Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
A dimensão “Possibilidade de desconstrução da Tecnologia Convencional”
é definido, negociado, processado, trabalhado etc.)
28) Grupos sociais relevantes45: suas características e modo de
atuação no processo de estabilização do artefato46
A dimensão “Possibilidade de desconstrução da
Tecnologia Convencional”
Considero que muitas das dimensões acima nomeadas precisam ser mais esclarecidas. É o que tento fazer nesta seção e nas que se seguem.
Trato aqui dos conceitos de instrumentalização primária e secundária. Embora eles tenham a TC como referência, parecem-me essenciais para materializar a ideia contida em nossa definição mais simples de Tecnologia (para a inclusão) Social como sendo aquela que não é a Tecnologia (da e para as empresas) que tenho denominado, para marcar a distinção, Convencional. E, em consequência, para implementar processos de Adequação Sociotécnica a partir da desconstrução da TC mediante a qual eles se estruturam.
Os conceitos de instrumentalização primária e secundária provêm da leitura acerca da abordagem crítica da tecnologia baseada na reflexividade deste conceito, realizada por Feenberg. Ele incorpora a Marcuse, recorre ao construtivismo (enfoque sociotécnico) e à teoria da comunicação de Habermas para mostrar a essência da tecnologia como histórica e reflexiva. Ele realiza em relação à tecnologia algo semelhante ao que se pode fazer com outras instituições sociais do capitalismo. Isto é, entender e criticar a maneira como sua racionalidade responde a valores e interesses particulares.
Decorre dessa leitura a proposição de que quando o projeto técnico for submetido a exigências democráticas, ocorrerão profundas mudanças sociotécnicas nas atividades de concepção dos artefatos tecnológicos.
Sobre as propriedades reflexivas da prática técnica, ele inicia afirmando que a tecnologia (capitalista, agrego eu), como todas as instituições sociais, tem propriedades reflexivas. Muito embora isso não seja reconhecido devido à sua identificação com uma ideologia especial (imune à reflexibilidade) que naturaliza suas características (de novo, agrego eu, capitalistas). Baseando-se em Habermas, ele afirma que a essência da tecnologia não é formada apenas por construtos conceituais extra-históricos. Esses construtos (determinações compartilhadas por qualquer tecnologia) devem ser considerados como uma essência anterior à história. São abstrações das várias essências historicamente concretas da tecnologia em seus diferentes estágios, o que inclui o seu atual estágio moderno.
As várias racionalidades técnicas que apareceram no curso da história seriam, cada uma delas, caracterizadas por um viés formal (racionalização secundária) que se associa à sua configuração específica (racionalização primária). Mas sua essência não é formada por aspectos sócio-históricos (Habermas). Esses construtos (determinações compartilhadas por qualquer tecnologia) devem ser considerados como uma essência “anterior”, no sentido analítico, à história. Eles devem ser entendidos como abstrações das várias essências historicamente concretizadas (tecnologias) que foram concebidas ao longo de uma trajetória que inclui o estágio moderno e o contemporâneo.
A existência desses construtos é o que permite a formulação do conceito de “instrumentalização primária”. O processo de sua combinação com atributos que se desenvolvem historicamente, conformando um todo, que se nos apresenta como um artefato tecnológico dado, é a “instrumentalização secundária”. As propriedades reflexivas da tecnologia fazem com que ela se manifeste através desses atributos e apareça como inseparável do seu contexto social e natural que os condiciona. Exemplos desses atributos são as formas estéticas, a organização do trabalho, os requisitos de capacitação profissional e outras propriedades relacionais dos artefatos.