Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Sobre a “inspiração” das incubadoras universitárias de cooperativas
Sobre a “inspiração” das incubadoras
universitárias de cooperativas
Tomar como “inspiração” a incubadora de empresas, como fez o Pinguelli, para canalizar a energia dos professores e estudantes universitários que se alinham numa perspectiva crítica ao capitalismo, parece, para muita gente, acertado e natural. De fato, nunca vi a ideia “incubadora” ser questionada por eles.
Pelo contrário, e agora deixando de lado a questão da “inspiração” – ou da emulação do arranjo incubadora de empresas – cabe salientar que essa ideia é totalmente compatível com a concepção de extensão universitária daqueles estudantes e professores. A qual, diga-se de passagem, ao concentrar-se naqueles segmentos excluídos que mais precisam adquirir consciência de sua condição de explorados e se organizar para seu enfrentamento, diferencia-se da concepção ainda majoritária no âmbito da esquerda. Concepção que se assemelha à de filantropia e de assistencialismo, que são as concepções que animam seus aliados não pertencentes ao campo da esquerda. E, é claro daquela – mais do que conservadora, reacionária – que entende a extensão como uma “prestação de serviço” às atividades empresariais.
Não pretendo detalhar aqui as observações que tenho feito ao traço comum que possuem essas três concepções (e especialmente, em função de minhas preferências às observações críticas, as duas primeiras) por elas proclamarem ser possível que um ator social (a universidade) possa “estender” a outros um conhecimento que ele produz sem a sua participação, ou sem sequer ter indagado, a priori, que tipo de conhecimento estes atores desejam. Como se o modelo simplista de “oferta e demanda” fizesse algum sentido para explicar e atuar sobre uma relação – a geração de conhecimento – que tem por objetivo a produção de um tipo de valor de uso (que tende a “adquirir” um caráter de mercadoria e adquirir um valor de troca) com características tão peculiares.
A argumentação – explícita ou implícita, ingênua ou hipócrita – desses estudantes e professores (e por consequência deles próprios quando veiculando o ethos da comunidade de pesquisa se tornam ou se travestem de gestores) é mais ou menos a que segue. Se as empresas precisam de incubadoras para absorver os resultados da pesquisa que se faz na universidade (e seus dirigentes, por um sentimento de culpa oriundo da liberdade que possuem para pesquisar o que desejam, ou para legitimá-la, pretendem, “estender”) e, assim, tornarem-se competitivas, por que, no caso das cooperativas, isto seria diferente? Sua sustentabilidade não seria também facilitada através do estreitamento do contato com a universidade que a incubadora de cooperativas propiciaria?
Apesar de natural, essa ideia e a “inspiração” que dela decorre são equivocadas.A de que as incubadoras universitárias de empresas têm contribuído (ou podem contribuir diretamente) como se pensa para a competitividade empresarial, em geral, e das empresas incubadas, em particular. Sobretudo se o objetivo é entendido no âmbito macro, de um país e, mais ainda, na perspectiva do interesse público, uma vez que, em geral, está-se envolvendo universidades públicas que recebem recursos públicos.
Como irei argumentar, nas duas seções que seguem, as ideias que fundamentam arranjos institucionais como as incubadoras de empresas, que materializam a política de C&T latino-americana, originam-se ao longo de um complexo processo de coorganização – ou construção histórico-social – que ocorre, sobretudo, nos países de capitalismo avançado; e quando aqui chegam e são “transduzidos” já se encontram, como diria o jargão da abordagem sociotécnica, “estabilizados”. Irei também argumentar que essas ideias e arranjos não podem ser entendidos como equívocos ou como adaptações malfeitas – periféricas – de algo que lá, no capitalismo “de verdade”, usando novamente esse jargão “funcionam”: lá como aqui eles “funcionam” para atender os interesses dos atores dominantes. E, lá como aqui, eles se apoiam num naturalizado e, por isso, sólido conjunto de valores, crenças (ou mitos) que tenho denominado “concepção da Neutralidade e do Determinismo da Tecnociência”.