Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas

Instrumentalização Secundária

Autonomização

O sujeito da ação técnica se isola dos efeitos das ações técnicas. A ação técnica autonomiza o sujeito dissipando ou atrasando a resposta do objeto à ação (soco da arma ao matar um homem; zumbido do vento ao arremessar uma tonelada de aço pela estrada).

Consentimento

O sujeito da ação técnica não modifica as “leis” básicas dos seus objetos; eles as aceita e usa-as o seu favor. Toda a ação técnica é uma navegação que segue as tendências do próprio objeto para extrair resultados. O controle do trabalhador e do consumidor, através do design do produto, tem uma estrutura similar. Não se pode “operá-los” da mesma forma que se faz máquinas, mas pode-se influenciá-los a se encaixar em programas preexistentes.

 

Instrumentalização Secundária

A técnica é fundamental e intrinsecamente social. Para entendê-la é necessário incorporar à análise a instrumentalização secundária, que opera nas dimensões da realidade onde a abstração (instrumentalização primária) foi primeiramente feita.

Sistematização

Combinação e sistematização de objetos técnicos (isolados e descontextualizados). Preparação para a reinserção dos mesmos num novo contexto, de forma a fazê-los funcionar para atender a um fim socialmente dado, como um dispositivo semelhante aos originalmente encontrados na natureza.

Mediação

Mediações éticas e estéticas suplementam os objetos técnicos simplificados com novas qualidades secundárias que os reinserem no contexto social. Nas sociedades tradicionais, a ornamentação dos artefatos e suas significações éticas são integradas e indistintas de sua produção e emprego. Nas sociedades industriais modernas, ocorre uma separação – artificial – entre aspectos técnicos e considerações éticas e estéticas. No entanto, uma vez produzidos, os objetos e sistemas técnicos readquirem características éticas e estéticas.

Compreensão

A autonomização do sujeito técnico é superada pela compreensão que passa a ter do objeto em função da aquisição de uma capacitação profissional. O sujeito não está mais isolado dos objetos e se transforma devido à relação técnica que passa a ter com eles. Essa relação supera a contemplação passiva e a manipulação externa do objeto e envolve o trabalhador na realidade de seus objetos, corporalmente como sujeito e como membro de uma comunidade que ganha identidade através dele. Essa compreensão possibilitada pela capacitação técnica é o que permite ao sujeito sentir o impacto reverso do objeto mediante seu envolvimento com ele. Ela, entretanto, tende a ser obscurecida pelo trabalho assalariado, que substitui a perícia intrínseca, “de por vida”, do produtor independente pelo emprego provisório sob controle administrativo.

Iniciativa

A iniciativa liberta o trabalhador/consumidor do controle técnico imposto pelo consentimento. A cooperação no trabalho, a apropriação de dispositivos e sistemas pelos usuários são alternativas ao controle administrativo. É possível reduzir a alienação mediante a substituição do controle vertical pela auto-organização e o reprojetamento.