Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas
Mais alguns elementos de avaliação
A tarefa de capacitação dos estudantes exercida pelas incubadoras está longe der ser irrelevante ou fácil. Pelo contrário, preencher aquele hiato é uma tarefa de enormes proporções. Hiato que, especialmente no caso da universidade pública, se ela fosse efetivamente plural e se estivesse a serviço do conjunto da população ou dos que de fato a mantêm com o imposto que pagam, deveria ser entendido como uma de suas principais deficiências.
O que se quer salientar é que manter a expectativa de que as incubadoras de cooperativas possam dar conta desse desafio, sem falar dos que são vistos como sua real atribuição, mas se encontram ainda mais distantes do espaço hoje coberto pela sua atuação – incubação de cooperativas – é, por um lado, uma ingenuidade. Por outro, como frequentemente ocorre em situações desse tipo em que um recurso escasso e precioso – a energia de estudantes e professores que possuem um “grau de rejeição aos valores capitalistas” suficiente para dedicar seu esforço às incubadoras – é empregado sem uma visão estratégica, essa expectativa e as ações que dela decorrem podem ser contraproducentes.
Mais alguns elementos de avaliação
O que chamei acima de visão estratégica é algo que demanda uma análise por parte das incubadoras universitárias de cooperativas ao realizarem uma avaliação como aquela para a qual este livro pretende colaborar. E é com essa intenção que adentro agora a um território normativo. Formularei mais algumas ideias visando a contribuir para a reorientação das atividades que têm sido desenvolvidas em torno das incubadoras de cooperativas num sentido coerente com o que se sugere ao longo deste texto.
Essas ideias e proposições se relacionam estreitamente ao que aludi, no começo deste texto, acerca da constatação de que os países da América Latina em que menos se avançou na criação de incubadora de cooperativas são os que apresentam a maior quantidade de cursos de extensão e especialização, e de disciplinas regulares oferecidas nas universidades sobre temas relacionados à Economia Solidária e Tecnologia Social. E que, no Brasil, onde mais se avançou em relação a elas, era proporcionalmente muito escassa a experiência das universidades no oferecimento de oportunidades para seus alunos e para o público em geral de atividades de capacitação nesses temas.
Antes de seguir argumentando no sentido de que essas atividades sejam priorizadas pelos partidários das incubadoras de cooperativas, ressalto que o raciocínio que vem sendo desenvolvido aqui, quando enfrentado a essa constatação, coloca algumas perguntas acerca dessas incubadoras.
Primeira: (a) dado que sua atividade principal é a capacitação de um número muito menor do que aquele que a universidade, sobretudo a pública, deveria formar nos temas que elas tratam; (b) dado que o número de estudantes e professores engajados com as incubadoras é claramente insuficiente para levar a bom termo esta capacitação com a qualidade e quantidade adequadas; (c) dado que a capacidade que eles possuem para mobilizar a universidade e arregimentar apoios externos junto a movimentos sociais, ao governo etc., no sentido de fazê-la atender a essa demanda por capacitação talvez possa ser melhor aproveitada; não seria necessário canalizar prioritariamente a sua energia, hoje despendida somente para manter as incubadoras em funcionamento, para esta última atividade?
Enquanto a primeira pergunta trata daquilo que tem sido a atividade principal das incubadoras, a segunda aborda seu “propósito declarado”, ou seja, incubar cooperativas dotando-as de conhecimento tecnológico desenvolvido na universidade capaz de garantir a sua sustentabilidade. Assim: (a) dado que a quantidade de estudantes e professores engajados com as incubadoras é claramente insuficiente para elevar o número muito pequeno de pessoas que participam em empreendimentos solidários que neles poderiam encontrar uma alternativa de trabalho e renda que as empresas dificilmente poderão proporcionar – mediante a uma incubação que assegurasse sua “sustentabilidade tecnológica”; (b) dado que essa tarefa demanda profissionais (especialmente, professores) de um tipo que não é o daqueles que costumam se envolver com as incubadoras de cooperativas; (c) dado que o desenvolvimento do tipo de tecnologia que se está tratando, além de contrariar a “lógica” de funcionamento da universidade e da própria tecnociência, demanda conhecimentos que só poderão ser gerados caso os professores e estudantes – principalmente os das “ciências duras” – sejam “seduzidos” pelos valores e interesses da Economia Solidária que os partidários das incubadoras promovem; (d) dado que sua capacidade para mobilizar a universidade e arregimentar apoios externos junto a movimentos sociais, ao governo etc., no sentido de tornar atrativo para esses professores e estudantes o desenvolvimento de Tecnologia Social; não seria mais efetivo canalizar a energia, hoje despendida para manter as incubadoras em funcionamento, para viabilizar atividades de pesquisa e ensino desta natureza?
O que se quer não é negar que isso de alguma maneira esteja sendo feito e que se estejam obtendo bons resultados dentro da universidade. Mas, sim, apontar que aquilo que se está alcançando é menos do que se poderia obter com a energia das pessoas (estudantes, professores etc.) envolvidas, no âmbito de instituições públicas – de ensino, pesquisa e planejamento e fomento à C&T – que possuem, provavelmente, o maior grau de autonomia relativa no interior do Estado capitalista.
Tampouco se quer atribuir essa situação a um desinteresse ou apatia dos militantes da esquerda universitária. De fato, talvez devido ao seu perfil, muitos deles, que como se escreveu acima possuem um alto “grau de rejeição aos valores capitalistas”, estejam orientando sua energia em outras direções. Um exemplo disso são as dezenas de trabalhos acadêmicos (inclusive de pós-graduação) sobre o tema da Economia Solidária, da Tecnologia Social, da autogestão, das metodologias de incubação etc. Outro são os mais de cinquenta cursos que estão sendo criados para atender ao MST, como o de Direito na Universidade Federal de Goiás, de Veterinária na de Pelotas, de Pedagogia na UFSCar. Eles respondem a uma demanda forte e concentrada com elevado potencial político de mobilização e conformação da agenda da esquerda universitária.
É verdade que não existe nada com intensidade semelhante a esse “mercado político” no campo que se está abordando neste texto. Não existe um “mercado econômico”, algo capaz de enfeixar os interesses dispersos que, embora politicamente muito menos poderosos, se expressam com importância crescente no campo da Economia Solidária e dos inúmeros empreendimentos solidários que estão brotando no Brasil.
O que se quer é chamar a atenção para esse “mercado econômico”. Salientar que ele deve ser alvo das ações de capacitação (formal e via cursos de extensão e especialização) e de desenvolvimento de Tecnologia Social que terão que ser realizadas pela universidade. Que ele possui um potencial capaz de gerar inclusão socioeconômica, inclusive, no espaço urbano das nossas crescentemente excludentes metrópoles. Que embora ainda pouco visível, ele merece urgentemente uma maior atenção daqueles que possuem um alto “grau de rejeição aos valores capitalistas”.
Para se ter uma ideia do tamanho desse “mercado econômico” em termos de pessoas, basta lembrar que dos 160 milhões de brasileiros em idade de trabalhar menos de 50 possuem um emprego formal. E que, como os empreendimentos solidários agrupam somente 2 milhões de pessoas, são cerca de 100 milhões os “candidatos” a integrar a Economia Solidária. Seu potencial de crescimento pode também ser avaliado pelo volume de produção que pode derivar do trabalho desses 100 milhões para proporcionar bens e serviços, e oportunidade de trabalho e renda para este contingente, sem o custoso “vazamento”, sob a forma de lucro empresarial (e outros fluxos de recurso menos legítimos), que implica a intermediação das empresas.