à esperança do progresso não é tanto por uma crença genuína, mas pelo medo do que possa a advir se abrirem mão dela” (Gray, 2006, p.35). Credita esse prestígio também ao fato de que os projetos políticos do século XX falharam ou ficaram muito aquém do que haviam prometido e, em contrapartida, os resultados da ciência (e da tecnologia) são diariamente experimentados e confirmados cada vez que compramos um novo aparelho eletrônico ou usamos um novo medicamento. E conclui afirmando: “A ciência nos dá um senso de progresso que a vida, a ética e a vida política não podem dar”.
Num sentido oposto, ele procura explicar como a visão dominante a respeito da ciência (e da tecnologia) é capaz de deslegitimar visões alternativas.“A ciência tem o poder de silenciar hereges”. Segundo ele, “a ciência é, hoje, a única expressão que pode reivindicar autoridade. Como a igreja no passado, ela tem o poder de destruir ou marginalizar pensadores independentes” (Gray 2006, p.35). E isso, sutilmente, sem estabelecer, a priori, padrões muito rígidos. Ao censurar pensadores que se afastam excessivamente dos paradigmas correntes, ela alimenta a ilusão de que existe apenas uma única visão de mundo legítima.
Num outro contexto, e retomando a analogia entre ciência e religião colocada por outros autores, Gray afirma que:
Hoje, para a maioria da humanidade, a ciência e a tecnologia
são a materialização de “milagre, mistério e autoridade”. A
ciência promete que as mais antigas fantasias humanas serão
finalmente realizadas. Como o cristianismo no passado, o
moderno culto da ciência vive da esperança de milagres. Mas
pensar que a ciência pode transformar a sorte humana é
acreditar em magia (Gray, 2006, p.139).
E completa dizendo:“A ciência é um lugar onde nos refugiamos da incerteza. Ela nos promete em alguma medida produzir o milagre de nos livrar de pensar, enquanto as igrejas passaram a ser lugares de proteção e refúgio para as dúvidas (Gray, 2006, p.36).
Concluindo esta incursão no pensamento crítico não marxista da ciência e da tecnologia, reproduzo uma provocativa frase de Gray a respeito da comunidade de pesquisa:
Como os cristãos dos tempos antigos, os cientistas estão
presos às malhas do poder; lutam para sobreviver e ter
sucesso; suas visões de mundo são um amontoado de crenças
convencionais.A ciência não pode trazer “milagre, mistérios e
autoridade” para a humanidade, quando mais não seja porque –
como no caso daqueles que serviram para a igreja no passado
– seus servos são extremamente humanos (Gray, 2006, p.141).
Para encerrar essa caricatura acerca de como o desenvolvimento do capitalismo condicionou o que temos chamado de ciência e tecnologia, faço duas considerações.
A primeira aproveita a deixa da última citação de Gray, para lembrar a contribuição inestimável que deram as elites ilustradas situadas nos espaços onde se produzia e cultuava o “saber” para legitimar pela via ideológica o processo através do qual, o conhecimento científico capitalista logrou impor sua “verdade”. Processo que demandou, inclusive, fazer desaparecer aquilo que produziam as sociedades antes existentes, e que era compartilhado quase sem exceção pelos seus integrantes. O mesmo não ocorre com o conhecimento tecnológico. Nesse caso, o processo de coerção foi bem menos sutil.
A segunda consideração nos remete de volta ao presente para nos darmos conta de como esse processo, que é muito antigo, vem se radicalizando ao ponto de que hoje 70% das pesquisas que se fazem, no mundo, são feitas em empresas (e 50% nas transnacionais). E, também, de como esta associação de dois termos – ciência e tecnologia – é cada vez menos apropriada para fazer referência ao conhecimento que essa pesquisa produz. O conceito de “tecnociência” parece mais adequado. Dentre outros motivos, porque não é apenas no plano da prática concreta que a distinção entre eles se mostra cada vez mais sutil: hoje os países de capitalismo avançado não fazem mais política científica e tecnológica, mas sim política de tecnociência; claro que em benefício das empresas.
O corte espacial – ciência se faz na universidade, e tecnologia se faz nas empresas – já não têm sentido. As universidades realizam desenvolvimento tecnológico, e as empresas fazem pesquisa científica. Uma das empresas importantes do setor de informática já teve dez prêmios Nobel, na sua folha de pagamento, dedicando-se a fazer pesquisa. Isso nos faz revisar a distinção entre a ciência e a tecnologia e dizer que a tecnologia é ciência aplicada, ou que a ciência precede a tecnologia, ou que a ciência pode ser utilizada, como tecnologia, para o bem ou para o mal.
O corte temporal tampouco sobrevive. No passado, as ideias novas demoravam muito tempo para chegar ao mercado; as invenções demoravam muito também para se transformar em inovações. Atualmente, no entanto, esse tempo vem se reduzindo até o ponto de que hoje somente as regulações – como as que estabelece o Departamento de Saúde norte-americano, que exige que uma nova molécula seja testada, durante algum tempo, retardando sua entrada no mercado farmacêutico – fazem com que as invenções não se transformem mais rápido em inovações.
Expostos esses dois cortes – espacial e temporal – porque já não são válidos, é hora de passarmos a entender a dinâmica de produção do conhecimento cada vez mais como produção de “tecnociência”. A ideia de que para a resolução de problemas sociais – para a inclusão social – é necessária uma tecnociência capaz de incorporar os valores e interesses dos segmentos excluídos ganha, então, plausibilidade. Se aceitamos que a tecnociência existente guarda, internalizados, os valores e interesses do capital, temos que aceitar que uma tecnologia social, para que possa resolver problemas sociais, para que possa alavancar a inclusão social, terá que ser contaminada por outros interesses e outros valores. Essa é uma das ideias centrais do que tenho defendido.
Para concluir esta seção e com uma ajuda de memória, resumo de forma “telegráfica” os eventos e as características do processo que nos levou da economia informal (não capitalista) à economia formal (capitalista):
acumulação primitiva;
assalariamento;
legalização da propriedade privada dos meios de produção; segmentação e hierarquização do trabalho; expropriação do conhecimento do trabalhador direto; naturalização da propriedade privada (temor à respeito); naturalização da separação trabalho manual x intelectual, sistematização/segmentação do conhecimento imposta pela produção;
autonomização do conhecimento em relação à produção; fetichização da propriedade privada (respeito à idolatria). Entendendo processos: da economia formal